Pandemia de coronavírus

São Paulo reabre cinemas, mas não parques aos domingos, na penúltima fase de restrições por covid-19

Mais de 13.000 morreram na cidade, primeira a registrar óbito por coronavírus no Brasil. Bares ganham mais uma hora de funcionamento. Fase Azul, de “normal controlado”, pode depender da vacina

Máscara pendurada em fio de luz no bairro da Brasilândia, na Zona Norte da capital paulista.
Máscara pendurada em fio de luz no bairro da Brasilândia, na Zona Norte da capital paulista.Toni Pires

São Paulo passou de fase. Em meio a uma pandemia que já deixou mais de 13.000 mortos e ao menos 340.000 casos confirmados de covid-19 na cidade, a maior cidade do Brasil foi elevada nesta sexta-feira da Fase Amarela para a Fase Verde ―a segunda menos restritiva― do plano criado pelo Governo do Estado para combater o novo coronavírus, junto com outras cinco regiões (Campinas, Sorocaba, Piracicaba, Taubaté e Baixada Santista) que, juntas, reúnem 76% da população estadual.

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Na prática, isso significa que a partir deste sábado (10) estarão de volta atividades culturais como cinemas, teatros, museus, eventos e convenções ―embora os parques municipais sigam abertos apenas durante a semana e não haja previsão de retomar projetos como a Paulista Aberta, que liberta a avenida dos carros aos finais de semana. A prefeitura considera que é muito difícil controlar ao acesso de uma quantidade limitada de pessoas a esses locais, como forma de evitar aglomerações.

Mesmo os lugares reabertos poderão funcionar com apenas 60% da capacidade e com obrigação de controle de acesso e hora marcada. Já outros pontos tradicionais de diversão dos paulistanos, como shopping centers, comércio e serviços, inclusive academias, ganham a permissão de funcionar durante 12 horas a cada dia. Restaurantes e bares poderão ficar abertos até as 23h, mas deverão encerrar o consumo dos clientes às 22h, para tristeza dos boêmios. Atividades que gerem aglomeração como festas, baladas, torcidas em estádios e shows com o público de pé seguem proibidos.

Sem liberação

É um momento marcante para a cidade, que entrou em quarentena junto com o resto do Estado em 21 de março, quatro dias após registrar a primeira morte por coronavírus no país. Uma rara sinalização positiva para o local que se tornou o epicentro da pandemia e a cidade mais atingida pela covid-19 no país, enquanto segue incerto o desenvolvimento de uma vacina. O Governo estadual aposta em uma parceria entre o laboratório chinês Sinovac e o Instituto Butantan para a fabricação local da chamada Coronavac, mas esbarra em dificuldades técnicas e políticas— o governador João Doria (PSDB) é adversário do presidente Jair Bolsonaro, que prefere jogar suas fichas na parceria entre a Fiocruz e o universidade inglesa de Oxford. O resultado é uma espécie de corrida entre São Paulo e Brasília para desenvolver o remédio, uma disputa que acaba prejudicando ambas as partes. Durante a coletiva de imprensa na qual anunciou a Fase Verde, o próprio Doria admitiu que existe um Plano B caso o Ministério da Saúde se recuse a comprar a Coronavac para distribuí-la no SUS: negociar sua venda diretamente para outros Estados do país. Uma espécie de ministério paralelo.

No entanto, nada disso significa, nem de longe, que São Paulo está livre do novo coronavírus. O plano do governo não é uma liberação total. A Fase Verde ―a quarta das cinco classificações governamentais, chamada de Abertura Parcial― ainda é mais rigorosa que a Azul, descrita como Normal Controlado. O plano estabelece cinco fases, marcadas por cores. Da mais para a menos restritiva, as Fases são Vermelho, Laranja, Amarelo, Verde e Azul.

