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Rússia e China vetam na ONU resolução dos EUA que exigia eleições na Venezuela

Um texto alternativo russo, que pedia respeito à soberania venezuelana, também não conseguiu os votos necessários no Conselho de Segurança

Sessão do Conselho de Segurança das Nações Unidas
Sessão do Conselho de Segurança das Nações Unidas AP

A solução para a crise na Venezuela não chegará pela via das Nações Unidas depois do enfrentamento encenado nesta quinta-feira pelas grandes potências mundiais no Conselho de Segurança da ONU. Os Estados Unidos viram como a Rússia bloqueou, juntamente com a China, a resolução que exigia que o regime de Nicolás Maduro permitisse a entrada da ajuda humanitária e reclamava a convocação imediata de eleições. Logo depois, as principais potências ocidentais rejeitaram a contramoção russa, que exortava a comunidade internacional a se comprometer a respeitar a soberania venezuelana.

Foi a terceira vez em um mês que o órgão que cuida da paz e da segurança mundial debateu a situação na Venezuela. Washington, que junto com cinquenta países apoia o líder da oposição Juan Guaidó como presidente interino, recebeu os nove votos necessários para que seu esboço de proposta fosse aprovado. Mas a Rússia e a China, que apoiam Maduro, recorreram ao seu poder de veto dentro do Conselho de Segurança.

O texto norte-americano apontava Maduro como o único responsável pelo colapso econômico do país sul-americano. E, para evitar que a situação se degradasse ainda mais, sugeria duas coisas: que se permitisse a “entrada sem obstáculos” da ajuda humanitária para dar assistência aos mais necessitados e que fossem convocadas “eleições livres, justas e credíveis” com a presença de observadores internacionais. Pedia também ao secretário-geral da ONU, António Guterres, que negociasse um acordo para a realização de novas eleições e pedia apoio à “restauração pacífica da democracia e do Estado de direito”. Por último, ressaltava a importância de garantir a segurança dos deputados e membros da oposição, embora evitasse manifestar total apoio à Assembleia Nacional.

O embaixador russo, Vasily Nebenzya, afirmou que “o mais importante é que os venezuelanos resolvam os problemas sozinhos”. Se a resolução dos EUA tivesse sido adotada, acrescentou o representante do Kremlin, “teria sido a primeira vez que o Conselho ignorava o presidente de um país e nomeava outro”. A única coisa que a Casa Branca deseja, acrescentou, é que haja uma mudança de Governo na Venezuela, com a desculpa da intervenção humanitária.

O projeto de resolução de Moscou era muito diferente. Não mencionava sequer uma vez a situação humanitária e estava centrado em destacar a preocupação com as “tentativas de intervenção em assuntos internos”, bem como “as ameaças de uso da força”. A esse respeito, a Rússia pedia uma “solução política” e “pacífica” da crise. E ressaltou que Maduro — seu aliado na Venezuela — é o único que tem autoridade para solicitar a assistência.

O embaixador francês François Delattre, que votou contra a resolução russa, insistiu que a “crise política requer uma resposta política”. “É importante promover uma solução pacífica e evitar o uso da força, bem como qualquer forma de violência”, disse. Paris deu nesta quinta-feira seu apoio à iniciativa norte-americana porque considera que o texto não representa uma base legal para o uso da força ou uma tentativa de minar a soberania. O esboço apresentado pela Rússia, acrescentou Delattre, não refletia a realidade que o país atravessa e também não oferecia uma solução. “Cria a ilusão de uma Venezuela pacífica. E ninguém pode negar a crise humanitária e as consequências para a região”.

Por seu lado, a representante britânica Karen Pierce insistiu que a situação é “extremamente triste” e que o correto é que o Conselho de Segurança a aborde. “Não é nenhum segredo que não estamos unidos e é decepcionante”, admitiu a embaixadora do Reino Unido — um país que se alinhou nesta quinta-feira — “mas não se pode maltratar as pessoas com impunidade”. Pierce não acredita que essa ruptura coloque a ONU em um beco sem saída. “Temos de continuar tentando que a ajuda chegue e se consiga uma solução democrática” para a crise. “É uma grande esperança, os venezuelanos não merecem menos.”

O ministro venezuelano das Relações Exteriores, Jorge Arreaza, já disse na terça-feira que os EUA e seus aliados tentam usar a crise humanitária como pretexto para intervir militarmente em seu país e culpou as sanções pela situação de penúria em seu país. O enviado norte-americano para a Venezuela, Elliott Abrams, voltou a dizer que “a solução para a miséria e a tirania” do regime de Maduro é convocar eleições.

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