Por que, afinal, fui embora da Venezuela

Jornalista relata em primeira pessoa as razões, os medos e as circunstâncias que a levaram ao estrangeiro. Conta como a precariedade da vida cotidiana acabou por se tornar asfixiante

Dois homens enchem galões com gasolina em Chivacoa (Venezuela), em 13 de outubro de 2019.
Dois homens enchem galões com gasolina em Chivacoa (Venezuela), em 13 de outubro de 2019.Ariana Cubillos (AP)

Em agosto me transformei em imigrante. Sou venezuelana, jornalista e agora moro no Chile. Ainda não assimilei minha nova condição, comecei a me reconstruir em uma terra que não é a minha. Tinha uma sensação agridoce porque estrava angustiada por não ter emprego, enfrentar possíveis preconceitos e até um clima diferente. Mas também é um alívio estar longe — pelo menos fisicamente — dos apagões, da hiperinflação, dos roubos e outras ameaças.

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Demorei cinco anos para tomar a decisão. Foi um processo atormentado por hesitações, em que optei por ficar na capital Caracas (Venezuela) porque não queria me separar de minha família. Mas com o tempo, o país se tornou mais hostil e já não queria ficar lá. Tinha medo da insegurança, medo da censura governamental e medo de ser asfixiada pela crise.

Falar do que acontece na Venezuela é complexo e, principalmente, quando se faz em primeira pessoa. Em 2014 quis fugir da violência. Foi depois de 26 de abril, no auge dos protestos antigovernamentais, quando eu e colegas do jornal El Nacional fomos ameaçados por coletivos [milícias] armados em frente à Universidade Bolivariana, fundada pelo ex-presidente Hugo Chávez, em Caracas. Eram cinco homens com revólveres que queriam apagar fotografias feitas minutos antes perto da universidade. E o fizeram, à força, agredindo um dos repórteres fotográficos que nos acompanhava e roubando a memória de sua câmera. Pensei que não sobreviveríamos quando um dos agressores gritou: “Mate-os, são do El Nacional!”. O ataque aconteceu na frente de alguns militares, um dos delinquentes quebrou com a coronha de sua arma o vidro traseiro do carro em que estávamos, e todos viram, mas nenhum os confrontou. Estávamos desprotegidos e continuaríamos estando. Não infringimos nenhuma lei, mas aos olhos deles, sim.

A presença da imprensa para fanáticos políticos é uma ofensa que se salda com ódio. Aconteceram 3.628 violações contra a liberdade de expressão em duas décadas de revolução bolivariana, e 71% delas foram cometidas no mandato de Nicolás Maduro (2013-2019). Fui parte dessas estatísticas feitas pelo Instituto de Imprensa e Sociedade. Não somente em 2014, várias outras vezes. Algumas denunciei, em outras me calei. Sempre repeti e me repetiram: “São ossos do ofício”.

Nenhum de nossos agressores foi preso. E não foi uma exceção. As possibilidades de que um crime seja punido são mínimas e o Governo se encarrega de proteger seus aliados. Em setembro de 2016, denunciei um contra-almirante da Força Armada Nacional Bolivariana por me intimidar em mensagens privadas do Twitter. “Tudo se paga nessa vida”, me disse após eu escrever uma reportagem no portal Armando.info em que revelei sua suposta participação em dois atos de corrupção. Antes havia consultado várias fontes, obtido documentos e solicitado entrevistas ao alto comando que não foram respondidas a tempo. Mas isso não importou para ele, sua resposta tardia foi uma ameaça. Meses depois foi promovido dentro da cúpula militar, uma casta intocável na era vermelha. Não quis levar adiante a denúncia contra ele porque senti medo: viver em um país em que não existe justiça é como saltar, permanentemente, por um campo minado.

“O que mais você aguentará?”, me perguntou uma amiga que vivia na Colômbia. Era difícil para ela compreender minha insistência em continuar em um país que começou a se tornar ruínas. Nesse momento, me sentia como um sapo submerso em uma onda de água quente. Havia chegado a temperaturas altíssimas, mas ainda estava disposta a resistir.

Muitos se acostumaram a suportar; outros não. Quando o país entrou em crise, não houve tréguas. Cada ano foi pior. Não havia fundo na Venezuela, e começamos a mudar nossas rotinas no abismo. Já quase não saía de noite por medo da criminalidade; não podia usar o celular na rua porque poderia ser assaltada; não podia comprar o que precisava em um mercado, só o que havia, o dinheiro não dava; não podia ir a um hospital quando tinha algum problema porque não havia remédios, só saía quando precisava porque o transporte público opera com dificuldades e você sequer podia se manifestar porque poderia ser perigoso. Acabou se transformando em uma vida cheia de privações.

Nação quebrada

Depois de 23 de fevereiro desse ano me senti com menos energia. Cobria a tentativa de entrada de ajuda internacional para o EL PAÍS. Estava com outras duas jornalistas nas proximidades da ponte fronteiriça Simón Bolívar de Táchira quando começou o desproporcional ataque de militares e civis armados contra manifestantes de oposição. Nós nos refugiamos na casa de uma evangélica por três horas. Escutamos os gritos e os zunidos das balas. Senti pânico e esgotamento. Por isso, meses depois, decidir usar um visto profissional que havia solicitado no Chile e emigrei.

Não é a primeira vez que fico um certo tempo no exterior. Em 2015 passei alguns meses na Espanha, estudei em um curso para jornalistas e muitas vezes pensei em não voltar a Caracas. De fato, em Madri tive vários pesadelos nos quais voltava ao país e não podia sair. Via as notícias e sentia que havíamos entrado em uma encruzilhada.

Mais da metade de meus amigos saiu do país. Submersos na crise, todos têm suas próprias condições e decisões. Conheço várias pessoas que saíram levadas pela fome, desesperadas pela estrada e, às vezes, sem documentos, ao Peru, Equador e Colômbia. Também conheci outros à procura de tratamento médico, segurança, melhor educação para seus filhos e serviço básico. Alguns ficaram, muitos com vontade de continuar no país e outros com planos de sair. No exterior, quando as pessoas escutam nosso sotaque, dizem que somos muitos e, sim, estamos dispersos pelo mundo, somos como peças de uma nação quebrada.

MEU AVÔ E O VALOR DA DEMOCRACIA

A Venezuela, vista do estrangeiro, parece uma ficção distópica. E de dentro – no epicentro do caos – se tem a sensação de viver alguns episódios de 1984, o romance de George Orwell que relata como uma sociedade é controlada pelo medo e a doutrinação impostos pelo Grande Irmão.

Por muitos anos esse livro esteve na biblioteca de minha casa: pertencia a meu avô Eufemio, um espanhol que chegou a Caracas nos anos 50 para escapar da ditadura de Franco. Eu o li em 2005, quando estava na faculdade. Talvez consciente do valor da democracia, meu avô tenha sublinhado uma frase no livro: “A liberdade é a liberdade de poder dizer que dois mais dois são quatro. Concedido isso, o resto vem por si só”. Após folheá-lo, encontrei semelhanças com a revolução bolivariana que se multiplicaram com o tempo. Hoje, encontro nos totalitarismos um padrão que condena populações ao horror da miséria, perseguições e exílio.