Um ano após tragédia da Vale, Brumadinho se divide entre o luto e a euforia econômica

Auxílio de um salário mínimo para cada habitante pela mineradora faz consumo dar salto. Alegria com a injeção de dinheiro ofende familiares de vítimas. “A cidade está consumista e maníaca”, diz psicólogo

Memorial em homenagem às vítimas da tragédia de Brumadinho.
Memorial em homenagem às vítimas da tragédia de Brumadinho.ADRIANO MACHADO / REUTERS

Uma cidade em luto, mas eufórica economicamente. Após um ano do rompimento da barragem da mineradora Vale, em Brumadinho, que deixou 270 mortos, a cidade convive com uma estranha dualidade. Enquanto onze vítimas da tragédia seguem desaparecidas e familiares e amigos estão mergulhados em um sentimento de angústia, revolta e luto sem caixão, uma parcela dos moradores do local comemora. O motivo é que, desde o desastre, a Vale começou a fornecer mensalmente um auxílio emergencial a todos os moradores da cidade, sendo eles atingidos pela ruptura da barragem diretamente ou não. Até dezembro do ano passado, cada adulto ganhou, por mês, um salário mínimo, adolescentes, meio salário e crianças, cerca de 250 reais.

A chegada dessa espécie de renda mínima aqueceu a economia de Brumadinho, fortemente dependente da mineração. Grande parte do comércio viu as vendas dobrarem. “Teve gente que refez o guarda-roupa inteirinho. Nos primeiros meses do auxílio, a gente teve uma alta de 100% nas vendas”, explica Gabriel da Silva, gerente de uma loja de roupas da cidade de pouco mais de 40.000 habitantes.

Segundo a Vale, mais de 106.000 pessoas receberam a ajuda no ano passado, já que ela foi distribuída também para além de Brumadinho. Residentes localizados até um quilômetro da calha do Rio Paraopeba ―afetado pela onda de rejeitos— até a cidade de Pompéu também obtiveram o auxílio.

O proprietário de uma concessionária de automóveis conta que muitas pessoas que sonhavam em trocar de carro juntaram os benefícios emergenciais de todos da família para efetivar a compra. “Ano passado vivemos um boom, os bancos ficaram lotados, todo mundo comprando eletrodomésticos novos, celulares, reformando casas, mulheres colocando silicone. Você ia pedir uma pizza e demoravam duas horas para entregar. Ninguém mais queria cozinhar”, conta o comerciante que preferiu não se identificar. “Imagina que, para quem ganhava o mínimo, o salário dobrou da noite para o dia”, diz.

Ele opina, no entanto, que, apesar da população ter sido atingida como um todo pela tragédia, a longo prazo, esse pagamento não é a melhor solução de reparação para a cidade. “Claro que para uma pessoa como eu, que sou comerciante, ajuda, mas o certo era montar um parque industrial, trazer novas empresas para gerar emprego. Quando essa ajuda acabar, o que vai acontecer com a cidade? O futuro é muito incerto”.


Em janeiro do ano passado, a Vale se comprometeu a repassar, ao longo de dois anos, 80 milhões de reais para o município de Brumadinho como forma de compensar a perda de arrecadação do município pela paralisação das atividades da mina Córrego do Feijão. O aumento do número de empresas contratadas pela mineradora encarregadas de fazer obras de reparação na região também movimenta as lojas de construção da cidade e o comércio de forma geral. “No ano passado, as vendas subiram uns 30%”, explica uma funcionária da GM Materiais.

Josiana Resende, irmã de Juliana —uma das 11 vítimas da tragédia ainda não localizadas―, lamenta que o dinheiro dado à população tenha dividido a cidade e mudado a pauta de exigências. “Outro dia fizeram uma manifestação pedindo que o auxílio não terminasse e fecharam a entrada da cidade, sem deixar os operadores das busca passarem. Eles estão preocupados com as vítimas desse crime da Vale ou com o dinheiro que as pessoas que perderam a vida proporcionaram?”, lamenta. Na avaliação de Resende, a mineradora deveria ter feito algo por Brumadinho que contemplasse uma melhoria para toda a população. “Dar esse dinheiro maldito só criou uma dependência. As pessoas ficaram felizes e nós continuamos sofrendo”, explica.

