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COLUNA i

Olha pro céu, meu amor, vê se esquece a política

Em plena crise de vazamentos que desconstroem mitos nacionais, uma crônica em ritmo de quadrilha junina

Forrozeiros animam o maior São João do Brasil, em Caruaru (PE).
Forrozeiros animam o maior São João do Brasil, em Caruaru (PE). Agência Brasil

— Olha o hacker!

— É fake news.

— Viva o juiz herói e imparcial.

— É mentira.

— Olha o kit gay!

— Essa é velha, conta outra.

Eis a quadrilha junina da era bolsonarista. Cavalheiros de azul cumprimentam as damas de vestido rosa. Uma quadrilha mais de “anarriê” do que de “alavantu”, nem no Sarney tivemos tanta vanguarda do atraso, modo retrocesso, sempre.

Esse é um país em marcha à ré, “anauê”, como no saudação dos galinhas-verdes do Integralismo, Jovens, ao Google, vamos viajar na história.

Em vez de forró pé-de-serra, a quadrilha bolsonarista tem voz de comando de ordem-unida.

Melhor olhar pro céu, meu amor, vê como ele está lindo, olha pra´quele balão multicor, como no céu vai sumindo... Melhor escrever aquele bilhete caprichoso no “Correio Elegante” — sem perigo de vazamento das mensagens, afinal de contas todo amor singelo é único e já nasce criptografado, acredite.

Olha pro céu, meu amor, e esquece a picaretagem política, esquece a TPV (tensão pré-vazamento), segura aí, turma do Intercept, deixa a gente comer a canjica em paz, esse suspense me mata.

Escuto aqui o ensaio da quadrilha na escola estadual brigadeiro Faria Lima, vizinha de casa, Pompeia, SP, e me vem um mar de histórias dos sertões, viajo, reescrevo o roteiro da festiva roda.

Uma trilha superlativa. Acordo todo dia com a “Canção do meio do mundo”, o poeta Mário Quintana nos letreiros e o grupo Crianceiras nos dizeres, coisa do Márcio de Camillo, artista.

Irene, minha filha, canta com uma letra esquisita, em esperanto, fiel à melopeia e à logopeia da existência, naquele momento em que a lágrima de criança pára, do nada, stop, antes de chegar à boca e atrapalhar o sorriso que se desenha no nadismo do instante.

De tanto lê-lo quando estávamos grávidos, Irene nasceu com um riso, talvez uma graça, de Kurt Vonnegut no canto da boca, se é que você me entende. Papai lia o “Cama de Gato”. Mamãe Larissa, mais chique, lia em inglês o “Player Piano”. Humilha.

Mais uma do gênio de Exu na agulha, segue a tertúlia: “Quando tu balança/ Dá um nó na minha pança”, Gonzaga dá a letra e o compasso do chamego. Porque forró não é coreografia de lambada, aquela estripulia toda, forró é um simples mexidinho de pança com pança, bucho com bucho, amarração de terreiro, nó de pescador, redescoberta metafísica de um novo cordão umbilical — falou bonito, seu cronista, não estou te reconhecendo, besta fubana, istampô calango, febre do rato, moléstia das cachorras.

Sim, comadre Clemilda, o jeito é botar também na vitrola “A coruja e o bacurau”, que fábula edificante, até o Esopo, em um forrobodó de São José da Laje (SE), levantou o moral, vê se pode. E deixe o B.O. de seu Tadeu fora dessa, esse rapaz é perigoso e indecente, da sua galeria de personagens, confesso, colega, eu gosto mesmo é do Eno e seu anel, do “anel do Eno”, lembra dessa romântica página musical?

E viva o duplo sentido, gênero de Zenilton (Salgueiro, Pernambuco) e Genival Lacerda (Campina Grande, Paraíba), a safadeza-raiz etc etc etc, como me adestrou o crítico José Teles, fã do Bee Gees lá do Jornal do Commercio, Hellcife, naturalmente, a cidade mais cosmopolita do universo desde a chegada do conde Maurício de Nassau e o seu globalismo da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais.

Viva Santo Antonio, viva São João, viva mais ainda São Pedro, que só pega a soma das cinzas de todas as horas e fuleragens chifrosas das fogueiras.

Viva Santo Antonio, viva São João, viva mais ainda São Pedro, que só pega a soma das cinzas de todas as horas e fuleragens chifrosas das fogueiras

Não é pouca coisa, tenho dito. E não é que o cantor e compositor Junio Barreto aparece em meu sonho de matuto, cantando com Azulão o passado de todos os Caruarus, todos os Caruarus, rapaz, o cozido & os crus que extrapolam o sentido do gênio jazz-frevístico Carlos Fernando e as dores das saudades dos busões da viação Progresso que serpenteiam nas escarpas assimétricas da Serra das Russas.

E sigo puxando a crônica da quadrilha do infrarrealismo selvagem nordestino. Bora nessa. Viva Santo Antonio, São João e São Pedro, a trinca junina.

Próxima parada: Barbalha, no Cariri cearense, a melhor festa sagrada & profana de Santo Antonio do universo. Toinho, além do seu dom da ubiquidade fazia frilas de cupido. Quem pega no pau da bandeira, venha do mais resistente dos caritós, casa na hora -seja lá com que traste for, vale a promessa, quem mandou rezar pro homem?

O melhor São João intergalático, que me desculpe as megalomanias de Caruaru e Campina Grande, é de Arcoverde (PE) pra dentro, lá pras bandas do Boi da Macuca, pense numa festa legítima.

E nessa pisada, se brincar, acabo chegando em Afogados da Ingazeira, Bodocó — lá na serra dos Guedes da minha família — , Araripina, Ouricuri do poeta Pedramérico e já desço pro Cratinho de açúcar tijolo de buriti, donde pego de revestrés o triângulo da quebrada e dou um pulo em Nova Olinda da infância, sem esquecer minha Santana do Cariri, ô Santa Benigna, minha santinha das Inhumas.

Ai já estarei de volta, olha só, ao “Juazeiro, Juazeiro, me responda por favor, Juazeiro, velho amigo, onde anda o meu amor”.

Tiro uma certa onda das festas juninas exageradamente publicitárias tomadas pelo breganejo da Ambev, mas, por favor, deixa quieto, são lindas do mesmo jeito, em todo terreiro de bagaceira há uma bela moral nietzschiana, a potência e a ideia da força dos deuses que dançam. Só acredito nos deuses que chacoalham o esqueleto. O mais lindo de tudo são sempre os bêbados finais que celebram São João do carneirinho com o mesmo afeto dos feios, sujos e malvados da injusta comédia proletária e humana.

Deixa quieto, mas nem tanto. É sempre bom botar um desassossego n´alma. Assim faz a meninada da escola estadual aqui vizinha de casa, sempre a escola pública, por favor, minha gente, aqui na janela, só a escola pública, só Paulo Freire salva. Imagina Paulo Freire e Jackson do Pandeiro juntos, talvez seja a maior dupla da humanidade, feliz é o país que tem essa gente. Só boto bebop no meu samba...

Xico Sá, escritor e jornalista, autor de “Big Jato” (Companhia das Letras), entre outros livros, é comentarista do programa “Redação Sportv”.

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