Greve dos entregadores escancarou a falácia da economia do compartilhamento

Aplicativos que surgiram com o discurso de economia do compartilhamento passaram a representar, na prática, a supremacia da intermediação

Ronaldo da Cruz, 28 anos. Motoentregador que participou em São Paulo do segundo "breque dos apps".
Ronaldo da Cruz, 28 anos. Motoentregador que participou em São Paulo do segundo "breque dos apps".Pedro Ribeiro Nogueira/ Ag. Pavio
Denize Bacoccina

As greves dos entregadores de aplicativos —iFood, Rappi, Uber Eats e outros – em vários momentos neste mês de julho, a mais recente neste sábado, dia 25— escancara o fracasso do que já foi aclamado como o maior símbolo da economia do compartilhamento que deveria dominar este século 21. Lembra da promessa, feita nos primeiros anos do novo milênio, quando essas empresas começaram a ser gestadas lá no Vale do Silício? Na época, quando se falava em compartilhamento, ainda havia a impressão de que se estava falando de um capitalismo mais consciente, com o fim da mentalidade consumista dos anos 1990.

A posse daria lugar ao uso, e ninguém precisaria comprar um bem para uso exclusivo, se poderia compartilhá-lo com outras pessoas. O carro, por exemplo. Para que cada pessoa precisaria ter um veículo próprio, que ficaria o dia inteiro parado, se era possível compartilhar um único carro, reduzindo o volume da frota circulante e, portanto, os congestionamentos, o espaço necessário para as vagas etc.? Lindo no discurso.

Na prática, o que se viu foi a substituição do taxista por um motorista, não profissional, que aderiu à profissão de forma temporária, enquanto não encontrava emprego em sua área de atuação. Milhares deles, congestionando as ruas com carros alugados por locadoras. O sistema que deveria tirar carros das ruas colocou mais veículos rodando, muitas vezes com motoristas despreparados. A tarifas de fato baixaram, mas boa parte dos ganhos foi para as empresas de aplicativos, com seus investimentos bilionários, em busca de ganhar escala e se tornar a nova gigante do setor.

Economia compartilhada?

A Uber, a pioneira deste modelo, criada em 2009 na Califórnia, chegou ao Brasil em 2014 com o discurso de carona paga e como símbolo da economia do compartilhamento. Pouco mais de dez anos depois de sua criação, deu origem a um neologismo, a uberização, que virou sinônimo de relações precárias de trabalho.

A Uber foi a pioneira, e apesar do insucesso do seu modelo – além de pagar pouco para os motoristas, a empresa também amarga um prejuízo bilionário – a uberização foi replicada em outras áreas. Os aplicativos de entrega de comida, alvo dos protestos de julho, ganharam força durante a pandemia, escancarando um modelo de negócio que, embora atenda ao consumidor, não é sustentável para os entregadores nem para os restaurantes que deveriam ajudar.

Ou a supremacia do intermediário?

Em média, restaurantes pagam 27% do valor da conta para os aplicativos de entrega. Mas os entregadores ganham apenas uma fração desse valor. O iFood, conforme a empresa informou, é uma empresa brasileira que nasceu como uma startup em 2011. Em média, diz a empresa, um entregador ganhou 21,80 reais por hora trabalhada em maio deste ano.

O problema é que, como contam os entregadores, eles precisam ficar o dia inteiro à disposição para trabalhar três ou quatro horas por dia. Por isso, ganham em média 992 reais, como mostra uma pesquisa realizada em agosto do ano passado, com uma jornada de até 12 horas por dia. A pesquisa, da Associação Aliança Bike, também traçou o perfil dos trabalhadores dessa área: 99% são do sexo masculino, 71% se declararam negros, mais de 50% têm entre 18 e 22 anos de idade, 57% trabalham todos os dias da semana, e 75% ficam conectados ao aplicativo por até 12 horas seguidas —sendo que 30% trabalham ainda mais tempo. A cobrança dos aplicativos também não é sustentável para os restaurantes, especialmente neste momento de pandemia, quando os salões estão fechados e a sobrevivência das empresas depende do delivery.

Por isso, vários restaurantes do centro de São Paulo começaram a investir em equipes próprias, especialmente na vizinhança, como é o caso do Paribar, Drosophyla, Sotero, Aboud e vários outros.

Na prática, a economia do compartilhamento, que surgiu com o discurso da desintermediação, virou a economia da intermediação. Mas, como em todas as áreas da economia, nesta o poder está, com muita força, nas mãos do consumidor. Cabe a cada um de nós dizer sim ou não a este novo arranjo, escolher para quem dar o nosso dinheiro. É possível mudar isso? Sim, é.

Talvez não para absolutamente todo mundo, o tempo todo. Mas é possível se você mora no centro de São Paulo, região com dezenas de lojas, bares e restaurantes de pequeno porte, muitas com equipe própria para fazer entregas na vizinhança. Especialmente neste momento de orçamento curto, você pode escolher para quem dar o seu dinheiro: para um fundo de investimento que quer transformar a startup da vez num gigante mundial para aumentar seus lucros ou para o comerciante do bairro? Sempre existe uma escolha.

Denize Bacoccina é sócia-fundadora do portal A vida no Centro.

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