Dinheiro com data marcada para acabar

O fim do auxílio emergencial é atualmente um dos temas que já tira o sono de muitos moradores. No fim do ano passado, um acordo entre a mineradora e o Ministério Público de Minas Gerais decidiu pela prorrogação do auxílio por mais 10 meses. Os valores continuarão os mesmos para os moradores que, na época do rompimento, moravam nas comunidades fortemente atingidas, como a do Córrego do Feijão. As demais começarão a receber, em 2020, metade do auxílio, durante outros 10 meses.

“A decisão não é boa. A cidade precisa dessa ajuda auxiliar. Toda a população teve sua atividade prejudicada e deveria seguir ganhando, no mínimo, essa ajuda. A Vale tem que continuar a reparar os moradores, sem a Vale, Brumadinho não existe”, diz Silva, que já conta com uma queda de vendas na loja diante do corte de 50% do benefício para grande parte da população.

A apreensão também tomou conta de moradores que abandonaram seus trabalhos para viver apenas do auxílio. Funcionários de lojas visitadas pela reportagem contam que a cidade começou a atravessar um fenômeno curioso: a falta de mão de obra. "Teve época que ninguém achava faxineira, pedreiro, atendente. O jeito foi procurar gente interessada em trabalho em outras cidades vizinhas", conta uma atendente de loja.

O psicólogo da equipe de saúde mental de Brumadinho, Rodrigo Chaves Nogueira, avalia que a estratégia de distribuição de dinheiro da mineradora Vale suspendeu o luto. “Ele está em suspenso, a cidade está eufórica, consumista e maníaca. O dinheiro virou mais importante que o sofrimento”, explica Nogueira. O psicólogo alerta, no entanto, que quando esse dinheiro for suspenso, os quadros de problemas de adoecimento mental, que já são altos após a tragédia, irão se multiplicar na cidade. Em 2019, o uso de antidepressivos cresceu 56% e o de ansiolíticos aumentou 79% em comparação ao ano anterior. Segundo a secretaria de saúde do município, os casos de suicídio e de tentativa de auto-extermínio também aumentaram.

A chegada do dinheiro emergencial em Brumadinho também atraiu pessoas que não moravam na cidade antes, mas tentaram provar que sim para receber o auxílio. Houve dois períodos de corrida aos postos de saúde. Primeiro, várias pessoas tentaram buscar atestados de que eram pacientes da rede municipal para pedirem o auxílio emergencial. Muitos funcionários do setor foram pressionados a darem a declaração. Depois houve uma busca grande também por relatórios que atestassem que a pessoa estavam com problemas psicológicos. O documento serviria para dar entrada em pedidos de indenização individual —que chegam a 150 mil reais— contra a mineradora Vale.

Nem as crianças foram poupadas nessa tentativa de fraude. “Um dia vi uma mãe falando ao filho que se ele falasse para o médico que não conseguia mais dormir, comer direito, eles poderiam ganhar dinheiro e ela poderia comprar para ele um Iphone da última geração”, conta uma moradora que preferiu não se identificar. Um funcionário da área de saúde confirmou a existência de laudos fraudados, que confirmavam danos psicológicos de alguns pacientes que nada sofriam.

Com relação às suspeitas e investigações por fraudes, a Vale, cujo ex-CEO foi acusado formalmente por homicídio doloso pelas 270 mortes, afirmou que segue apoiando as autoridades com o fornecimento de informações. “Quando a empresa é notificada pela Polícia Civil acerca de requerimentos indevidos, os benefícios são prontamente suspensos”, informou a mineradora, por nota.

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