A lenta agonia dos serviços públicos da Venezuela

Setor estatal beira o colapso com cortes de eletricidade, universidades deterioradas e hospitais quase sem medicamentos

Quarto de um hospital de Caracas.
Quarto de um hospital de Caracas.Andrea Hernández (EL PAÍS)

Em Caracas o metrô circula, os hospitais venezuelanos têm pacientes, os estudantes se formam nas universidades e os escritórios estão abertos, pelo menos até as 14h. Tudo isso acontece, mas é também uma ilusão de ótica. O metrô da capital da funciona quando não há cortes de eletricidade, quase sem funcionários e controles. Os hospitais estão asfixiados pela falta de médicos e medicamentos. As universidades lutam para sobreviver e a Administração possui milhares de rachaduras que antecipam um colapso iminente.

Aproximar a lupa ao setor público da Venezuela após duas décadas de gestão do chavismo e, principalmente, após seis anos de deterioração acelerada sob o comando de Nicolás Maduro, significa observar um mastodonte que ainda não caiu totalmente graças às infraestruturas herdadas e ao esforço de seus trabalhadores. Quando Iraida Ramírez começou no hospital Doctor José Ignacio Baldó de Caracas, conhecido como El Algodonal (O Algodoal), era pouco mais do que uma adolescente. 34 anos se passaram e desde então foi testemunha das mudanças do país no departamento gerencial de um hospital que foi referência no tratamento de doenças respiratórias na Venezuela. “Tínhamos tudo, agora não temos quase nada”. É o resumo de sua rotina e da dos outros funcionários. Hoje sua luta começa todas as manhãs, ainda de madrugada, com a ida de casa ao seu escritório, um quarto sem computador e ostentações tecnológicas infestado de mosquitos em um pequeno barracão a alguns metros do setor de tuberculose. Para se chegar a esse local é preciso passar por um controle de segurança.

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Ramírez fala diante de um cartaz que diz Sem Sindicatos Não Há Democracia. Lembra que seu poder aquisitivo foi diminuindo até receber 80.000 bolívares mensais, menos de sete dólares (26 reais) pelo câmbio real nas ruas. Mas não se rende. Da mesma forma que Mónica Romero, de 42 anos, 15 como enfermeira de cirurgia, com o mesmo salário. “Isso não tem nenhum futuro, mas não quero ir. Estive no Peru, me ofereceram trabalho e não quis, depois de toda a minha luta”, afirma.

“Fazemos milagres”

A trabalhadora explicou na segunda-feira que nessa semana não há muitas pessoas internadas. “São operadas hoje, ficam dois dias e recebem alta porque não há soro e medicamentos”. Precisa comprar os uniformes e consome seu salário em transporte. “Às vezes peço carona, se não consigo, preciso me levantar às 4 da manhã, caminhar cinco quilômetros até a avenida para ver se acho um transporte. Pedem 2.000 bolívares para vir para cá”, continua. A maioria dos funcionários já saiu do hospital ou do país. “Existem três, quatro enfermeiros por turno, mais nada. Deveriam existir 15. Fazemos milagres”. De acordo com a ONU, desde 2015 mais de quatro milhões de pessoas abandonaram a Venezuela.

Esse é o ano em que o Instituto Nacional de Estatística publicou o último relatório completo sobre a população ativa: 7,7 milhões de trabalhadores formais, dos quais um terço é formado por funcionários públicos, e 5,4 milhões de pessoas dedicadas a atividades informais. Além dos dados, a decadência dos serviços impulsionados pela chamada revolução bolivariana, golpeados por uma crise econômica sem precedentes, a corrupção e uma hiperinflação sem freio, é outra imagem das graves disfunções da Venezuela.

O Governo atribuiu diversas vezes a deterioração à “guerra econômica” que, afirma, os EUA fazem contra o chavismo. Maduro chegou a falar de “guerra contra os serviços públicos para tornar um país ingovernável”. Em maio, no primeiro reconhecimento explícito do regime da imensa deterioração, o Banco Central revelou uma queda do PIB de 52,3% desde 2013 – quando Maduro foi eleito presidente – e um aumento da inflação de 180,9% em 2015 a 130.060% em 2018. “A crise é estrutural, chegou para ficar”. Esse é o alerta feito pelo economista Asdrúbal Oliveros, diretor da Ecoanalítica. A empresa realizou recentemente, após a primeira onda de apagões, um fórum sobre o desafio de sobreviver diante desse colapso. “Não vamos sair dessa, com esse modelo, com essa restrição financeira do Governo. Vamos supor que Maduro quisesse consertar a eletricidade, com que dinheiro o faria?”, se perguntou.

Copiloto de um ônibus ilumina os passageiros que entram, em Caracas.
Copiloto de um ônibus ilumina os passageiros que entram, em Caracas.Andrea Hernández (El País)

Por isso, o rival de Maduro, Juan Guaidó, chefe do Parlamento reconhecido como presidente interino pela maioria dos países americanos e europeus, tentou capitalizar o descontentamento dos funcionários públicos, por enquanto com sucesso desigual. “Estão completamente conscientes, mas permanecem calados, não podem fazer absolutamente nada. É uma briga de Davi contra Golias, e nesse caso é possível que Golias vença. Com toda a situação de violação dos direitos humanos que ocorre no país as pessoas estão em silêncio, preferem ver, ouvir e se calar”, afirma um administrador internacional de uma gerência geral da PDVSA com 16 anos de casa.

