A pandemia de coronavírus

Onda de casos de covid-19 em Manaus coloca em xeque a sonhada imunidade de rebanho

Aumento das infecções na capital amazonense lança dúvidas sobre o estudo que apontou, em setembro, que a cidade foi a primeira do mundo a conter o coronavírus sem fazer nada, mas ao custo de muitas vidas

Uma rua lotada de pessoas no centro de Manaus, na primeira semana de outubro. Bruno Kelly

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O recente aumento de contágios por coronavírus atrapalhou os melhores planos para se divertir e compensar o calor úmido de Manaus: ir à praia de areias douradas nas águas do Rio Negro ou fazer festas em casinhas flutuantes com música a todo volume está proibido durante um mês na cidade. A retomada da pandemia lança dúvidas sobre o estudo científico preliminar que, em setembro, apontou que 66% dos moradores da maior cidade da Amazônia brasileira têm anticorpos para a covid-19 e, assim, Manaus havia alcançado a imunidade coletiva que impede ou reduz ao mínimo a transmissão do vírus. Parecia promissor. Seria a primeira grande cidade do mundo a conter o vírus praticamente sem fazer nada, embora ao custo de uma pilha de mortos. Seus quase dois milhões de habitantes entraram no radar de virologistas em todo o mundo.

A pandemia causou, segundo dados oficiais, ao menos de 2.685 mortes em Manaus e 160.000 infectados no Amazonas, onde proliferam teorias da conspiração e notícias falsas sobre essa praga do século 21. Difícil esquecer os enterros coletivos no cemitério municipal. Embora para muitos moradores isso de imunidade de rebanho soe como chinês, boa parte se comporta como se fosse uma realidade inquestionável e achava que não corria o risco de infectar-se. “Muitos pensavam que não iriam se infectar, não estavam preocupados. Infelizmente, muitas pessoas morreram por serem imprudentes e irresponsáveis”, explica uma veterana fiscal de saúde da Prefeitura, Luciana Fares.

Durante uma recente operação fluvial de vigilância por causa do aumento dos contágios, a fiscal advertiu as pessoas que participam de várias festas em casinhas flutuantes, temporariamente proibidas, como os bares e as discotecas. É um plano dos mais tentadores ―para quem tem condições de pagar― quando faz mais de 30 graus e 70% de umidade. Todo o dia de roupa de banho, entrando e saindo da água, com música para dançar ou cochilar na rede e cerveja bem gelada.

Para Ralf, de 20 anos, frustram o 29º aniversário de sua mulher, que eles comemoram em família em uma dessas casinhas. Estavam prestes a sair da água para cortar o bolo de chocolate quando chegou a fiscal acompanhada de um batalhão dividido em três lanchas. São policiais e militares armados, fiscais de saúde e do meio ambiente e uma equipe deste jornal. Cerca de 20 pessoas. “Quem me alugou disse que não iríamos ter problemas, que estava tudo resolvido”, explica este funcionário público que se esconde sob pseudônimo porque trabalha para o Estado. Apesar da operação, seu poder coercitivo é limitado. Aplicam uma multa, que nem sequer é para eles, mas para o proprietário, mas os representantes do Estado também não podem acabar com a festa porque não têm meios para os levar para o cais.

O citado estudo de cientistas das Universidades de São Paulo, Oxford, Harvard e outras instituições de pesquisa indica que, apesar da volta à normalidade sem vacina, Manaus conteve a epidemia graças ao fato de muitos moradores terem anticorpos e o coronavírus esbarrar constantemente em becos sem saída que o impedem de se espalhar. A pesquisa ainda não foi revisada por outros cientistas. Especialistas locais descartam que os novos contágios sejam uma segunda onda, mas pedem cautela. “O que esperamos para confirmar realmente esse porcentual de imunidade de rebanho é um programa de testes em massa da população, o N (a amostra) da pesquisa é muito pequena em relação à população”, explica em sua sala o infectologista Antonio Magela Tavares, diretor de assistência médica da Fundação de Medicina Tropical. Usando uma máscara de estampa de camuflagem militar, ele insiste em que estavam cientes de que o vírus chegaria, mas não com tanta fúria. Isso os pegou desprevenidos.

O outro problema que Tavares aponta no estudo sobre a imunidade coletiva é que ele se baseia na análise de doações de sangue coletadas antes e durante a pandemia em um grupo geralmente saudável. Um perfil muito diferente dos idosos, obesos, hipertensos e doentes crônicos em que o vírus tem caráter devastador. “Infelizmente, entre os pacientes renais, a mortalidade superou 90%”, enfatiza.

A pandemia teve três fases em Manaus. Primeiro, uma explosão de casos em abril e maio, com um pico de mortes sete vezes maior do que a média de enterros antes da epidemia e ambulâncias esperando por horas para que seus pacientes fossem colocados em um leito de UTI. Segundo, diminuição e estabilização de contágios de junho a setembro, apesar do retorno às atividades com as lojas, igrejas, escolas, bares e a praia reabertos. Terceiro, um aumento de casos há duas semanas que se traduz em um mês de restrições. De novo, muitos as ignoram.

