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Negociação de May sobre a Irlanda desencadeia um vendaval político no Reino Unido

Primeira-ministra britânica se vê obrigada a romper o compromisso alcançado em Bruxelas depois das resistências dos unionistas do DUP, seus aliados

A política britânica se transformou em um delicadíssimo castelo de cartas e qualquer concessão da primeira-ministra Theresa May em Bruxelas produz um golpe de vento em direção contrária, capaz de acabar levando todo o baralho ao chão. É o que ficou evidente nesta segunda-feira com o fracasso de última hora de um acordo entre Londres e Dublin que ao meio-dia era dado como certo. As objeções dos unionistas do DUP, de cujos votos o Governo depende, impediram a conclusão da questão norte-irlandesa, que tem outros perigosos desdobramentos em Londres.

Theresa May e Jean-Claude Juncker, em Bruxelas
Theresa May e Jean-Claude Juncker, em Bruxelas REUTERS

“Fomos bem claros: a Irlanda do Norte tem de abandonar a UE nos mesmos termos que o resto do Reino Unido e não aceitaremos nenhuma forma de divergência regulatória que separe a Irlanda do Norte do resto do Reino Unido econômica e politicamente”, disse Arlene Foster, líder do DUP, quando começaram a vazar os termos do acordo que Londres e Dublin haviam alcançado.

Em Bruxelas, a primeira-ministra abandonava a mesa de Juncker para telefonar para Foster, 20 minutos depois de que esta deixasse clara sua preocupação em uma coletiva de imprensa. Tinha de convencer a líder unionista de que “o alinhamento regulatório continuado” é muito melhor que “nenhuma divergência regulatória”, que havia sido a proposta original de Dublin. A segunda expressão, segundo Londres, equivaleria a aceitar a vigência das regras do mercado único e a união aduaneira. A primeira oferece um pouco mais de flexibilidade.

Depois de falar com Foster, May voltou à mesa com Juncker e o acordo, que parecia fechado, se esfumaçava. “Não foi possível alcançar um acordo completo hoje”, declararia depois a primeira-ministra. “Temos entendimentos na maioria dos assuntos. Só dois ou três continuam abertos a debate.”

A resistência do DUP é uma amostra dos efeitos que o compromisso com Dublin pode ter para a política britânica. A Irlanda, como avalista do Acordo da Sexta-feira Santa, exige de Londres garantias de que não haverá divergências regulatórias significativas na ilha depois do Brexit. E conta com o respaldo de Bruxelas para impedir que as negociações avancem se não obtiver essas garantias.

Isso deixa a Londres duas opções, como explicou o ministro de Relações Exteriores irlandês, Simon Coveney, em entrevista a EL PAÍS: “O Reino Unido permanece em uma versão ampliada da união aduaneira e o mercado único, ou busca soluções únicas para as circunstâncias únicas da Irlanda do Norte.”

Se optar por garantir um tratamento especial à Irlanda do Norte, será muito difícil obter o respaldo do DUP, como ficou demonstrado nesta segunda-feira. Também ficou claro que outros exigiriam o mesmo tratamento para si. Nicola Sturgeon, a principal ministra escocesa, já fez essa advertência, bem como Sadiq Khan, o prefeito trabalhista de Londres. E Carwyn Jones, o principal ministro galês, também quer tirar partido do impasse.

“Enormes ramificações para Londres se Theresa May concede que é possível para uma parte do Reino Unido permanecer no mercado único e na união aduaneira depois do Brexit. Os londrinos votaram esmagadoramente por permanecer na UE e um acordo semelhante aqui poderia proteger dezenas de milhares de empregos”, escreveu o prefeito no Twitter. Sturgeon endossou a ideia: “Se não é um status como o da Noruega para o conjunto do Reino Unido, deve ser algum tipo de acordo especial para a Irlanda do Norte. Neste segundo caso, por que não também para a Escócia, Londres e Gales?

Em Downing Street se apressaram a dizer que May não fará nenhum acordo que implique barreiras entre a Irlanda do Norte e o resto do país. “O Reino Unido abandona a UE em seu conjunto. A integridade territorial e econômica do Reino Unido será protegida”, esclareceu o porta-voz de May.

Descartado um tratamento especial, só há uma maneira de garantir que a Irlanda do Norte mantenha um “alinhamento regulatório continuado” com a UE: que o país em seu conjunto o mantenha. Algo que seria extraordinariamente difícil de defender para May em seu partido e no próprio governo. Implicaria uma ruptura só pela metade, e isso não satisfaria o setor duro do Brexit. Um setor que resiste a ceder em sua pressão sobre a primeira-ministra, como demonstra o fato de que vários de seus membros desfilaram pela mídia neste fim de semana, às vésperas da reunião com Juncker, estabelecendo suas próprias linhas vermelhas para a negociação.

É o que explicava a jornalista da BBC Laura Kuenssberg, de um modo muito esclarecedor para os especialistas em Brexitologia, mas que soará como chinês para os neófitos: “May pode acertar em um acordo que a Irlanda do Norte seja a Noruega (modelo de alto alinhamento) antes de o Governo ter decidido se o resto do país vai ser Noruega ou Canadá (baixo de alinhamento)”.

A Noruega é membro do Espaço Econômico Europeu e, como tal, mantém acesso completo ao mercado único, e aceita as quatro liberdades, incluindo a livre circulação de pessoas. O Canadá, por sua vez, é o exemplo de terceira parte com a qual a UE firma um novo acordo comercial. Entre um e outro modelo estará a relação do Reino Unido com o bloco. Definir que tipo de relação quer –e essa é a parte difícil de verdade– será a próxima tarefa de May. Mas antes terá de explicar em casa como conseguirá garantir a Dublin que não haverá fronteira na ilha, sem oferecer um tratamento especial à Irlanda do Norte nem comprometer o modelo do Brexit para o conjunto do país.

O primeiro-ministro irlandês, "surpreso e decepcionado"

O fato de que o Reino Unido voltou atrás depois de ter alcançado um acordo com Bruxelas deixou o primeiro-ministro irlandês. Leo Varadkar, em suas próprias palavras, “surpreso e decepcionado”.

“A equipe negociadora irlandesa recebeu a confirmação do Governo britânico e da equipe de [o chefe negociador europeu, Michael] Barnier de que o Reino Unido tinha aceitado um texto sobre a fronteira que satisfaria nossas preocupações”, disse Varadkar em uma coletiva de imprensa à tarde em Dublin. “Estou surpreso e decepcionado porque o Governo britânico não está em posição de selar o que tinha sido acordado previamente no mesmo dia.”

“Aceito que a primeira-ministra tenha pedido mais tempo, sei que enfrenta muitos desafios e reconheço que negocia de boa fé”, disse Varadkar, mas acrescentou que “a responsabilidade de qualquer primeiro-ministro é assegurar que pode manter acordos que tenha alcançado”.

O primeiro-ministro irlandês se negou a atribuir toda a responsabilidade do fracasso do acordo aos unionistas norte-irlandeses do DUP. “Acho que não ajudaria se eu atribuir culpas. É evidente que as coisas se romperam durante o almoço em Bruxelas”, se limitou a dizer.

“Minha posição e a do Governo irlandês é inequívoca e tem o apoio de todos os partidos no Parlamento, e acredito que da maioria das pessoas nesta ilha”, concluiu. “A Irlanda quer proceder à fase dois das negociações, é favorável a nossos interesses que seja assim. Mas não podemos concordar em fazer isso se não tivermos garantias firmes de que não haverá uma fronteira na Irlanda sob nenhuma circunstância.”