365 dias de dor e busca em Brumadinho: “Precisamos fechar o ciclo e nos despedir simbolicamente”

Um ano após o rompimento da barragem da Vale que deixou 270 mortos, bombeiros seguem a procura pelos corpos ainda não encontrados. “Sabemos que nunca mais a veremos”, diz irmã de vítima ainda não localizada

Josiana Resende, de 31 anos, ainda tem esperanças de que o corpo da irmã Juliana, vítima do rompimento da barragem da Vale  em Brumadinho, seja encontrado.
Josiana Resende, de 31 anos, ainda tem esperanças de que o corpo da irmã Juliana, vítima do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, seja encontrado.Douglas Magno

Às vésperas de completar um ano do rompimento da barragem da mineradora Vale em Brumadinho, que deixou 270 mortos, Josiana Resende, de 31 anos, vive em compasso de espera e mergulhada em uma constante angústia. A irmã, Juliana Resende, de 33 anos, desapareceu no tsunami de rejeitos que tomou parte da cidade em 25 de janeiro de 2019. Até hoje, ainda não foi encontrada. “Após tantos meses de buscas, bate um desespero. A gente tem esse receio. Um aperto no coração da incerteza desse encontro. Precisamos fechar o ciclo e nos despedir dela simbolicamente. Sabemos que nunca mais a veremos, será um enterro com caixão fechado, apenas com parte do corpo da Ju. Dignidade nessa história já não vai ter”, lamenta. Assim como Juliana, outras dez vítimas da tragédia ainda não foram localizadas.

Entre a ansiedade e um turbilhão de outros sentimentos gerados pela tragédia, Josiana confessa não ter conseguido agradecer por ser, de certa forma, uma sobrevivente. A técnica em enfermagem trabalhava no atendimento médico da mina do Córrego do Feijão, que rompeu, mas estava de folga em 25 de janeiro, quando a enxurrada de 10,5 milhões de metros cúbicos de rejeitos da Vale, equivalentes a 4.200 piscinas olímpicas, levou embora a irmã, o cunhado Dennis Augusto, de 34 anos, e a maior parte da equipe com que trabalhava há 5 anos. “Como eu posso ficar feliz de estar viva se a Ju e o Dennis foram embora? Se tantos colegas tiveram as vidas interrompidas. Se os meus sobrinhos, bebezinhos, nunca saberão o que é ter um pai e uma mãe”, diz.

Os filhos gêmeos de Juliana e Dennis tinham apenas 10 meses no dia do colapso da barragem e vivem hoje com os avós e com Josiana. Durante todo o período de luto sem corpo, a família tem recebido acompanhamento psicológico. “São os únicos órfãos de pai e mãe por conta da tragédia. Eles sentiram muita falta deles no início. Ficavam apontando para as fotos dos dois, procurando. Até guardamos por um tempo os porta-retratos. Resolvemos dizer que agora eles são duas estrelinhas no céu. Mais para frente, será o momento de explicar o que realmente aconteceu”.

Quando esse dia chegar, a família espera já ter encontrado o corpo de Juliana. O marido, Dennis, foi identificado oito dias após o tsunami de lama. “Temos esperança e queremos acreditar que as operações de busca só irão terminar quando a última vítima for achada. Não falamos que procuramos desaparecidos, pois sabemos onde eles estão: ali, na mancha de lama da Vale. Eles só precisam ser encontrados”, diz Josiana.

No Corpo de Bombeiros, as vítimas foram apelidadas de joias e a corporação garante que a operação de resgate, a maior já realizada no Brasil, segue à procura das 11 sem prazo para interromper as buscas. “Enquanto houver possibilidade haverá empenho. Essas pessoas são a nossa motivação diária. Por isso, todos os dias olhamos as fotos de todas elas antes de sair. O foco da operação é encontrar essas joias”, afirma o tenente Cleyton Batista de Jesus, na base bravo —ao lado da zona quente da tragédia, a principal área de buscas, onde está afixado em uma das paredes um quadro com os nomes, fotos e o último local provável das vítimas ainda não encontradas. Características bem específicas também são descritas, como cicatrizes, tatuagens, unhas pintadas, roupas e calçados que as pessoas usavam no dia da tragédia. Mínimos detalhes para ajudar nas buscas.