Manaus é a capital mais remota do Brasil, mas uma das mais internacionais graças à sua zona franca industrial. Suspeita-se que o vírus tenha entrado pelo aeroporto com algum viajante procedente do exterior, se aninhado na cidade e de lá, rio acima, se espalhou velozmente até quase o último canto do Estado do Amazonas em embarcações abarrotadas que fazem viagens de vários dias nas quais se dorme em redes ao ar livre. São o principal meio de transporte. Assim, causou estragos mesmo em comunidades indígenas distantes.

É possível que a imunidade de rebanho tenha sido alcançada entre os mais pobres porque os casos recentes afetam sobretudo os moradores das classes A e B, os ricos. Gente que, farta de meses de trabalhar de casa, se lançou às praias e às festas no feriadão de 7 de setembro. A maioria dos brasileiros, porém, teve que sair às ruas durante a crise para buscar o sustento diário, enquanto os mais privilegiados puderam fazer home office.

A distância de segurança inexiste nas longas filas que se formam todas as manhãs em frente aos bancos para recolher o auxílio emergencial que tem permitido a milhões evitar a fome. Muitos dos que usam máscara não cobrem a boca e o nariz. Preferem deixá-la no pescoço.

Voltando ao debate sobre imunidade coletiva, a virologista espanhola Margarita del Val, do Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC), explica que, como isso “ocorre em grupos relativamente fechados e que têm um comportamento homogêneo”, os dados mais recentes de Manaus poderiam indicar que “agora os ricos não estão se beneficiando da imunidade coletiva que talvez os mais pobres tenham adquirido”. Em todo caso, a cientista alerta: “Tentar conseguir essa imunidade coletiva, como a Suécia parecia estar tentando no início, não é uma estratégia, é selvageria. Não é ético nem realista”. Enfatiza que aqueles que estão imunes devem continuar a usar máscara e manter distância. “Não podemos ter certeza de que não transmitirão o vírus se forem infectados novamente.”

Outra incógnita é quanto tempo dura a imunidade. Enquanto limpa no mercado, sem usar a máscara, um enorme tambaqui para um cliente, o peixeiro Danilo Mendonça garante que já teve o coronavírus, embora ninguém o tenha testado para confirmar isso. Conta que durou dois meses em que só bebeu água, sucos e um remédio caseiro: “Você coloca alho, limão, gengibre, mastruz (erva local)... Os caras que tomaram esses outros remédios pioraram. Por isso morreu esse montão de gente. O cara chega lá (no hospital), eles o intubam e lá mesmo ele morre”. Superstições de longa data ainda caem fundo entre os menos instruídos, mas também se espalham na velocidade da luz nos grupos do WhatsApp, por isso as autoridades dedicam uma boa dose de energia para combater a desinformação.

A gestão da covid-19 no Brasil tem sido marcada pelo ceticismo do presidente Jair Bolsonaro e seu empenho em salvar a economia. São muitos os que o acusam de agravar a epidemia, mas outros milhões de compatriotas se unem à sua posição anticientífica, desprezam a ameaça e a máscara. Com 150.000 mortes e cinco milhões de casos, é o terceiro país mais afetado, depois dos Estados Unidos e da Índia.

Além do mais, em Manaus a disputa política envenena a gestão e proliferam as denúncias de corrupção. O prefeito, Artur Virgilio Neto (PSDB), acusa o presidente brasileiro de ser irresponsável e proclama em entrevista a este jornal que “a covid não acabou”, após relembrar sua experiência pessoal. Ele foi infectado e a doença o atingiu com tanta força que foi internado em Manaus e posteriormente transferido para São Paulo. Ainda parece frágil. Ressalta que só se orienta pela ciência e questiona os números oficiais divulgados pelas autoridades estaduais do Amazonas. E acusa abertamente o governador Wilson Lima (PSC) de maquiá-los para minimizar o impacto do coronavírus.

O prefeito da capital amazonense embasa sua denúncia em uma conta contundente: o excesso de mortes, evidente no número de sepultamentos. “Há uma diferença extraordinária na cifra de enterros. Se eram 25 antes da pandemia, agora estão perto dos 50 e sempre acima dos 40, é a média que a gente vê ... Alguma coisa tem que explicar essas mortes. Por quê? Eu vejo isso como a maquiagem da covid.” Para arrematar, recorda que as autoridades admitiram que o governador se baseou em dados falsos quando, em julho, declarou que o Amazonas havia vencido o vírus.

Outra operação de fiscalização encerra sob a lua cheia uma festa clandestina, supostamente organizada por traficantes de drogas (segundo a polícia), com centenas de adolescentes em uma fazenda. Os fiscais advertem vários restaurantes de que, às 22h, devem baixar as portas e fechar os bares. No Sensation, com banda ao vivo e clientela aglomerada em mesas baixas, Bruna Araújo, fisioterapeuta que atende pacientes de covid-19, se queixa de que os policiais com submetralhadoras, colete à prova de balas e máscaras estão arruinando sua noite. Ela está indignada, quer voltar à normalidade. “Os ônibus e o mercado, sim, estão lotados e lá não fiscalizam.”

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