Pandemia de coronavírus

Segundo colapso de Manaus simboliza o Brasil que já perdeu 200.000 vidas para a covid-19

Capital do Amazonas não tem mais leitos para receber os pacientes do novo coronavírus e repete cenas de nove meses atrás, evidenciando as lições não aprendidas pelo país na crise sanitária

Agente funerário no Hospital 28 de Agosto, em Manaus, em 4 de janeiro, dia de internações recorde.
Agente funerário no Hospital 28 de Agosto, em Manaus, em 4 de janeiro, dia de internações recorde.Bruno Kelly

Cento e dez pessoas foram sepultadas em um único dia em Manaus. A marca, 233% maior que a média de antes da pandemia, foi atingida nesta quarta-feira após quatro meses de registros de aumento no número de internações por covid-19 na cidade. Dezenove pessoas morreram em casa. As mortes fora do ambiente hospitalar mostram o tamanho do problema: sem vagas na rede privada e com a rede pública operando com média acima de 90% de taxa de ocupação de leitos de UTI e leitos clínicos nas duas últimas semanas, a capital amazonense enfrenta a segunda onda da pandemia, iniciando o ano de 2021 na fase mais grave do plano de contingenciamento da doença: a fase roxa, onde a previsão de esgotamento de leitos de UTI é em até seis dias. O segundo colapso de Manaus, nove meses depois de a cidade chocar o país com imagens de covas e carros refrigerados à espera de corpos em centros médicos, é símbolo do Brasil que aprendeu poucas lições na crise sanitária que já levou mais de 200.000 vidas.

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Na capital do Amazonas já não há registro de vagas de leitos clínicos na rede pública ―apenas no setor oncológico e maternidades. Há 16 vagas em UTI para uma população de 2,2 milhões de habitantes. A situação ainda é pior no vasto interior do Estado, que não tem nenhuma unidade de terapia intensiva. Mesmo com a longa crise, nenhum novo leito permanente foi criado. O Governo Wilson Lima (PSC) apenas vem remanejando vagas de outros setores, para críticas de setores médicos, e até hospitais em obras recebem pacientes acima da capacidade. As autoridades também já descartaram a construção de novos hospitais de campanha.

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Em toda a cidade, as cenas se repetem: pacientes sendo atendidos sentados no corredor, câmeras frigoríficas que voltaram a ser instaladas nos quatro principais hospitais públicos, ambulâncias percorrendo as unidades de saúde atrás de leitos, aumento da procura por aluguel de cilindros de oxigênio para ter alguma perspectiva de atendimento em casa. Tudo como no primeiro semestre, quando o sistema de saúde da capital amazonense foi o primeiro a colapsar no país.

“Estamos extremamente cansados e precisamos de material. Faltam luvas, falta gente para trabalhar! Em uma ala com 37 pacientes é impossível uma equipe de nove pessoas atender a todos. Os pacientes não conseguem pegar o copo d’água ao lado. Estão fracos e nós não conseguimos sequer dar água para todo mundo”, afirma a enfermeira Sílvia Costa, que preferiu usar um nome fictício para se não sofrer represálias. Ela trabalha no Hospital e Pronto Socorro 28 de Agosto, uma das unidades de referência para atendimento da covid-19 no Amazonas.

A contagem de mortos já chega a 5,5 mil em todo o Estado, com uma população de 4,2 milhões habitantes. Mais de 2.100 novos casos foram confirmados nas últimas 24 horas, totalizando 207.092 pessoas infectadas no Amazonas. Do início da segunda onda, apontada por especialistas como o mês de agosto, até dezembro, Manaus registrou 46.626 casos da doença, o que representa 56,7% do total de notificações ao longo de toda a epidemia.

O aumento do número de mortes diárias registradas nos últimos dias acendeu o alerta da Prefeitura de Manaus que anunciou a construção de mais de 22.000 vagas para sepultamentos em sistema de gavetas, uma vez que não há mais espaço para enterros na terra. A estimativa no final de dezembro, de acordo com a administração municipal, era de que restavam apenas mais 80 vagas. No dia 5 de janeiro, a Prefeitura de Manaus decretou estado de emergência por 180 dias.

Crianças entre as internações graves

A segunda onda castiga a cidade de maneira inédita e joga por terra a perspectiva de que a chamada imunidade coletiva ou “imunidade de rebanho”, quando a doença se espalha de tal forma em uma zona que impede ou reduz ao mínimo a transmissão do vírus. Foi em 4 de janeiro que Manaus bateu o recorde de hospitalizações de pessoas com covid-19 em um único dia: 183 internações. Até mesmo as crianças, até então poupadas, estão registrando casos graves: atualmente 11 estão internadas, sendo quatro delas em UTI.

Para tentar aplacar a demanda, hospitais adotaram um sistema de triagem em tendas montadas na área externa, mas isso tem provocado constantes reclamações por parte de familiares e pacientes. Apesar de não ser a primeira vez que a fórmula é aplicada, a desorganização e a falta de informação, sem qualquer identificação por meio de ficha ou ordem de chegada, gera tumultos. Idosos com relatos de falta de ar chegaram ter que esperar quase 50 minutos enquanto outros pacientes passavam à frente, conforme constatou a reportagem em um hospital localizado na zona centro-sul no início desta semana.

