Pandemia de coronavírus

Brasil não detém covid-19 e chega a 150.000 mortes, um terço delas registrado em dois meses

País reduz média diária de vítimas, mas patamar segue alto, com o terceiro maior índice de óbitos por milhão de habitantes no mundo. Cidades levantam restrições e seguem sem coordenação

Movimento no maior cemitério publico de Manaus, o Nossa Senhora Aparecida, em 25 de setembro de 2020.
Movimento no maior cemitério publico de Manaus, o Nossa Senhora Aparecida, em 25 de setembro de 2020.Bruno Kelly /

Aviso aos leitores: o EL PAÍS mantém abertas as informações essenciais sobre o coronavírus durante a crise. Se você quer apoiar nosso jornalismo, clique aqui para assinar.

O Brasil chega à dura marca de 150.000 mortes pelo coronavírus num momento em que celebra pequenas vitórias em direção ao arrefecimento da pandemia, ainda que siga imerso em um cenário grave e sem uma política nacional efetiva contra a crise. De acordo com o balanço divulgado neste sábado pelo consórcio de veículos de imprensa (com base nos dados oficiais das secretarias estaduais de saúde), o país tem 150.023 óbitos confirmados pela covid-19. Para se ter uma dimensão da gravidade do problema, um terço de todas as mortes pela doença foi registrado somente nos últimos dois meses. Isso significa que ao menos 50.000 vidas foram interrompidas justamente no período em que os números oficiais começavam a dar sinais de amortecimento da crise sanitária.

A partir de agosto, logo depois de o país somar 100.000 mortes, as taxas de contágio do coronavírus começaram a apresentar redução, ficando em alguns momentos abaixo de 1, índice que limita a situação de descontrole. A média de mais de 1.000 mortes diárias notificadas até então também caiu para a centena alta. Os dados mais recentes soam promissores: o Imperial College, de Londres, divulgou nesta semana que o Brasil manteve a taxa de transmissão do vírus para abaixo de 1 por duas semanas consecutivas pela primeira vez desde abril. E a média de mortes diárias da última semana epidemiológica (entre 27 de setembro e 3 de outubro) caiu 5% e ficou em 654. O país é o segundo com o maior número de mortes no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Também aparece com altos índices quando a métrica são os mortos por um milhão de habitantes. O Brasil aparece em terceiro lugar nos óbitos proporcionais à população: tem 695 mortes um milhão habitantes, contra 989 do Peru, campeão do ranking, e 867 na Bélgica. A Espanha, cuja capital enfrenta uma segunda onda, aparece com 686 por um milhão de habitantes.

Mas esses avanços não são suficientes para retirar o país do estágio preocupante, ainda que possam surtir na população uma sensação de maior segurança para retomar algumas atividades. Apenas 33,8 milhões de brasileiros (16% da população) seguem rigorosamente isoladas, segundo dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios), do IBGE. O número de pessoas em isolamento rígido caiu em 1,6 milhão entre a segunda e a terceira semana de setembro, conforme pesquisa divulgada nesta sexta-feira.

Seja como for, não há como desprezar o fato de que mais de 600 mortes pelo coronavírus são registradas diariamente no Brasil. São pais, mães, filhos e amores de alguém que deixam um luto imenso em milhares de famílias brasileiras. “É uma perda brutal”, define Gabriel Erick dos Santos, que perdeu a irmã, Erika Regina Leandro dos Santos, uma atriz que vivia “como se nunca fosse morrer”. Com diabetes, hipertensão e excesso de peso, ela costumava enfrentar alguns problemas de saúde, mas sempre se recuperou de cada um deles. Até ser infectada pelo coronavírus. Erika morreu aos 39 anos sem que o irmão pudesse lhe retribuir o cuidado que havia oferecido a ele quando se recuperava de um afogamento, há um ano. “O que mais me dói é que não pude ficar ao lado dela ou me despedir”, lamenta Gabriel.

A pandemia não lhe deixou nem mesmo prestar as homenagens que Erika merecia, especialmente por tê-lo praticamente criado depois que os pais deles morreram, quando eram pequenos. “Ela era uma pessoa muito aberta, era muito fácil chegar perto dela e ter carinho por ela”, conta. O que Gabriel lembra como o mais terrível foi o funeral, com apenas seis pessoas (quase toda a família), que só podiam fazer uma breve oração, enquanto os trabalhadores do cemitério os apressavam. “Não consegui nem pendurar um riacho com o nome dela gravado no caixão, uma lembrança de família”.

Um país diverso no contágio e nas ações políticas

O luto pelos que morreram de covid-19 já está em todos os Estados brasileiros, mas cada um deles enfrenta velocidades e intensidades diferentes da pandemia. Estados do Nordeste que foram brutalmente afetados nos primeiros meses da crise, como o Ceará, parecem de fato ter desacelerado a transmissão. Mas não se pode baixar a guarda, como revela o caso de Manaus, onde se acreditava que se havia alcançado um certo esgotamento da transmissão do vírus. O Estado do Amazonas, que atingiu um violento pico de infecções entre abril e maio, voltou a apresentar crescimento de casos. Por ora, especialistas evitam falar em uma segunda onda, mas pedem atenção às autoridades políticas e sanitárias.

