Edina Alves, a única árbitra na elite do futebol sonha apitar outra Copa do Mundo

Depois de 14 anos, o Brasileirão voltou a ter uma mulher no apito. E ela faz planos ainda mais ambiciosos para a carreira que demorou a decolar

A árbitra Edina Alves apitou a última Copa do Mundo feminina, na França.
A árbitra Edina Alves apitou a última Copa do Mundo feminina, na França.Rodrigo Corsi (FPF)

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Em Goioerê, não tinha mulher apitando futebol até Edina Alves Batista aparecer pelos gramados. A partir dela, surgiram outras. No vestibular da arbitragem organizado pela Federação Paranaense em 1999, três mulheres da acanhada cidade no noroeste do Paraná foram aprovadas entre as 50 vagas do curso para formar árbitros. Apenas Edina perseverou e vingou na profissão. Depois de enfrentar resistência dos antigos chefes, ela se tornou este ano a única mulher a apitar jogos da primeira divisão do Campeonato Brasileiro, algo que não ocorria há 14 anos. “Credibilidade se conquista com o tempo”, diz Edina, que já comandou cinco partidas na Série A.

Firme e discreta, ela não se deixa abalar diante da pressão de jogadores. Na 11ª rodada, em duelo tenso entre Atlético-MG e Fortaleza, marcou um pênalti a favor do time da casa. Felipe Alves pegou a cobrança do atacante atleticano, mas a juíza, alertada pelo VAR, mandou voltar a batida porque o goleiro havia se adiantado antes de fazer a defesa. Revoltado, Felipe se recusava a retornar ao gol. Enquanto era conduzido de volta à meta pela árbitra, ele gritava em sua direção: “Tira a mão de mim, tira a mão de mim!”. Edina não encara atitudes desse tipo como machismo, reconhecendo que, no caso específico, se excedeu ao tocar no goleiro.

“Árbitros são testados o tempo inteiro”, afirma Edina. “Os homens também passam por isso, não é só comigo. Assim como os atletas, somos passíveis de erros. A diferença é que, quando erramos, somos punidos e ficamos sem apitar, enquanto o jogador continua recebendo salário, mesmo no banco de reservas.” Para evitar questionamentos por ser mulher, ela sempre faz questão de se submeter à mesma exigência dos colegas, inclusive nos testes físicos. “Em avaliações de desempenho, eu cravo o tempo masculino. Não quero ser tratada como ‘a árbitra mulher’, apenas como árbitra.”

Consciente de que seu exemplo, uma presença feminina em atividade dominada por homens, pode inspirar outras mulheres, Edina Alves, aos 39 anos, explica que a busca por igualdade é o maior legado que pretende deixar para o esporte. “As meninas que desejam ser árbitras não devem ser vistas como coitadinhas. É uma carreira difícil, mas, felizmente, pelo menos no comando de arbitragem da CBF, as árbitras são avaliadas de forma justa e recebem o mesmo tratamento dos árbitros. Isso já é uma grande conquista.” Leonardo Gaciba, ex-árbitro que hoje preside a Comissão de Arbitragem, ressalta os méritos de Edina. “Eu vejo meus árbitros como pessoas iguais. Por sua personalidade e condicionamento físico, ela serve de exemplo não só para mulheres, mas para todos.”

Apesar do discurso oficial de valorização das mulheres, elas ainda representam a exceção na elite da arbitragem. Sérgio Cenedezi, ex-árbitro assistente que nunca escondeu a homossexualidade de seus pares, foi pioneiro ao criar o primeiro curso exclusivo para mulheres no Sindicato de Árbitros de São Paulo, em 1997. Precisou bater de frente com os superiores para tocar o projeto. “Diziam que lugar de mulher é no fogão”, conta Cenedezi. “Eu quis quebrar esse preconceito. Mas ainda existe uma barreira enorme à figura feminina na arbitragem.” Antes de Edina Alves, a última mulher a apitar na primeira divisão do Campeonato Brasileiro havia sido Sílvia Regina de Oliveira, em 2005, que hoje atua como supervisora de protocolo do VAR.

No ano passado, Edina resolveu se mudar para São Paulo com o intuito de dar um salto na carreira. Percebia que, em seu Estado, não teria futuro com o apito nas mãos. Ela divide apartamento em Jundiaí com a assistente Neuza Inês Back, uma das auxiliares de sua equipe que teve papel determinante para que Edina se tornasse árbitra. Foi Back quem sugeriu, em uma reunião com o ex-chefe de arbitragem da CBF, Sérgio Correa, em 2014, uma oportunidade para a colega, que até então atuava somente como bandeirinha. “Vocês já viram essa mulher apitar?”, provocou a amiga catarinense. Correa deu aval à ideia.

Porém, a transição da bandeira para o apito implicou em renúncias. A Federação Paranaense obrigou Edina a voltar todas as casas que já havia percorrido na arbitragem. Ela, que bandeirava em jogos da primeira divisão e estava a um passo de ganhar o escudo da FIFA para a função de auxiliar, precisou recomeçar do zero a carreira, apitando partidas de equipes infantis, juvenis e amadoras. “Sempre deixei claro que queria ser árbitra. É algo que está no meu sangue. Mas o comando da arbitragem no meu Estado entendia isso de outra forma”, diz. Depois de quatro anos sem conseguir apitar jogos masculinos de alto nível com frequência, ela trocou a Federação Paranaense pela Paulista em 2018. “Me acolheram de braços abertos.”

Desde então, Edina foi promovida ao quadro de árbitros da Série A, realizou o sonho de participar de uma Copa do Mundo feminina – a última edição do torneio, sediada na França, em junho – e está escalada para o Mundial sub-17 masculino, que acontece a partir deste mês, no Brasil. Mas os planos da árbitra são ainda mais ambiciosos. “Quero apitar Olimpíada e mais uma Copa. Vou trabalhar para alcançar meus objetivos. E para que outras mulheres continuem ganhando espaço na arbitragem”, afirma, lembrando de quando lançou moda, ainda na pequena Goioerê, com essa história de querer apitar futebol.