Reino Unido

Conservadores elegem Boris Johnson primeiro-ministro do Reino Unido

Novo premiê terá pela frente a crise dos petroleiros com Irã e o problemático Brexit

NIKLAS HALLE'N (AFP)

O Partido Conservador colocou todas as suas esperanças em Boris Johnson para tentar sair de seu atual estado de ruína. O ex-prefeito de Londres venceu as primárias dos tories com 92.153 votos, enquanto seu rival, o ex-chanceler Jeremy Hunt, obteve 46.656. Nesta terça-feira a representante do comitê parlamentar 1922 Cheryl Gillan anunciou nova vitória para Johnson, mas ainda restam algumas horas para que ele coloque os pés em Downing Street e se torne o novo primeiro-ministro do Reino Unido.

Os britânicos poderão averiguar imediatamente se o afável e divertido Johnson tem a fibra necessária para ser o 77º primeiro-ministro da quinta maior economia do mundo. Disporá de pouco tempo para saborear seu êxito, e entre a avalanche de desafios que deverá enfrentar o Brexit é o mais importante, mas não o único.

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Sobre a mesa de seu gabinete na Downing Street, como manda a tradição, terá um white paper (dossiê oficial com análises e propostas) elaborado pelo Serviço Civil, o prestigioso corpo de funcionários de carreira que, diferentemente dos assessores políticos, permanece em seu cargo quando os políticos vêm e vão. Deixando de lado as constantes acusações de deslealdade contra esses altos servidores do Estado por parte dos conservadores (especialmente os eurocéticos, sempre desconfiando de seu bem-querer por Bruxelas), será um texto ajustado à crua realidade, que exporá ao novo premiê quais são os assuntos mais urgentes e quais os entraves ou problemas jurídicos que suas promessas de campanha podem enfrentar.

Um novo Governo

Johnson, que exerceu dois anos como ministro de Relações Exteriores sob o mandato de Theresa May, sempre compartilhou a sensação da ala dura do Partido Conservador de que seria complicado impulsionar o Brexit com um Gabinete em que a maioria dos ministros relutava em abandonar a União Europeia. É previsível que se cerque de pessoas com sua mesma determinação para deixar o bloco continental na data prevista, 31 de outubro, e que, como ele mesmo afirmou, não tenham inconveniente em que a saída seja sem acordo. Mas, ao mesmo tempo, ele dispõe de pouco tempo e não pode esbanjá-lo treinando do zero um grupo de ministros novatos em meio às vicissitudes do complicado momento político.

A série de demissões antecipadas dá uma ideia clara dos quem pulará fora do barco e quem poderá continuar a bordo. O ministro da Economia, Philip Hammond, que combateu a todo custo a possibilidade de um catastrófico Brexit sem acordo, já deixou claro que assim que Johnson tomar posse ele abandonará o número 11 da Downing Street, a residência contígua à do primeiro-ministro, ocupada tradicionalmente pelo responsável pelas finanças do país. O mesmo declarou David Gauke, secretário de Estado de Justiça e um dos políticos do Gabinete de May que mais se esforçaram em levar adiante o fracassado plano da até agora primeira-ministra. Também Alan Duncan, o número dois de Relações Exteriores, inimigo acérrimo do ex-prefeito de Londres, por quem não dissimula seu desprezo, e que tornou efetiva a sua renúncia antes mesmo da transição.

A série de demissões antecipadas dá uma ideia clara de quem pulará fora do barco e quem poderá continuar a bordo

Por outro lado, alguns políticos experientes, todos eles atuais ministros, mantêm suas chances de desempenhar um papel no novo Governo. É o caso do atual titular de Relações Exteriores, Jeremy Hunt, rival de Johnson nas primárias conservadoras, que durante a campanha teve a prudência de não fazer ataques viscerais ao agora premiê. Sua moderação e conhecimento do Ministério podem ser de grande ajuda ao novo mandatário. Algo semelhante ocorre com Sajid Javid, atual ministro do Interior. Sustentou bem sua aposta em liderar os tories, não tem contas pendentes com Johnson e seu conhecimento, em sua vida privada anterior, do mundo das finanças faz dele um candidato forte ao cargo de ministro da Economia. Até é possível que Johnson resgate Michael Gove, o homem que o apunhalou pelas costas há três anos. Provou do próprio veneno durante a primeira fase das primárias, quando o grupo de eurocéticos que controlava os votos dos deputados manobrou para deixá-lo fora da corrida. Mas Johnson sabe do seu valor e do seu firme euroceticismo. Em momentos complicados, é justo ter os amigos por perto, mas muito mais conveniente manter os inimigos mais perto ainda.

