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Catador é a segunda vítima da ação do Exército que disparou 80 tiros contra carro de família no Rio

Luciano Macedo foi atingido na mesma ação que matou o músico Evaldo Rosa dos Santos, no último dia 7. Ele tentou socorrer a família que estava no veículo. Catador deixa a esposa, grávida de cinco meses

80 tiros
Manifestantes levam bandeiras do Brasil sujas de tinta vermelha em protesto no cemitério Ricardo de Albuquerque. no Rio, no último dia 10, contra a ação do Exército que causou duas mortes. AFP

Onze dias depois de o Exército disparar mais de 80 tiros contra o carro de uma família no Rio de Janeiro, o que era para ser apenas uma operação de patrulhamento deixa a segunda vítima. O catador de material reciclado Luciano Macedo foi atingido enquanto tentava socorrer os cinco integrantes de uma mesma família que tiveram o carro fuzilado por militares quando iam para o chá de bebê de uma amiga, no último dia 7 de abril, um domingo. Três pessoas foram atingidas. O músico Evaldo Rosa dos Santos morreu no local e seu sogro segue internado, se recuperando de um tiro nas costas e outro nos glúteos. Macedo, que apenas passava pelo local e tentou ajudar as vítimas, foi o terceiro atingido pelos disparos. Ele estava internado desde então em estado grave no Hospital Carlos Chagas, mas faleceu na madrugada desta quinta-feira.

Luciano Macedo apresentava complicações no pulmão e necessitava de uma cirurgia de urgência, que vinha sendo adiada porque o paciente apresentava quadros recorrentes de febre, o que poderia evoluir para uma infecção generalizada. Na manhã desta quarta-feira, ele apresentou melhoras no quadro e chegou a passar por uma cirurgia no tórax à tarde. Mas não resistiu e morreu por volta de 4h da manhã desta quinta. Ele era casado e deixa a esposa, Daiana Horrara, que está grávida de cinco meses.

O caso aconteceu na Estrada do Camboatá, no bairro de Guadalupe, e causou grande comoção. Naquele dia, o Comando Militar do Leste chegou a emitir uma nota corroborando a versão de que os militares que dispararam 82 tiros contra o carro da família de Evaldo Rosa dos Santos reagiram a uma "injusta agressão" de assaltantes, que teriam iniciado um tiroteio. Entretanto, o próprio Comando Militar do Leste — que investiga o caso — voltou atrás e admitiu "inconsistências" entre a versão do grupo responsável pela operação e a perícia da Polícia Civil. A perícia da Polícia Civil realizou concluiu que os militares reagiram "por engano", já que não foram encontrados indícios do tiroteio. O caso agora segue sob investigação da Justiça Militar, conforme estabelece uma lei sancionada pelo ex-presidente Michel Temer em 2017.

O carro de Evaldo dos Santos Rosa, após ser atingido por mais de 80 tiros, no domingo de 7 de abril.
O carro de Evaldo dos Santos Rosa, após ser atingido por mais de 80 tiros, no domingo de 7 de abril. AP

Dias depois, o presidente Jair Bolsonaro classificou o episódio como "incidente" e disse que os responsáveis serão punidos. Entretanto, eximiu a corporação de culpa. “O Exército não matou ninguém não. O Exército é do povo, e não se pode acusar o povo de ser assassino, não. Houve um incidente”, respondeu o mandatário, ao ser questionado sobre o assunto. 

Embora 12 militares estivessem presentes no local, apenas dez foram detidos em flagrante logo após o crime, já que os outros dois apenas conduziam os veículos e, portanto, não chegaram a disparar. Em uma audiência de custódia realizada no último dia 10 de abril, a Justiça Militar converteu nove prisões em flagrante para prisão preventiva. Apenas o soldado Leonardo Delfino Costa teve liberdade provisória concedida porque foi o único que declarou não ter feito nenhum disparo naquele dia. A juíza Mariana Queiroz Aquino Campos, da 1ª Auditoria Militar do Rio, manteve a prisão de nove militares por entender que houve "quebra das regras de engajamento" durante a ação, já que eles dispararam sem que houvesse qualquer risco ou ameaça. A defesa dos militares entrou com recurso ao Superior Tribunal Militar pedindo a soltura imediata deles, mas o recurso foi negado, e eles permanecem presos.

Segundo os depoimentos prestados ao Exército, o único oficial do grupo, tenente Ítalo da Silva Nunes Romualdo, foi o primeiro a atirar contra o carro da família do músico Evaldo Rosa. Outros oito soldados dispararam em seguida. A esposa da vítima, que também estava no veículo alvejado, declarou à imprensa que os militares debocharam dela enquanto pedia ajuda para tentar salvar o marido e o padrasto, que estavam feridos. Durante o enterro do músico, amigos e familiares protestavam e se queixavam de não haverem sido ouvidos pelo Comando Militar do Leste, responsável pelas investigações. A instituição prestou condolências à família por meio das redes sociais. Entidades de direitos humanos temem que o caso fique impune, já que os militares serão investigados e julgados por membros de sua própria corporação. 

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