Pandemia de coronavírus

Ana Rosa e Sebastião, três décadas de namoro e uma breve separação pelo coronavírus

“A saudade que eu tava dela é o que me deu forças pra sair dessa”, diz ele, que acabou internado após se infectar na casa de repouso onde morreram 16 idosos durante a pandemia, em Minas

Sebastião, 94, e Ana Rosa, 76, foram infectados após surto de coronavírus.
Sebastião, 94, e Ana Rosa, 76, foram infectados após surto de coronavírus.

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Quando se despediu de Sebastião Lucas pela última vez, Ana Rosa temeu que não voltaria a encontrá-lo. O casal de idosos vive no Lar São Vicente de Paulo, em Alfenas, onde um surto de coronavírus contaminou quase 100 moradores no mês passado. Ele manifestou os primeiros sintomas da doença em 18 de julho e precisou ser isolado em uma clínica para tratamento. “Fiquei com muito medo de perdê-lo. Se ele morresse, eu morreria de tristeza”, conta a moradora do asilo no sul de Minas Gerais.

Cinco dias depois, em uma testagem de todos os residentes, Ana Rosa descobriu que também estava com o vírus, porém assintomática. A dor que lhe afligia era sofrer outra vez com a distância do companheiro, algo que jamais suportou. Afinal, seu caminho demorou a se cruzar com o de Sebastião. Ela se casou aos 14 anos. Teve quatro filhos do primeiro matrimônio e, depois de ficar viúva, mudou-se para Alfenas no começo da década de 1990, época em que, enfim, conheceria seu atual namorado.

Juntos, compartilharam privações de uma velhice pobre e problemas com álcool, a ponto de morarem na rua. Preocupadas com a vulnerabilidade da mãe, duas filhas de Ana Rosa a levaram para a zona rural, enquanto Sebastião acabou acolhido no asilo. Foram mais de seis meses separados. Após muita insistência, Ana Rosa conseguiu convencer as filhas a incluí-la na lista de espera por uma vaga no Lar. “Ela sempre morreu de ciúmes dele. Só sossegou quando atenderam sua vontade de reencontrá-lo”, diz Flavia Correa, diretora da casa de repouso beneficente.

Desde abril de 2014, mês do reencontro, eles nunca haviam se desgrudado até Sebastião ser isolado por causa da covid-19. Àquela altura, cinco idosos do asilo já haviam morrido em decorrência de complicações da doença. Ana Rosa sabia que a situação era crítica. Chorava todos os dias ao conversar por telefone com o companheiro, que apresentou quadro de insuficiência respiratória e teve de receber suplementação de oxigênio. Apesar do risco de agravamento da doença devido à idade avançada, ele recebeu alta no dia 30 de julho. “A saudade que eu tava dela é o que me deu forças pra sair dessa”, afirma o aposentado.

Sebastião tem 94 anos. Ana Rosa, 76. Novamente reunidos, eles fazem parte do grupo de 80 dos 98 idosos do Lar São Vicente de Paulo que testaram positivo para o vírus e agora são considerados curados. Ao todo, a casa perdeu, em três semanas, 16 moradores para a doença. Outros dois continuam internados. A volta do casal à rotina que começa a se acalmar no asilo foi celebrada por funcionários da instituição, que tratam os dois como “Brad [Pitt]” e “Angelina [Jolie], em referência ao famoso par hollywoodiano que se separou em 2016.

“O semblante, o jeito dele de conversar e é quietinho, não mexe com ninguém”, diz Ana Rosa, ao enumerar as virtudes que admira no namorado. Sobreviventes do surto que comoveu toda a cidade de Alfenas, eles já fazem planos para comemorar o centenário de Sebastião e, em breve, as três décadas de relacionamento, cujo final promete ser ainda mais feliz que o das histórias de cinema.

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