INCÊNDIOS NA AMAZÔNIA

Bolsonaro proíbe queimadas por 60 dias, enquanto empresas já sofrem boicote por crise na Amazônia

Empresa dona de marcas como Kipling, Timberland e Vans, confirmou a jornais brasileiros que não utilizará couro do Brasil até que tenha absoluta segurança da origem dos produtos

Pedaço de floresta próxima a área usada como pasto perto de Porto Velho, Roraima.
Pedaço de floresta próxima a área usada como pasto perto de Porto Velho, Roraima.Victor R. Caivano (AP)

No dia em que o resultado do PIB surpreendeu, com um avanço inesperado de 0,4%, o Governo de Jair Bolsonaro viu, nesta sexta-feira, uma nova ameaça pairar pela cambaleante economia brasileira. A empresa dona de marcas populares entre a classe média do país, como Kipling, Timberland e Vans, confirmou a jornais brasileiros que não utilizará mais o couro vindo do Brasil até que tenha absoluta segurança da origem dos produtos, uma reação à alta das queimadas na Amazônia, que ganhou os holofotes mundiais na semana passada. Bolsonaro, que até a última sexta-feira tentava se descolar da crise ambiental, decretou nesta quinta-feira a proibição das queimadas no país por 60 dias, salvo em situações permitidas pelos órgãos de fiscalização. De acordo com os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), desde janeiro até a última terça-feira foram registrados 83.329 focos de incêndios no Brasil, sendo mais da metade (52,1%) na selva amazônica.

A suspensão das compras por parte da VF Corporation, que possui 18 marcas no total, é o primeiro golpe real contra a economia brasileira provocado pelo discurso antiambiental do presidente ultradireitista brasileiro. "A VF Corporation e suas marcas decidiram não seguir abastecendo diretamente com couro e curtume do Brasil para nossos negócios internacionais até que haja a segurança que os materiais usados em nossos produtos não contribuam para o dano ambiental no país", ressaltou a empresa, por meio de nota.  Na quinta-feira, o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil havia afirmado ao EL PAÍS que os importadores pediram informações adicionais aos fabricantes brasileiros sobre a origem do couro do país. Para o presidente da instituição, José Fernando Bello, a escalada de um boicote poderia ser desastrosa para uma indústria que exporta mais de 80% de sua produção e gera 2 bilhões de dólares em vendas ao mercado externo por ano.

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Desde que chegou ao poder, Bolsonaro atacou a fiscalização ambiental do país, reclamou de xiitas ativistas e desdenhou do dinheiro bloqueado por Alemanha e Noruega para o Fundo Amazônia, que contribui com a preservação da selva brasileira, incluindo com projetos de prevenção e combate a queimadas. O discurso beligerante é visto por especialistas como uma espécie de salvo-conduto às ações contra o meio ambiente. Neste primeiro ano de Bolsonaro, além das queimadas, o desmatamento também aumentou, apesar de o presidente ter refutado os dados indicados pelo INPE e demitido o presidente do órgão após a informação vir à público. Tudo isso compõe a estrutura da imagem de vilão ambiental que o ultradireitista —e o país— ganhou diante do mundo.

Na última semana, a condução ambiental do Brasil foi criticada por celebridades nas redes sociais e por membros de países importantes da União Europeia, como o francês Emmanuel Macron. A jovem sueca Greta Thunberg, que se tornou um ícone da luta contra as mudanças climáticas, também se manifestou. [Os que queimam a Amazônia] dão "um sinal claro de que precisamos parar de destruir a natureza e que nossa guerra contra a natureza deve terminar", disse ela, na quarta-feira, depois de chegar a Nova York após duas semanas navegando pelo Atlântico.

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Bolsonaro, que inicialmente chegou a dizer que ONGs que atuam na Amazônia eram as principais suspeitas de terem ateado fogo na floresta, se viu obrigado a agir diante da pressão internacional. Anunciou, na última sexta, em rede nacional, o envio para a Amazônia de homens da Força Nacional —uma espécie de tropa de elite do país, formada por homens da Polícia Militar de vários Estados— para atuar no combate ao fogo e às atividades ilegais que podem estar por trás dos incêndios. Na pressionada floresta brasileira, as chamas são apenas uma etapa do processo produtivo. Primeiro se entra na mata para retirar as árvores mais valiosas, como o Ipê; depois, se arrasa o restante das árvores com o correntão, uma corrente de ferro puxada por dois tratores que devasta a vegetação rapidamente; por último, taca-se fogo para implantar o pasto que servirá aos bois —segundo o Greenpeace a pecuária é o principal vetor de desmatamento na Amazônia.

O Governo, que assegura que os focos estão diminuindo, destacou desde a última sexta-feira mais de 3.900 militares e brigadistas, centenas de veículos e 18 aeronaves, entre elas dois aviões Hércules C-130, para controlar as chamas, de acordo com dados do Ministério de Defesa citados pela imprensa local. No decreto anunciado nesta quinta-feira, Bolsonaro proibiu que se realizem queimadas no Brasil durante dois meses —estão autorizadas apenas as controladas, permitidas pelo Código Florestal Brasileiro, em circunstâncias como práticas agrícolas e florestais em que o uso é justificado e autorizado pelos órgãos de controle.

Enquanto isso, as reações do mundo ao discurso de Bolsonaro continuam a preocupar empresários brasileiros, inclusive do agronegócio, que temem perder vendas com um possível boicote de países europeus. De acordo com a Folha de S.Paulo, parte dos ruralistas pressiona o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, a reforçar a fiscalização e abandonar o discurso belicoso contra os órgãos ambientais do Governo. Eles querem mostrar ao mundo que o sistema de controle ambiental funciona, numa inusitada posição pública contra o desmatamento, que talvez torne o setor mais criticado pelos ambientalistas há décadas como a salvaguarda da floresta.

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