Luto na música brasileira

Brasil perde Genival Lacerda, símbolo da cultura nordestina, morto pela covid-19 aos 89 anos

Forrozeiro, que estava internado desde novembro, faleceu nesta quinta-feira em Recife

O cantor Genival Lacerda.
O cantor Genival Lacerda.Reprodução

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Adeus ao talento, à malícia e o bom humor de um dos maiores símbolos da cultura nordestina. O cantor Genival Lacerda morreu nesta quinta-feira, em Recife (PE), aos 89 anos, em decorrência da covid-19, depois de ficar internado desde o dia 30 de novembro. A morte do artista foi confirmada por seu filho, Genival Lacerda Filho. Poucas horas antes de dar a notícia, João Lacerda, outro filho do cantor, disse à revista Quem que a família vivia em “preocupação angústia constante” pelo quadro de saúde do pai. “Não sabemos ao certo como meu pai contraiu a covid-19, mesmo com todas as precauções e cuidados. Ele precisava realizar algumas atividades fora de casa, para manutenção de sua saúde, eram atividades essenciais e indispensáveis”, afirmou.

Após a confirmação do falecimento, João postou nas redes sociais uma homenagem ao pai, que se tornou um ícone do forró graças a sucessos como Severina Xique Xique e De quem é esse jegue. “Hoje perdi um dos maiores amigos de minha vida, amigo da música, de ensinamentos, amigo que na hora de brigar, sempre brigava e minutos depois nem lembrava que brigava, porque não guardava mágoa de ninguém”, escreveu o filho.

Nascido em Campina Grande, na Paraíba, em 5 de abril de 1931, Genival Lacerda lançou o primeiro disco aos 25 anos, estreando com uma parceria com João Vicente em Coco de 56 e com Manoel Avelino em Dance o xaxado. Desde então, não parou mais e, quase a cada ano, lançava algo novo. Seu maior sucesso, Severina Xique Xique, foi gravado em 1975, no LP Aqui tem catimberê, que vendeu 800 mil cópias. O hit tem a picardia dos versos de duplo sentido —típicos no estilo cantado e consagrado por Genival— e traz, ao mesmo tempo, a resistência da personagem-título às investidas amorosas e apelos interesseiros de Pedro Caroço. Em 2017, a música ganhou uma releitura da banda Pato Fu para o álbum Música de brinquedo. Com reverência ao arranjo original, o grupo incluiu um coro de crianças e o toque de uma galinha de borracha no lugar da tradicional zabumba para simular a batida do xote.

Na época em que o forró começou a fazer mais sucesso no Sudeste, Genival foi um dos grandes expoentes do gênero. Incentivado por Jackson do Pandeiro, ele mudou-se para o Rio de Janeiro, levando sua irreverência, o característico chapéu branco —ou de bolinhas coloridas— e a dança pela qual era conhecido: o movimento de segurar a barriga enquanto se balança. O gesto pretendia imitar, de forma exagerada, os passos dos casais ao bailar o xote e o xaxado.

O forró malícia e a estética chamativa de Genival foram precursores de artistas de outros gêneros e regiões, como os Mamonas assassinas, que também fizeram sucesso nos anos 1990 apostando na comédia, com letras de duplo sentido, e figurino espalhafatoso. Quando questionado sobre as referências sexuais em suas canções, Genival costumava responder: “Música não é putaria, putaria é outra coisa! Isso é duplo sentido”.

Carismático e sempre com um sorriso no rosto, Genival chamava de amigos cantores como Fagner, Fafá de Belém ou Ivete Sangalo. Nesta quinta-feira, outros artistas prestam homenagem a ele. O rapper Marcelo D2 relembrou o passo de dança consagrado pelo forrozeiro: “Me faz lembrar a alegria do Brasil”, escreveu.

Já o músico Luiz Thunderbird lembrou “a simpatia incrível” de Genival. “Mais uma vítima da covid-19″, lamentou.


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