Irã, a primeira prova de fogo

O assunto mais delicado e urgente que o novo inquilino de Downing Street deverá enfrentar será a crise dos petroleiros entre o Reino Unido e o Irã. O atual Governo vinha medindo delicadamente suas palavras e movimentos diplomáticos, numa tentativa de reduzir a qualquer custo a tensão com Teerã, que chegou ao seu auge com a captura por parte da Guarda Revolucionária da embarcação Stena Impero, de bandeira britânica.

Até agora, o Reino Unido esteve do lado dos países como a França e a Alemanha, que querem preservar a todo custo o acordo nuclear alcançado em 2015 com Teerã

Johnson apostou grande parte da sua influência futura na excelente relação que mantém com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Mas, depois que ele colocar os pés na residência de Downing Street, essa amizade pode se transformar em exigências de acompanhá-lo em sua crescente pressão ao Irã. Até agora, o Reino Unido esteve ao lado de países como a França e a Alemanha, que querem a todo custo preservar o acordo nuclear alcançado em 2015 com Teerã e se opuseram ao regime de sanções imposto unilateralmente por Washington.

As incertas contas públicas

A incerteza gerada em torno do Brexit já obrigou o Governo de May a atrasar para o segundo semestre a apresentação da Revisão Trienal de Gasto Público, um relatório de cumprimento obrigatório que estipula os gastos e cortes previstos em cada departamento ministerial. O Escritório de Responsabilidade Orçamentária, um órgão público (mas independente) de controle das contas, estima que uma saída da UE sem acordo pode ampliar o déficit em mais de 25 bilhões de libras por ano (121 bilhões de reais) e uma queda do PIB de até dois pontos percentuais.

Johnson prometeu muitas coisas por conta das obrigações orçamentárias que o Reino Unido tem com Bruxelas, e que o novo primeiro-ministro estaria disposto a deixar de cumprir, apesar das dúvidas legais que um rompimento desse acordo internacional geraria.

O necessário trem de alta velocidade

O chamado Projeto HS2, um ambicioso plano ferroviário para impulsionar o desenvolvimento econômico no castigado norte da Inglaterra, projeta conectar oito grandes cidades, construir 25 novas estações e contribuir para o deslocamento anual de 30 milhões de pessoas. Mas seu orçamento disparou em mais 138 bilhões de reais, que irão se somar aos 260 bilhões já previstos. Os partidários da paralisação do projeto acreditam contar com o apoio de Johnson, que durante a campanha, ao contrário de seu rival, não quis se comprometer a seguir adiante e tirou o corpo fora com a desculpa de que precisa analisar os planos mais detalhadamente, e provavelmente revisar algumas das decisões.

Johnson não quis se comprometer em manter o projeto ferroviário

A terceira pista de Heathrow

Durante seu mandato como prefeito de Londres, Johnson chegou a afirmar que se colocaria diante das escavadoras para impedir a construção, para muitos totalmente necessária, da terceira pista do aeroporto de Heathrow. É verdade que depois – à medida que viu que uma posição tão ao lado dos moradores, mas contra os interesses empresariais da cidade, poderia se transformar em um obstáculo em sua marcha a Downing Street –, voltou a utilizar esse “estilo Boris” e afirmou que precisava revisar todo o projeto antes de tomar uma decisão.

Até agora, os conservadores perdoaram essa sua característica tendência de chutar a bola para frente. É difícil que o eleitorado em geral admita que um primeiro-ministro, em um dos momentos históricos mais delicados do Reino Unido, faça seu trabalho com calma.