A empresa estatal de petróleo era a joia da coroa da Venezuela, país com reservas de petróleo maiores do que as da Arábia Saudita, e agora, após anos de má gestão e espoliação bilionária de seus responsáveis, não consegue suprir sequer o mercado nacional. Esse funcionário de escalão médio-alto, citado pelo EL PAÍS com a condição de anonimato, diz que “todo mundo ganha quase a mesma coisa”. “Não importa se você tem dois mestrados, duas formações, fale três idiomas. Recebe da mesma forma 120.000 bolívares (48 reais) mensais e ganha em uma quinzena (bônus que faz parte do salário) 46, 47, 49.000 bolívares (por volta de 20 reais)”. Os funcionários recebem a cada dois meses uma cesta básica “bem fornida”, com “produtos de primeira”. Não é a cesta dos Comitês Locais de Abastecimento e Produção, que mal dá para uma família e que periodicamente é entregue nos bairros e aos funcionários públicos. Ainda assim, o incentivo é insuficiente. E, diante do temor às represálias, preferem ir embora antes de expressar seu descontentamento. “Eles o manifestam com sua demissão, saem de férias e não voltam. Um grupo grande sai de férias e não volta. Sequer recebem o salário. Vão embora. Quem consegue sacar sua aposentadoria, o faz e vai embora. Em média diria que 600 pessoas saem por mês. Agora restam 95.000”.

Esse dilema entre resistir e ficar ou fugir à procura de oportunidades é o que se respirava há dez dias na cerimônia de formatura da Universidade Simón Bolívar (USB), uma das universidades púbicas tradicionalmente mais prestigiosas do país. A sensação de abandono do campus é total. Mais de 200 hectares em silêncio. A sede fica em uma esquina do município de Baruta um pouco afastada do centro urbano, e já não há serviço de transporte para chegar. Nem recursos. Cada dia que passa, menos estudantes e professores.

Luzes dos carros iluminam os motoristas que esperam em uma esquina de Chacaíto, em Caracas.
Luzes dos carros iluminam os motoristas que esperam em uma esquina de Chacaíto, em Caracas.Andrea Hernández (El País)

O reitor, o matemático Enrique Planchart, fala do esforço para lutar contra as diversidades. Lamenta a deterioração do sistema, a situação econômica, a insegurança, a separação de famílias, a falta de investimento. “Isso se refletiu na USB”, afirma após fazer uma defesa da educação como motor do “pensamento crítico”.

Alberto Armengol, diretor da sede da universidade no litoral, está há 38 anos na USB. Nasceu em Barcelona e emigrou muito cedo à Venezuela com sua família. “Aqui vivíamos em uma bolha. Mas estourou. Dos 105 ônibus que tínhamos para transporte de professores e estudantes, já não há nenhum. É paradoxal. Agora estamos vivendo em uma universidade elitista”, comenta em relação à falta de recursos dos jovens para conseguir estudar. Sobre a missão dos docentes que resistem, diz que “há um componente místico”. “O professor que melhor ganha, recebe 25 dólares (95 reais) mensais”, afirma.

Vocação

Provavelmente essa vocação faz com que esses profissionais tenham menos inconvenientes ao se expressar. Não é assim no metrô de Caracas, onde Maduro começou a trabalhar como inspetor em 1990. Na estação de Antímano, ao lado da Universidade Católica Andrés Bello, não há passagens. Os empregados preferem não falar – “existem câmeras” –, as catracas estão abertas e as gares estão semivazias. O aspecto é fantasmagórico. Na hora do rush, a cena na estação de Los Cortijos, repleta de trabalhadores, é diferente. Na segunda-feira, os usuários deveriam comprar pedacinhos de papelão sem tarja magnética por 40 bolívares (1 centavo de real) enquanto dois milicianos se encarregavam dos controles. Eram quase 16h30 da tarde. Minutos depois, ocorreu um apagão maciço que causou a suspensão do serviço e mergulhou o país na escuridão até a madrugada de terça.

APOIO AO GOVERNO E FORÇA MILITAR

O Governo de Nicolás Maduro se serve habitualmente dos funcionários públicos (especialmente do pessoal dos ministérios) para suas exibições de força nas mobilizações. Todos são convidados, quando não abertamente forçados, a participar em um sistema que sustenta o chavismo e no qual têm um papel de peso nas bonificações do Estado e na rede de destruição de alimentos básicos dos Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP).

Essa dependência emana de forma quase exclusiva do Governo central, já que as Administrações locais quase não possuem orçamento. Sua maior expressão é o setor militar. As Forças Armadas e policiais superam, em seu conjunto, 250.000 pessoas. E esses números aumentam com aproximadamente um milhão de milicianos. O estamento militar, o mais impenetrável de todos os ramos do setor púbico, também atravessa um momento de penúria e dificuldades. Além do dinheiro que os soldados rasos podem conseguir com o pagamento de propinas – como por exemplo nos postos de gasolina de Maracaibo –, seu salário é de poucos dólares somente.

Por essa razão, Juan Guaidó tenta há seis meses aproveitar seu descontentamento para provocar uma ruptura na cadeia de comando. Seus pedidos produziram milhares de deserções. Esses números, entretanto, não foram suficientes para forçar uma renúncia de Maduro. O último movimento oposicionista de impulsionar o Tratado Internacional de Assistência Recíproca, um acordo regional que inclui uma cláusula de defesa coletiva, foi declarado nulo no sábado pelo Supremo Tribunal, também controlado pelo chavismo.