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Brasil, México e Venezuela puxam a alta dos homicídios globais

Apesar de não viverem guerras declaradas, países do continente americano registram altas taxas de assassinatos, segundo relatório

Venezuela fronteira

Juan Luis Lagunas Rosales, 17 anos, foi encontrado morto com 15 tiros em Culiacán, capital do conflagrado Estado mexicano de Sinaloa. O crime foi presumidamente a mando de Nemesio Osegueras Cervantes, vulgo El Mencho, líder do cartel Jalisco Nova Genração, um dos grupos que controla o tráfico na região. Fabio Urbina, também de 17 anos, teve destino semelhante: foi morto por policiais com um disparo no peito durante ato contra o presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas. Gabriel Paiva tinha a mesma idade de Juan e Fabio quando dois policiais militares o espancaram com um pedaço de pau até a morte em Cidade Ademar, zona sul de São Paulo. Estas três vítimas da violência ilustram o papel que Brasil, México e Venezuela tiveram na alta global dos homicídios registrada no estudo Darkening Horizons (Horizontes Escuros, em tradução livre), organizado pela ONG Small Arms Survey, divulgado este mês.

De acordo com o relatório, em 2017 foram registradas em todo o mundo 589.000 mortes violentas, um aumento de 4% em relação ao ano anterior. Ainda segundo o texto, esta alta foi puxada por Brasil, México e Venezuela, três países onde não há um conflito armado declarado em andamento, mas que sofrem com violência epidêmica. Os dois primeiros lidam já há décadas com o problema do crime organizado ligado ao tráfico de drogas (no Brasil, as facções, no México os cartéis de droga) e seus reflexos nas comunidades mais pobres. Já a Venezuela passa por uma grave crise social com aumento da criminalidade e a ação violenta de grupos paramilitares simpáticos ao Governo de Maduro.

Tudo isso levou os três países a encabeçarem o resultado negativo —apenas no Brasil foram 65.600 assassinatos em 2017. Por aqui o aumento tem sido encabeçado pelos Estados do Norte e Nordeste, regiões que se tornaram a linha de frente do confronto entre as facções. “A maior parte desta alta das mortes violentas ocorreu em países sem conflito, especialmente na América do Sul e América Central”, diz o estudo. Enquanto isso “houve uma redução da violência no norte da África (devido à redução dos embates entre grupos rebeldes), no oeste asiático e na América do Norte”. Do total de mortos, apenas 106.000 foram vitimados por guerras e conflitos declarados.

A situação já é dramática com a alta dos homicídios no mundo, mas a tendência é de que, caso nada seja feito, ela piore ainda mais. O relatório faz uma projeção dos dados de mortes violentas até 2030 com base na tendência atual, caso sejam mantidas as mesmas políticas de segurança vigentes em detrimento da adoção de boas práticas, como controle de armas, valorização da vida e investimentos em apuração e resolução de crimes. A expectativa é de que, neste caso, em 11 anos alcancemos o número de 660.000 mortes violentas. Se este dado é ruim, o relatório vai além e faz uma projeção levando em conta mudanças negativas nas políticas de segurança —como, por exemplo, flexibilização do acesso às armas (tema presente no contexto brasileiro) e aumento dos conflitos armados pelo mundo. Nesse caso negativo (mas não impossível) atingiríamos em 2030 assustadores 1,06 milhão de vítimas fatais.

No Brasil começa a se desenhar um cenário ruim. "Políticas públicas afetam diretamente no número de vidas que serão perdidas nos países. A liberação de armas e portes promovidas no Brasil recentemente por decreto nos coloca na rota do pior cenário”, afirma Bruno Langeani, gerente do Instituto Sou da Paz. “Em um país que já é violento e tem 7 em cada 10 mortes causadas por armas de fogo, esses decretos são a receita perfeita para o crescimento da média da América Latina e mundial".

O relatório também aponta que houve uma alta no número de mulheres assassinadas: foram 96.000 vítimas fatais do sexo feminino em todo o mundo —6.000 a mais do que em 2016. Apesar da alta, 2017 não foi o ano mais violento registrado. Em 2014 foram mortas 592.000 pessoas.

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