“Minha mãe estava com a saturação [de oxigênio] em 80%, foi levada direto para a internação, só que acabou indo sem documento, sem nada. Estou preocupada, mas já avisaram que hoje não terá informações. A gente tem que dar a sorte de sair alguém aí de dentro e implorar para ajudar”, conta Alcilene de Jesus, 34, enquanto aguardava do lado de fora num local com bancos e dois banheiros químicos.

Um espaço do estacionamento da Fundação Alan Kardec, vizinho ao hospital, passou a servir de sala de espera e de informações para os parentes nos primeiros dias do ano. Em 5 de janeiro, foi a vez de um grupo de 37 bombeiros militares assumir o serviço de triagem dos pacientes no local, com uma equipe formada por médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem.

“Manaus, novamente, mergulhou no caos”, afirma o epidemiologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Amazônia, Jesem Orellana, que lamenta porque as autoridades não ouviram os alertas feitos a partir de agosto. Se Manaus tivesse cumprido outras semanas de restrições, não estaria em novo colapso como agora, ele garante. Ele cita três indicadores para ilustrar o que fala: o número de casos de covid-19 confirmados por data de notificação; o número de mortes confirmadas da doença e a incidência da síndrome respiratória aguda grave (SRAG), um dos quadros mais comuns em casos graves de coronavírus. “A extrema gravidade da situação da epidemia seguiu sendo minimizada pelas autoridades sanitárias”, lamenta Orellana.

Outro ponto levantado pelo epidemiologista, mas que ainda precisa ser “melhor compreendido enquanto ciência”, ele pondera, é a possibilidade de casos de reinfecção estarem acontecendo em proporção maior do que se imagina. “E se essas reinfecções estão sendo acompanhadas de quadros clínicos mais graves, você tem uma grande quantidade de gente agravando mais agora do que anteriormente”, especula.

Obras e calor em meio à internação

No Hospital e Pronto Socorro Platão Araújo, uma das referências de atendimento de covid-19 na zona leste da cidade, as enfermarias lotadas, com pacientes se abanando para amenizar o calor e profissionais de saúde comendo em um espaço restrito e sem distanciamento convivem com obras estruturais. Bate-estaca em meio aos doentes agonizantes.

Durante os primeiros dias de janeiro, Daniel Ramos, de 35 anos, viu muita gente doente chegar ao local e também várias pessoas chorando ao ter que reconhecer os corpos de pacientes mortos. “A cada momento eu choro por conta disso”, afirma o técnico em radiologia que aguardava por notícias da mãe, de 63 anos, do lado de fora do hospital no segundo dia do ano.

“Ela começou a piorar antes do Réveillon. No dia 2, começou a ficar com os dedos da mão e do pé roxos, estava com a saturação em 65%. Disseram que não tinha vaga. Quando a ambulância já ia para outro hospital, graças a Deus apareceu um leito”, conta o Daniel, que está desempregado, mas é favorável ao fechamento do comércio, que só foi decretado por ordem judicial. Antes, o governador Lima tentou impor restrições, mas protestos populares o fizeram voltar atrás no período de festas. “Sei da dificuldade e da luta do pessoal da saúde que não tem material, sei que estão fazendo o possível. Ainda vou fazer enfermagem e, se deus quiser, vou ser um bom profissional”.

No Instituto de Saúde da Criança do Amazonas (ICAM), principal unidade de atendimento de urgência e emergência infantil na zona centro-sul, também falta material humano e estrutural. “Você tem que guardar a luva se quiser trabalhar”, afirma a técnica em enfermagem Ivaneide Castro, 39, que trabalha no local e também preferiu usar um nome fictício para se proteger. “Na unidade semi-intensiva e enfermaria já tem paciente com covid-19 misturado aos demais”, afirma.

Com o sobrinho de um ano no colo, Erineide de Oliveira, de 18 anos, foi acompanhar a irmã, Thalita de Oliveira, 23, no ICAM em 3 de janeiro, que levou o filho para ser atendido em consulta. A movimentação no local era intensa. “Ele teve covid-19 e ficou internado em outro hospital durante uns três dias. Tem uma semana que saímos, mas ele estava puxando muito o ar, com febre e nariz entupido”, contou Erineide, sobre o sobrinho.

O mais dramático, apontam os especialistas, é que o cenário colapsado ainda não reflete as aglomerações das festas e compras de fim de ano, quando o comércio de Manaus funcionou normalmente com lotação nos principais centros comerciais da cidade. Sem testagem em massa e sem previsão de vacinação tão cedo, o epidemiologista Jesem Orellana prevê o aumento de mortes ao longo do mês de janeiro e até mesmo de uma possível terceira onda.

“A terceira onda cedo ou tarde vai acontecer caso continuem gerenciando a pandemia com os mesmos critérios da primeira onda e segunda onda, que fracassou nas duas vezes. Se levarmos em consideração o quesito vacinação, não dá nem para falar que o Amazonas está atrasado, já que não está nem discutindo o assunto”, afirma.

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