Incêndios na Amazônia

H&M pega carona na campanha pela Amazônia e suspende compra de couro brasileiro

Decisão do gigante sueco, alvo de denúncias de trabalho escravo, atende a público cada vez mais engajado com o meio ambiente. Ainda que tenha pouco impacto econômico, ela serve como gesto poderoso num momento em que o país se transforma em vilão ambiental

Uma pilha de troncos em uma empresa madeireira na Floresta Nacional de Jacundá, em Rondônia.
Uma pilha de troncos em uma empresa madeireira na Floresta Nacional de Jacundá, em Rondônia.Luis Andres Henao (AP)

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Depois do dano pelos incêndios e das declarações do presidente brasileiro, um novo golpe na imagem internacional do Brasil. O gigante da moda H&M anunciou nesta quinta-feira que suspenderá imediatamente a compra de couro do Brasil “devido à conexão dos graves incêndios da Amazônia com a produção pecuarista”. A empresa sueca, que é a segunda maior varejista de moda do mundo depois da espanhola Inditex, dona da Zara, anunciou sua decisão justamente no dia em que o Governo do polêmico Jair Bolsonaro lançava uma campanha publicitária dentro e fora de suas fronteiras para reafirmar a soberania brasileira sobre essa região, crucial para frear a mudança climática.

A campanha publicitária reflete a preocupação do Governo com as consequência da indignação mundial pelos queimadas. Paralelamente, o Gabinete decidiu que um bilhão de reais do fundo da Lava Jato, proveniente de multas por corrupção que a Petrobras pagou nos EUA, sejam dedicadas a combater o desmatamento.

Os incêndios em agosto queimaram quatro vezes mais superfície do que no ano passado, segundo dados do Instituto de Pesquisas Espaciais, o que equivale a 4,2 milhões de campos de futebol, segundo o WWF.

A H&M, proprietária de marcas como Other Things e Cos, explicou em nota que a suspensão estará em vigor “até que existam sistemas de controle confiáveis de que o couro não contribui para o dano ambiental na Amazônia”. Começa a ocorrer o que os exportadores do poderosíssimo setor agropecuário brasileiro mais temem: uma campanha de boicote aos seus produtos promovida por empresas europeias, com uma clientela cada vez mais preocupada com a mudança climática. A H&M se soma à firma VFcorp, proprietária da Timberland, Vans e The North Face, que na semana passada anunciou que deixaria de comprar couro brasileiro.

A decisão do gigante sueco, alvo de denúncias de trabalho escravo pelo mundo, atende a um público cada vez mais engajado com o meio ambiente. Ainda que tenha pouco impacto econômico, ela serve como um gesto poderoso num momento em que o Brasil se transformou em um vilão ambiental. A Suécia é justamente a pátria de Greta Thunberg, a mais recente catalisadora da preocupação ecológica dos europeus.

Nas últimas semanas mandatários estrangeiros, com o francês Emmanuel Macron à frente, vêm fazendo críticas a Bolsonaro por seu desprezo à preservação ambiental. Desde que chegou ao poder, em janeiro, o desmatamento aumentou e a fiscalização se enfraqueceu.

Se as consequências econômicas são limitadas, outra coisa são os reflexos em termos de reputação e políticos. As exportações de couro do Brasil somaram 1,44 bilhão de dólares (quase seis bilhões de reais) em 2018, dirigidas principalmente aos Estados Unidos, China e Itália, segundo a Associação Brasileira de Curtidos. E uma porta-voz da H&M disse à Reuters que só uma pequena parte do couro que a empresa usa vem do Brasil, porque a maioria procede da Europa.

A campanha governamental “Amazônia para o Brasil” reivindica essa região em termos patrióticos e gaba-se de ser “um exemplo mundial de preservação, conservação e sustentabilidade ambiental”. E recorda que mantém intacta 84% de sua flora na Amazônia, e 60% em todo o país. O Brasil foi considerado um líder ecológico nos últimos anos, mas os críticos de Bolsonaro, incluídos todos os ex-ministros de Meio Ambiente vivos, afirmam que este Governo está destruindo os alicerces desses avanços.

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