Apesar do compromisso com as famílias das vítimas, o encerramento da operação pode acontecer caso os materiais recolhidos já não consigam ser identificados por DNA no Instituto Médico Legal. Os bombeiros também cogitam encerrar as atividades no local se os segmentos de corpos —que hoje são recolhidos quase diariamente— não forem encontrados durante um longo período.

Sem prazo para acabar

A operação de resgate, que não parou nem no dia do Natal, já atravessou cinco fases diferentes desde o dia do rompimento. De lá para cá, mais de 3.000 bombeiros militares já passaram pelo local, foram contabilizadas 4.176 horas de ação de busca e salvamento e 259 corpos ou fragmentos de pessoas foram encontrados e identificados, o que corresponde a 96% das vítimas.

259 corpos ou fragmentos de pessoas foram encontrados e identificados, o que corresponde a 96% das vítimas.

Desde o início do ano, o cenário de devastação e lama se transformou, assim como as estratégias utilizadas pelos bombeiros. O início da operação foi marcado por buscas mais superficiais devido às condições do terreno, que ainda estava muito líquido, e eram feitas, principalmente, com o auxílio de helicópteros. Segundo a corporação, 31 aeronaves cruzaram o céu de Brumadinho durante 1.600 horas de voo no período, muitas vezes transportando corpos ou fragmentos encontrados na lama. As lembranças dos helicópteros e do barulho das aeronaves ainda permeiam a memória dos moradores e das crianças da cidade, que mandam desenhos das aeronaves para os bombeiros agradecendo o serviço e a ajuda dos militares.

Com o passar dos meses, e com o terreno mais sólido, foi iniciada a utilização de maquinários pesados para auxiliar as buscas e também um mapa, que leva em conta o comportamento dos fluxos da lama, o cruzamento de dados da localização dos corpos e onde eles estariam na hora da tragédia, últimos sinais de rádio e celulares. Além disso, drones com tecnologia de leitura térmica também foram utilizados para escolher os melhores pontos de escavação.

Na fase atual, os bombeiros estão terminando uma varredura da área encoberta pela lama de três metros de profundidade, já que 92% dos corpos foram encontrados nesta camada. Por conta do período chuvoso, duas tendas grandes de 150 por 50 metros foram instaladas na “zona quente”, para o depósito e secagem do rejeito, permitindo que o material esteja numa condição melhor de ser vistoriado.

Fiscais das buscas

A relação dos bombeiros com os parentes das vítimas não encontradas é constante. Todas as quartas-feiras há uma reunião para atualizar sobre o trabalho que está sendo feito e as famílias podem acompanhar as buscas dos militares. “Uma coisa é eles falarem o que estão fazendo. Nós vamos até lá para conferir se o número de frentes está correta, se estão usando o maquinário. Mais que fiscalizar, vamos também para os bombeiros verem quem são as pessoas que ainda estão esperando pelas vítimas. A gente pega na mão de um operador, incentiva e motiva o trabalho deles”, afirma Natália de Oliveira, irmã de Lecilda de Oliveira, de 49 anos, que era analista de operações da Vale e também ainda não foi encontrada. “A operação de buscas, pelos números, já é um sucesso. Mas, infelizmente, para nós que ainda não encontramos esses 11 desaparecidos ela ainda fracassa 100%”, lamenta Natália.

