Seleccione Edição
Login

Guaidó testa fidelidade dos militares a Maduro com apelo por entrada de ajuda humanitária

Chegada da primeira remessa de medicamentos enviados pelos EUA para a fronteira com a Colômbia depende de autorização das forças armadas venezuelanas

Juan Guaidó Venezuela
Juan Guaidó, na Assembleia Nacional venezuelana, nesta segunda-feira. AFP

Juan Guaidó enfrenta seu primeiro grande desafio para consolidar sua liderança na Venezuela: receber a primeira remessa de ajuda humanitária para a Venezuela. Em menos de 15 dias, o político desafiou Nicolás Maduro ao se declarar presidente legítimo do país, conseguiu o apoio de boa parte da comunidade internacional e estabeleceu o objetivo de iniciar um processo de transição. No entanto, uma condição essencial para a mudança é a cumplicidade das forças armadas, que a oposição tenta dividir com a oferta de uma lei de anistia. São os militares que permitirão, ou não, a entrada de remédios e alimentos, uma reivindicação histórica das forças críticas ao Governo.

A Assembleia Nacional anunciou no domingo a iminente chegada de suprimentos com o apoio da Administração de Donald Trump e do presidente da Colômbia, Iván Duque. Depois de passar na segunda-feira por Bogotá, será guardada em um centro de armazenagem na cidade fronteiriça de Cúcuta, principal via de entrada dos venezuelanos que migram à Colômbia em busca de oportunidades. Uma vez ali, provavelmente entre terça e quarta-feira, haverá a primeira tentativa de abrir um canal humanitário. O deputado da oposição José Manuel Olivares anunciou que “em poucas horas” estará coordenando o recebimento dessa ajuda com a USAID, a agência de cooperação norte-americana, e as autoridades do país vizinho. “Faz mais de três anos que lutamos para que os medicamentos cheguem aos nossos pacientes. Estamos muito perto de fazer isso acontecer!”, proclamou nas redes sociais.

Os Estados Unidos lançaram uma grande operação, coordenada com a Colômbia e o Brasil, os aliados mais beligerantes do presidente interino, para que a ajuda chegue o mais depressa possível, embora ainda não tenham especificado os pontos pelos quais tentarão fazê-la chegar nem como a entregarão ou a quem. “O chamado é para os funcionários civis e membros da FANB [Força Armada Nacional Bolivariana] para que se coloquem do lado dos venezuelanos e permitam a entrada da ajuda humanitária que tanto urge a centenas de milhares de venezuelanos que sofrem por causa da emergência humanitária”, disse Miguel Pizarro, outro parlamentar próximo a Guaidó, ao agradecer o esforço da comunidade internacional.

Ninguém duvida da necessidade da ajuda humanitária há meses. Mas a urgência da oposição para que chegue neste momento tem como foco aumentar a pressão sobre os militares. São eles que controlam as fronteiras do país e quem, em última instância, definirão se a ajuda entre ou não na Venezuela. O objetivo é forçar que se rompa a coesão entre os membros das forças armadas. Os críticos de Maduro afirmam que grande parte dos comandos militares médios não apoia o líder venezuelano, mas que o medo de represálias impediu qualquer ruptura em massa. No caso da cúpula militar, a unidade é, até o momento, absoluta em torno da figura de Maduro.

As primeiras caixas que chegaram dos Estados Unidos contêm medicamentos, material cirúrgico e suplementos alimentares. Produtos prioritários destinados a “atender uma emergência de saúde complexa direcionada àqueles que correm risco de morte”. “Há entre 250.000 e 300.000 venezuelanos com risco de morrer”, disse no sábado, durante a última mobilização maciça da oposição, o presidente interino. A pesquisa sobre as condições de vida na Venezuela (Encovi), elaborada pela Universidade Católica Andrés Bello e outros organismos, aponta que já em 2017, quando a situação econômica não era tão grave e a hiperinflação estava um pouco mais contida, quase 90% da população vivia abaixo da linha da pobreza.

Essa tendência incontrolável obrigou junto com a deriva institucional a que mais de três milhões de venezuelanos, segundo dados das Nações Unidas, abandonassem o país. Mais de um milhão está agora na Colômbia, que tem um Governo radicalmente em confronto com Maduro, a quem não reconhece como presidente, e está comprometido com o plano de Guaidó e com a convocação de eleições livres.

Fontes diplomáticas de vários países latino-americanos e dos setores mais moderados da oposição temem que uma crise em torno da ajuda humanitária sirva de pretexto para aumentar o conflito no âmbito militar, como vem insinuando o assessor de segurança de Donald Trump, John Bolton, o linha-dura da Casa Branca, que insistiu nos últimos dias – assim como o próprio presidente dos EUA – que qualquer opção militar está sobre a mesa. Este é um aspecto que os setores críticos do chavismo mais extremistas não veem com maus olhos, porque consideram que é a única maneira de Maduro abandonar o poder no curto prazo.

MAIS INFORMAÇÕES