Crise política na Venezuela

Guaidó tenta mobilizar setor público para aumentar pressão a Maduro

Presidente autodeclarado da Venezuela convoca uma greve do funcionalismo, setor tradicionalmente próximo ao chavismo

Guaidó, em reunião com os sindicatos do funcionalismo
Guaidó, em reunião com os sindicatos do funcionalismoF. PARRA (AFP)

Juan Guaidó tenta recuperar a iniciativa na Venezuela com uma investida nas engrenagens mais engraxadas do chavismo. A carta que pôs na mesa nesta terça-feira, 5, após seu retorno ao país, é a da mobilização dos servidores públicos. O presidente da Assembleia Nacional, reconhecido como presidente interino por mais de 50 Governos, convocou uma paralisação do funcionalismo, para a qual não fixou data, depois de se reunir com representantes de 16 sindicatos, e anunciou garantias legais para proteger os servidores das represálias do regime. O setor público, tradicionalmente leal ao Governo de Hugo Chávez e agora a Nicolás Maduro, apesar das precárias condições de trabalho, tem importantes cisões, segundo o político venezuelano. Agora se trata de amplificá-las para conseguir a fratura nas engrenagens do Estado.

"Hoje a burocracia está sendo sequestrada pela ditadura", disse Guaidó, que esta semana pretende revigorar a pressão contra o Governo com uma agenda renovada e manifestações previstas para sábado, 9. "Estamos indo em direção a uma paralisação gradual na administração pública, definitivamente", continuou. O dirigente assume que a aposta é alta e dá como certo que haverá “momentos complexos, dias difíceis" pelo assédio das autoridades. "Sabemos que vão começar as ameaças, a perseguição, mas hoje também depende de você. O momento é agora. O momento chegou", insistiu.

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Esse movimento tem semelhanças com a tentativa de produzir uma ruptura na cúpula das Forças Armadas, o que ainda não ocorreu. A última operação, a de 23 de fevereiro, para introduzir carregamentos de suprimentos médicos e alimentos através da fronteira, frustrada pela atuação do aparato chavista, da polícia e de grupos paramilitares, mostrou que o Governo mantém as rédeas das forças armadas. E embora já tenham ocorrido mais de 700 deserções, esses números, muito significativos, não são suficientes para debilitar um setor com cerca de 250 mil soldados.

Os cerca de 2,8 milhões de funcionários públicos – um número anterior à última onda de migração – enfrentam um dilema semelhante, apesar da falta de recursos e do descontentamento. Além do salário mínimo, recebem ajuda e bônus do Governo, que costuma garantir seu apoio eleitoral com um sistema de incentivos que inclui as caixas de alimentos dos Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP). E nas manifestações chavistas é comum, por exemplo, ver milhares de funcionários mobilizados para prestigiar os líderes bolivarianos.

Nesse contexto, a Assembleia Nacional iniciará hoje o debate sobre uma lei de garantias que busca protegê-los de represálias. E também vai preparar um censo de funcionários demitidos por razões de natureza política.

"Toda a autoridade usurpada é nula, de modo que a perseguição política não tem efeito", disse Guaidó em uma aparição perante a mídia na Ordem dos Engenheiros de Caracas. "Atenção, polícia nacional, municipal, contamos com vocês. Amanhã [esta quarta-feira] o Parlamento inicia o processo de reuniões com todos os trabalhadores, sindicatos e funcionários públicos”, continuou. "Amanhã mesmo vamos convocar uma reunião de cada central para dizer que já basta. Aqui estão os sindicatos para dizer que isto não é de esquerda nem de direita. Todas as lutas, uma só luta.”

A oposição, consciente de que também deve dirigir-se a setores progressistas da opinião pública, especialmente na Europa, vai tentar demonstrar nesta nova fase do embate com o regime que seu projeto vai além da batalha ideológica e é uma simples questão de democracia.

O chavismo, que deixou Guaidó retornar à Venezuela depois de uma turnê de uma semana, apesar de ter sido proibido de sair do país, acompanha os seus passos na esperança de que o entusiasmo murche paulatinamente. Maduro relembrou nesta terça-feira o sexto aniversário da morte do ex-presidente Hugo Chávez e se esforçou em aparentar normalidade, citando os festejos do feriado de Carnaval.