Referendo do 'Brexit'

As promessas quebradas do ‘Brexit’

Depois de uma semana do referendo, o choque com a realidade tem demonstrado que muitos dos principais argumentos para votar contra a UE eram falsos

Manifestante deixa a concentração contra o 'Brexit', na terça.
Manifestante deixa a concentração contra o 'Brexit', na terça.JUSTIN TALLIS (AFP)

O que está claro, por enquanto, sobre a vitória do Brexit são as mentiras e promessas quebradas sobre tudo de maravilhoso que foi dito que ia acontecer. Alguns dos argumentos que levaram 17 milhões de eleitores a optar por sair da UE provaram ser falsos, tudo vai ser mais complicado do que parece, e, portanto, há uma sensação de arrependimento entre alguns deles. Estas são as principais promessas quebradas após o choque com a realidade.

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Cameron

O primeiro-ministro David Cameron simplesmente se levantou na sexta-feira pela manhã, em sua primeira aparição pública, e fez duas coisas que disse que não iria fazer: renunciar e adiar para uma data não especificada a aplicação do artigo 50 dos tratados da UE, que regula o abandono de um país membro. Pensava-se que a petição seria ativada automaticamente, mas ele escolheu ganhar tempo, porque deseja que outro o faça e porque a situação é tão caótica e imprevisível que precisa de um claro roteiro.

Saúde

Umas das principais bandeiras da campanha do Brexit foi denunciar que o Reino Unido enviava semanalmente 350 milhões de libras (cerca de 1,5 bilhão de reais) à UE. A principal promessa, que até apareceu na publicidade dos ônibus, era que, ao fechar essa torneira, seria possível destinar uma boa parte, 100 milhões de libras, ao sistema de saúde pública. Já durante a campanha, os opositores do Brexit alegavam que isso era impraticável. Mas, na mesma manhã da sexta-feira, assim que acordou com o resultado do referendo, o próprio Nigel Farage voltou atrás: disse que nunca havia dito aquilo e, que se houvesse dito, se tratava de um “erro”. “Nossas promessas foram uma série de possibilidades”, disse o conservador Iain Duncan Smith.

Imigração

A outra grande promessa que arrastou o voto para o Brexit era a de instauração de um sistema de controle imigratório à australiana, com pontos e graus de aceitação de nacionalidades, que freasse sem motivo a chegada de todos os cidadãos da UE. De imediato emergiu com clareza que não se pode ter livre acesso ao mercado único comunitário sem aceitar também a livre circulação de cidadãos e os negócios continuam sendo a prioridade porque 44% das exportações britânicas vão para a UE. A lógica se impôs: “Sinto decepcionar os que nos ouvem, mas nunca dissemos que haveria um corte radical, só queremos medidas de controle”, especificou, depois de passado o momento, o parlamentar conservador eurocético Daniel Hannan, na televisão. Por outro lado, as cifras já revelavam a retórica que inflou essa promessa: dos 330.000 imigrantes chegados no ano passado (excluindo-se da cifra os que deixaram o país), somente 180.000 eram da UE, de admissão obrigatória, e o Governo britânico poderia controlar o restante como quisesse. É verdade que ninguém disse literalmente que as portas seriam fechadas, e muito menos que haveria expulsões, mas essa é a sensação para boa parte da rua. Levado ao extremo, desatou episódios racistas.

Turquia

Na batalha do medo ao exterior, a campanha do Brexit chegou a dizer que a entrada da Turquia na UE era praticamente coisa certa e, com sua população de 78 milhões, isso significaria uma nova onda de imigrantes. Nas pesquisas da semana anterior 45% dos britânicos achavam que isso era algo iminente. O grupo do “Leave” (sair) também colocou no mesmo saco a Sérvia, Montenegro, Albânia e Macedônia, que estão na lista de espera. No total, alertavam, chegariam mais 5 milhões de pessoas às ilhas até 2030. Cameron lembrou que o pedido de ingresso na UE feito pela Turquia está à espera desde 1963 e o ingresso do país ainda pode levar décadas, mas não foi ouvido.

Recursos Europeus

Os partidários do Brexit garantiram por escrito em 14 de junho que o abandono da UE não afetaria o apoio econômico que recebem com fundos europeus numerosos setores, como o agrícola, pesqueiro, universitário, pesquisa ou projetos regionais. Prometeram que o próprio Governo britânico se encarregaria de manter esse fluxo de dinheiro pelo menos até 2020, com uma especial prioridade para o campo da ciência. A realidade é que em uma nova situação econômica crítica, o Governo não será capaz de suprir por si só esse financiamento e terá de sacrificar alguns setores em detrimento de outros.

Pesca

Um estudo da Universidade de Aberdeen indicou que 9 de cada 10 empregados do setor pesqueiro britânico, onde trabalham 11.000 pessoas, votaram pelo Brexit, fartos das restrições e quotas de Bruxelas. Farage usou muito essa bandeira, e até mesmo passeou pelo Tâmisa em um barco com pescadores. No dia seguinte ao referendo houve reportagens de pescadores felizes, como se fossem sair para pescar tudo o que quisessem, mas em seguida os ânimos gelaram. A Federação Nacional de Organizações de Pesca alertou que as promessas dificilmente poderiam ser mantidas. Mudar o atual estado de coisas levará anos de negociações, de todo modo continuará havendo regras e o setor perderá os subsídios europeus.

Impostos

Outra proposta apetitosa era a de retirar 5% do IVA na conta de eletricidade dos domicílios, assim como eliminar impostos sobre o combustível e até os absorventes –todos eles tributos definidos por normas europeias. No entanto, todos os especialistas advertiram com realismo que o impacto negativo do Brexit na economia obrigará o Governo a elevar impostos nos próximos anos.

Deportações

Os tabloides sensacionalistas exigiam no dia seguinte ao referendo a imediata deportação de infratores, criminosos e terroristas a seus países de origem, uma de suas insistentes batalhas durante a campanha. No entanto ninguém no Governo falou disso nem é provável que o façam nos próximos meses porque Cameron não tomará decisões até outubro, quando deixará o cargo.

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