A irmã Lecilda, vítima da tragédia, trabalhava na mineradora há quase 30 anos e era conhecida como a Lê da Vale. “Ela tinha um orgulho e um amor muito grande pela empresa. A Vale e a Lecilda se confundiam, se uniam. Mas hoje, o que eu quero da Vale é que ela aprenda e que a empresa seja punida. Nenhuma vida de funcionário deveria ser colocada em risco e a Vale sabia do risco que todos corriam. Um ano e ninguém foi preso, nada justifica”, afirma Natália. “Em Mariana, 19 pessoas morreram e até hoje nada também”.

Na última terça-feira (21), o ex-presidente da mineradora, Fabio Schvartsman, e mais 15 pessoas foram denunciados pelo Ministério Público de Minas Gerais por homicídio doloso, quando há indícios de que houve intenção de cometer o crime. A Vale, responsável pela estrutura que colapsou, também foi denunciada por crimes ambientais, assim como a empresa de auditoria alemã Tüv Süd, que havia atestado a estabilidade da barragem que rompeu.

O que ainda dá certo alento a Natália é acreditar que tamanha tragédia pode transformar a mineração e dar um resignificado à atividade. "Tudo isso não pode ser em vão. Precisamos honrar essas mortes, mudar o curso dessa história. Nenhuma empresa pode mais sair impune por matar gente e rio. A Vale matou a história, ela matou minha irmã, um pouco de mim e de Brumadinho".

O valor de uma vida

A questão das indenizações das famílias é outra batalha que Natália pretende travar contra a mineradora na Justiça. Para ela, o acordo firmado entre o Ministério Público do Trabalho e a mineradora, que definiu as indenizações, ficou aquém do desejado e foi uma “coação”. “O que se falou às famílias era que era melhor aceitar logo essa indenização para não ter que entrar numa briga na Justiça que se arrastaria por muitos anos. Ainda falaram que a própria lei trabalhista mudou e que em casos de acidente de trabalho um funcionário ganharia no máximo 50 vezes o salário”, explica.

Segundo o acordo, pais, cônjuges ou companheiros e filhos de trabalhadores falecidos receberão, individualmente, 500.000 reais por dano moral. Irmãos receberão 150.000. Haverá também o pagamento de um seguro adicional por acidente de trabalho no valor de 200.000 a cada um desses parentes. Será feito, ainda, o pagamento de dano material ao núcleo de dependentes, cujo valor mínimo é de 800.000 reais.

“O valor é muito baixo. E quem precificou o valor da vida humana foi a própria Vale. Em um documento, a mineradora disse que uma morte em caso de rompimento de barragem da valia 2,6 milhões de dólares [10,92 milhões de reais no câmbio atual]. Era daí que tinha que partir o valor. Olha quanto ela disse e quanto está pagando, a vida humana foi injustiçada”, lamenta.

Passado um ano da tragédia, a mineradora já recuperou o valor de mercado que tinha antes do dia 25 de janeiro de 2019, quando a barragem sem rompeu em Brumadinho. As ações da companhia voltaram a ser negociadas a 57 reais.

Na percepção de Josiana, o auxílio emergencial, de um salário mínimo mensal, pago pela Vale a todos os moradores de Brumadinho, dividiu a cidade. “Antes, as pessoas gritavam por justiça, mas depois desse valor o que elas pedem é que o dinheiro não diminua e o benefício seja permanente”, explica a técnica em enfermagem. O valor foi pago durante todo o ano de 2019, mas foi estendido por mais 10 meses a partir de janeiro deste ano. Para quem não foi atingido diretamente pelo rompimento, o benefício caiu pela metade. “Tudo foi feito muito sem critério e hoje as pessoas só pensam nesse dinheiro maldito. Ele separou as pessoas”.

Desde a tragédia, Josiana está afastada do trabalho. A Vale a realocou para a mina Jangada, a poucos quilômetros da mina do Feijão, mas ela conseguiu uma licença através do INSS. “Se a licença acabar eu acho que não volto mais. É muito difícil vestir a camisa de uma empresa que matou seu familiar, seus amigos e poderia ter me matado”, explica. “Hoje só tenho um sentimento pela Vale, o de traição. Todo mundo ali foi enganado.”

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