Já São Paulo, a cidade que foi a porta de entrada para o vírus no país, concentra desde o início da crise os mais elevados números de casos e mortes. Foi uma das primeiras capitais a implementar o lockdown parcial para ter tempo de preparar seu sistema de saúde. A demanda hospitalar reduziu ao longo dos meses, e hospitais de campanha chegaram a ser desativados. Mas, atualmente, a populosa megalópole ainda conta mais de 100 mortes pela covid-19 diariamente. E se prepara para entrar em uma fase ainda menos restritiva nas medidas contra o contágio. A partir de sábado, a capital paulista permite a reabertura de equipamentos culturais como cinemas e museus. Os impactos das novas medidas precisarão ser analisados nas próximas semanas.

“O Brasil ainda tem um nível de contágio preocupante, tanto nacionalmente quanto em alguns locais. A gente nunca implementou medidas que impedissem o contágio em si. O que fizemos foi tomar medidas de distanciamento que são mitigatórias e custosas, que é ficar em quarentena”, analisa o pesquisador do Observatório Covid-19, Rafael Lopes. Ele afirma que os gestores públicos brasileiros focam em gerenciar contágios para promover as aberturas econômicas, mas o país não tem uma estratégia para controlar de fato a pandemia. “O Brasil é um país continental, a gente tem diversas realidades e diversas epidemias, tem um déficit de testagem ainda muito grande. Não conseguimos usar os testes que temos para descobrir novos casos, usamos para confirmar casos. Seria muito importante a gente testar amplamente para identificar cadeias de contágio e quebrá-las”, defende.

Ausência de coordenação nacional

Depois de mais de sete meses de crise, o Brasil não tem uma política nacional sólida de controle da pandemia. Decisões importantes como o relaxamento da quarentena seguem sendo tomadas pelos gestores locais como decidiu o STF, mas sem qualquer orientação nacional explícita. Em geral, governantes locais se baseiam em dados como taxa de ocupação de UTI, velocidade de transmissão do vírus e taxa de positividade dos testes para determinar suas aberturas, com critérios próprios. Tudo isso passará por um teste adicional nas próximas semanas, já que haverá eleições presenciais nos mais de 5.000 municípios do país em novembro. Em muitas cidades, os atos de campanha têm simplesmente ignorado os protocolos de segurança.

O trabalho do Ministério da Saúde, tradicionalmente responsável por coordenar e direcionar as políticas aos demais entes federativos, tem se concentrado principalmente na distribuição de insumos e em ações que corroboram com as ideias do presidente Jair Bolsonaro, um negacionista que contraiu a doença mas segue minimizando a gravidade da pandemia. Recentemente, a pasta suspendeu uma ação chamada Dia D para estimular o tratamento precoce em pacientes com sintomas de covid-19. Ainda não existe medicamento nem tratamento capaz de curar a doença, e a comunidade científica interpretou como uma ação para estimular o uso da cloroquina, um medicamento que a ciência tem demonstrado ser ineficaz para a covid-19, mas que é amplamente defendida por Bolsonaro. Pesquisadores e ex-ministros chegaram a realizar um evento em defesa da ciência, uma resposta ao suposto Dia D da cloroquina.

Um protocolo com orientações do uso do medicamento para tratar a covid-19 foi implementado no país pelo ministro Eduardo Pazuello (Saúde), um militar que recentemente admitiu ter assumido o posto mais sensível do combate à pandemia no país sem sequer conhecer o Sistema Único de Saúde brasileiro, o maior sistema público do gênero do mundo. “Eu não sabia nem o que era o SUS. Eu passei a minha vida sendo tratado em instituição pública do Exército, vim conhecer o SUS a partir deste momento da vida e compreendi a magnitude dessa ferramenta que o Brasil nos brindou”, afirmou durante um evento sobre o câncer de mama na última semana.

As apostas do Ministério da Saúde para superar a pandemia parecem estar focadas agora nas vacinas do coronavírus, ainda em teste. O Brasil ―que já tinha firmado um contrato com a Aztrazeneca para compra de doses e transferência de tecnologia da vacina de Oxford― recentemente entrou em um consórcio global para adquirir outras sete potenciais vacinas. Confiante no estágio dos testes, o secretário executivo do Ministério da Saúde, Elcio Franco, afirma que o país espera iniciar sua campanha de vacinação ainda no primeiro trimestre do ano que vem e que tem uma estratégia desenvolvida que deve garantir 140 milhões de doses de vacinas até a metade de 2021.

A Anvisa já adaptou procedimentos para tentar acelerar o registro das vacinas logo que os testes revelem segurança e eficácia, analisando parte do processo antes da finalização das pesquisas. Também admite que pode reduzir de 70% pra 50% o índice de eficácia exigido por entender que numa pandemia grave como esta esse nível de imunização já surtiria importantes efeitos à saúde pública. “Flexibilizar critério de eficácia de vacina não significa abrir mão de segurança. Esta é a prioridade que colocamos”, destaca o gerente geral de Medicamentos e Produtos Biológicos da Anvisa, Gustavo Mendes. Um grupo de especialistas trabalha junto com o ministério para desenhar um programa de imunização. As estratégias parecem promissoras, falta a ciência conseguir de fato desenvolver uma vacina segura.

Siga a cobertura em tempo real da crise da covid-19 e acompanhe a evolução da pandemia no Brasil. Assine nossa newsletter diária para receber as últimas notícias e análises no e-mail.

Mais informações