Para que cada regiões do Estado evolua de um nível para o outro, é necessário que ela preencha diversos requisitos, como a queda nos índices de ocupação de leitos de UTI pelo novo coronavírus, a quantidade disponível desses leitos para cada 100.00 habitantes e a evolução nas curvas de novos casos e óbitos ao longo de sete dias consecutivos. Para repassar à Fase Azul, no entanto, as regras podem ser diferentes. José Medina, coordenador do Centro de Contingências do Coronavírus no estado, disse que as condições ainda estão sendo estudadas - mas que a existência de uma vacina pode ser estabelecida como pré-condição.

Existem especialistas, no entanto, que veem em planos parecidos com o adotado por São Paulo um modelo desastrado. Outras cidades que tentaram receitas de reabertura precoce, como Belo Horizonte e Curitiba, tiveram que voltar atrás, numa espécie de efeito ioiô – ainda que Doria insista que o Plano São Paulo seja “modestamente, um exemplo para o mundo”.

Independência e morte

Cores à parte, a covid-19 segue grassando em terras paulistas, ainda que o Estado, de fato, puxe a queda na curva de mortes registradas no país, como mostra o recuo no número de mortes diárias na cidade. O último boletim disponível da prefeitura, da quarta-feira, mostra 40 notificações de óbito – um número que chegou a superar a casa dos 130 em junho. Ainda assim, em nível estadual, já são mais de 1 milhão de casos e o número de óbitos supera os 37.000 – basicamente um estádio do Pacaembu lotado. Ao mesmo, tempo, no país como um todo, as mortes devem superar os 150 mil nas próximas horas – e isso apenas dois meses depois de baterem na fatídica marca de 100.000 vidas perdidas, no dia 08 de agosto. Ontem, quinta-feira, de acordo com os dados do governo, foram 729 novos óbitos. É como se quatro aviões seguissem caindo no país, dia após dia.

Mas mesmo essa queda desenfreada parece fazer pouco para chamar a atenção da população paulistana, após quase oito meses de quarentena e restrições sociais. Nas ruas, aos poucos, as máscaras começam a dar lugar aos rostos desprotegidos. Ver bares lotados fora do horário estabelecido deixou de ser algo incomum. Calçadas superlotadas de pedestres, consumidores e transeuntes voltaram a fazer parte da cena urbana, como antes. Essa espécie de quarentena ao avesso começou a ganhar corpo principalmente após o feriado de 7 de Setembro, o dia da Independência do Brasil, quando houve uma superlotação de praias, bares e parques. É como se a população tivesse decidido declarar a sua própria independência da quarentena. Com cenas tão presentes na memória recente como a falta de vagas para os mortos no cemitério da Vila Formosa, na Zona Leste, faz sentido questionar se esse caminho é o mais sensato.

Além disso, existe a questão cada dia mais presente da ameaça de uma possível segunda onda. Enquanto São Paulo muda suas cores e relaxa seu confinamento, a europeia Madri volta a decretar estado de alerta por 15 dias e fecham novamente suas portas, diante do risco de recrudescimento do vírus. Já Paris volta a impor algumas restrições. É difícil comparar as situações nas cidades porque elas usam critérios diferentes para adotar as medidas de isolamento social. Madri prefere indicadores relacionados ao número de casos detectados via testes PCR em determinadas parcelas da população ―um número que mostrou alta nos últimos dias, um indicado apontado pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Em São Paulo, como não há controle total sobre os dados da testagem, o indicador preferido é a porcentagem de leitos de UTI ocupados por pacientes com covid-19. Hoje esse número está na casa dos 37% na capital paulista e vem recuando ―em junho, chegou a superar 90%.

Ainda assim, a possibilidade de uma segunda onda preocupa São Paulo. Chama a atenção que, ainda durante o anúncio da passagem para a Fase Verde, o próprio Doria tenha comentado que “o verão na Europa deixou uma lição para o mundo. O descuido com o uso de máscaras e as aglomerações criou uma segunda onda de infecção. Que sirva de lição para o Brasil”, disse, antes de fazer um alerta enfático sobre os riscos presentes no feriado de 12 de outubro, a próxima segunda-feira: “O vírus não escolhe vítima nem idade, sem sexo nem condição sócioeconômica. Pense nas pessoas que você perdeu ao longo desses oito meses antes de tomar atitudes equivocadas”.

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