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Trump critica May por Brexit brando e põe em xeque pacto comercial com o Reino Unido

Em entrevista ao jornal 'The Sun', o presidente disse que o plano da primeira-ministra "pode matar” a possibilidade de um acordo de livre comércio entre os dois países

Trump
Melania e Donald Trump e Theresa e Philip May, nesta quinta-feira. AP

O plano da primeira-ministra Theresa May para o Brexit “provavelmente pode matar” a possibilidade de um acordo de livre comércio entre o Reino Unido e os Estados Unidos, disse Donald Trump em uma entrevista ao jornal The Sun. As explosivas declarações do presidente dos Estados Unidos, publicadas horas antes de sua reunião bilateral, redobram a pressão sobre a primeira-ministra britânica e representam um novo e inesperado golpe em sua estratégia de saída da União Europeia, aprovada dois anos depois do referendo e publicada em detalhes na quinta-feira entre críticas de diversos setores. Os dois líderes apareceram juntos nesta sexta-feira para tentar reduzir a controvérsia desencadeada pelas palavras do líder norte-americano.

“Se aprovarem um acordo como esse, estaríamos tratando com a União Europeia em vez do Reino Unido, e isso provavelmente pode matar o acordo”, disse o mandatário norte-americano ao iniciar uma visita de quatro dias à Grã-Bretanha, ao jornal mais lido do país, de propriedade do magnata Rupert Murdoch, um dos homens de confiança de Trump.

A humilhação à primeira-ministra não parou por aí. Trump, em um exemplo típico de sua explosiva diplomacia, elogiou o ex-ministro das Relações Exteriores britânico Boris Johnson —a ala conservadora que defende um Brexit radical—, que provocou uma grave crise no Governo de May com sua renúncia na segunda-feira em protesto à estratégia de um Brexit mais brando. Trump diz na entrevista que Johnson é "um cara muito talentoso" e que ele seria "um grande primeiro-ministro". "Ele tem o que é preciso", diz o presidente.

"Ele obviamente gosta de mim e diz coisas muito boas sobre mim", diz ele sobre o ex-ministro rebelde, eterno rival de uma Theresa May enfraquecida pela liderança do Partido Conservador. "Fiquei muito triste em ver que ele estava saindo do governo e espero que volte em algum momento", acrescentou o presidente. Johnson elogiou Trump no passado e até chegou a dizer que o republicano faria um bom trabalho negociando o Brexit.

Manifestantes contra a visita de Donald Trump ao Reino Unido, nesta sexta-feira. ampliar foto
Manifestantes contra a visita de Donald Trump ao Reino Unido, nesta sexta-feira. REUTERS

Trump explica na entrevista que ele teria lidado com a saída do Reino Unido da UE de maneira "muito diferente". "Na verdade, eu disse a Theresa May como fazê-lo, mas ela não concordou, ela não me deu ouvidos. Eu queria seguir outro caminho", diz ele. "Eu diria que foi provavelmente o caminho oposto. E está tudo bem. Ela deveria negociar da melhor maneira que saiba. Mas o que está acontecendo é muito ruim".

A intervenção de Trump fulmina a estratégia da primeira-ministra, que esperava usar sua reunião bilateral hoje com o presidente dos EUA para fortalecer a relação entre os dois países e silenciar os protestos da ala dura dos conservadores em seu plano para o Brexit, ganhando o apoio de Trump às suas propostas. As declarações ao The Sun surgem precisamente durante um jantar de gala em homenagem ao presidente, em Londres, no qual May falou de "uma oportunidade sem precedentes" para um acordo comercial com os Estados Unidos. Nesta sexta-feira, ambos os líderes farão uma coletiva de imprensa conjunta após uma reunião bilateral em Chequers, a residência da primeira-ministra.

A entrevista, um presente envenenado de Trump a May, exatamente no dia em que ele faz dois anos na Downing Street, é um duro golpe à relação especial entre os dois países, aquela histórica aliança política, diplomática, econômica e cultural entre o Reino Unido e os Estados Unidos, um dos pilares da ordem mundial dos séculos XX e XXI. Quando May visitou Trump em Washington em janeiro de 2017, o presidente republicano comparou seu recém estabelecido relacionamento com a primeira-ministra conservadora com a estreita amizade de seus antecessores Ronald Reagan e Margaret Thatcher. "Será minha Maggie", disse Trump em maio, usando o primeiro nome da outra mulher que ocupou o cargo de primeira-ministra  no Reino Unido. Hoje, no entanto, essa comparação parece mais distante da realidade do que nunca.

O presidente dos EUA humilhou sua anfitriã, agravando ainda mais a crise política que a encurralou. A possibilidade de assinar um ambicioso acordo comercial com os Estados Unidos, uma vez que o Reino Unido está fora da UE, é um cenário ao qual os defensores do Brexit se agarram, vendendo-o como um ganancioso paliativo à perda de acesso ao mercado comum europeu. Mas Trump, com sua política protecionista em geral, e em particular com as advertências divulgadas na entrevista publicada nesta sexta-feira, não parece disposto a facilitar as coisas para May.

Na entrevista, o presidente também ataca Sadiq Khan, o sucessor de Johnson na prefeitura de Londres. Trump, que já teve um confronto verbal com o prefeito no ano passado, depois dos ataques terroristas na cidade, criticou novamente seu modo de administrar a ameaça terrorista e a imigração. "Olhe para o terrorismo que está ocorrendo. Eu acho que [Khan] fez um trabalho muito ruim no terrorismo. Eu acho que ele fez um trabalho ruim em relação à criminalidade, com todas as coisas horríveis acontecendo aí", diz Trump. "Eu acho que permitir que milhões e milhões de pessoas venham para a Europa é muito, muito triste. Você tem um prefeito que fez um trabalho terrível em Londres. Ele fez um trabalho terrível", reiterou.

O presidente dos EUA também criticou Khan por ter autorizado o voo de um balão sobre o Parlamento britânico representando Trump de fralda durante os protestos que estão seguindo seus passos no Reino Unido, e garante que ele passará menos tempo na capital nesta viagem. "Eu costumava amar Londres como cidade. Há muito tempo não vinha. Mas quando eles não fazem você se sentir bem-vindo, por que eu ficaria aqui?", explica.

As autoridades britânicas lançaram o tapete vermelho para receber Trump em sua primeira visita oficial como presidente, na esperança de que um acordo de livre comércio com os Estados Unidos seja alcançado, "o aliado mais próximo, mas também o mais querido amigo", segundo Theresa May.

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