A economia paralela do dólar que divide os venezuelanos em duas ‘castas’

Quase a metade da população tem rendimentos em divisa norte-americana, enquanto o Governo desregula as transações e a justiça autoriza os pagamentos de aluguéis

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro.
O presidente venezuelano, Nicolás Maduro. (EFE)

O caos econômico e a hiperinflação estão produzindo a brusca aceleração da dolarização na Venezuela, que deixou de ser algo circunstancial e penetrou nos filamentos da economia. Neste país, quase tudo já costuma ser pago na moeda norte-americana: consultas médicas e odontológicas, seguros, serviços turísticos, eletrodomésticos e móveis de cozinha, imóveis, contas de restaurante, escolas particulares. Até mesmo atividades comerciais menores, como as visitas à barbearia, as compras no supermercado e os percursos em táxi. Em muitos casos, os produtos e serviços são oferecidos em dólares “ou em bolívares, de acordo com a taxa oficial do dia”.

A dolarização da economia venezuelana divide o país em dois tipos de cidadãos: os que têm dólares e os que não têm. Os primeiros sobrevivem, os segundos vivem mal. O salário mínimo na Venezuela de Nicolás Maduro é um dos mais baixos da América: 7,5 dólares por mês. A taxa anual de inflação está em torno de 1.500%, segundo os cálculos mais conservadores. As pessoas que recebem renda apenas em bolívares dependem de subsídios oficiais.

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A expansão do dólar como segunda moeda é tolerada pelo Governo de Nicolás Maduro, mas se encontra em um limbo. A administração, quebrada e alvo de sanções internacionais, está sedenta por divisas e recursos e não tem uma política anti-inflacionária, então, para poder respirar, desregulamentou ao máximo as transações cambiais e reduziu as tarifas. Muitas empresas grandes e médias já oferecem remunerações totais, ou bônus complementares, em dólares, e os empresários já podem importar produtos atrelados ao dólar.

Esta circunstância aliviou muito a escassez de bens no país e fez surgirem os chamados bodegones, que em Cuba foram chamadas de diplotiendas (lojas diplomáticas): estabelecimentos com produtos importados, vendidos a um alto valor em moeda norte-americana, que são usados pelos setores acomodados da população. Recentemente, o Tribunal Supremo de Justiça emitiu uma resolução que autoriza o pagamento de aluguéis em dólares para residências e pontos comerciais, uma prática que já estava muito difundida. Quase imediatamente, o Banco Central da Venezuela oficializou a dolarização da carteira de créditos dos bancos comerciais.

“Em média, de acordo com os estudos, as famílias venezuelanas recebem, na forma de remessas ou pagamentos complementares, cerca 90 dólares por mês”, afirma Leonardo Vera, economista e professor titular da Universidade Central da Venezuela. “São 3,4 milhões de famílias; ao todo, mais de 13 milhões de pessoas”. Segundo os estudos da empresa Consultores 21, 40% da população declara ter renda em dólar. A consultoria Ecoanalítica tem um estudo com dados muito similares. No oeste do país, a região mais maltratada pelo colapso chavista, ou em cidades turísticas como Puerto la Cruz e as ilhas de Los Roques e Margarita, a média de dolarização passa de 50%.

Asdrúbal Oliveros, diretor da Ecoanalítica, afirma que a transição para o dólar é um recurso natural da população para se defender da hiperinflação, proteger seu patrimônio e simplificar as operações econômicas, num contexto em que “por definição” o Governo de Maduro estimula sua presença para obter um pouco de estabilidade. “O bolívar perde valor todos os dias, e como unidade contábil não serve. O dólar está há muitos anos funcionando como uma referência de proteção de patrimônio na Venezuela.”

A renda em dólar não salva ninguém dos estragos da hiperinflação, que devoram os salários dos venezuelanos – mesmo dos que recebem na moeda norte-americana. José Manuel Puente, professor da Universidade de Oxford, explica que o dólar “se valoriza” todos os dias. “O que ocorreu é que Maduro renunciou a ter soberania monetária e a delegou aos Estados Unidos”, afirma. Em janeiro de 2019, 100 dólares eram uma quantia suficiente para os gastos de um mês na Venezuela. Hoje, 100 dólares mal dão para cinco ou seis dias.

“Há na Venezuela um atraso cambial notório, uma disparidade entre a velocidade com que sobem os preços no mercado interno em relação à velocidade com que o dólar se deprecia”, afirma Oliveros. “Isso ocorre numa economia dupla como esta, com o aparelho produtivo destruído, problemas graves de corrupção e colapso de serviços. É o que coloquialmente as pessoas estão chamando de inflação do dólar”.

“O Governo de Maduro não tem como parar esta migração para o dólar para se proteger”, afirma o economista Leonardo Vera. “De fato, vai ser muito difícil para o país retornar à normalidade monetária e se livrar da influência do dólar quando a transição para a democracia se concretizar”.