Copa América 2019

Richarlison, do isolamento por caxumba ao gol do título

Atacante saiu do interior do Espírito Santo para fazer um gol na final da Copa América pela seleção brasileira. Durante a competição, ele investiu na educação da sua terra natal e superou uma caxumba

Richarlison comemora com Everton o gol na final da Copa América.
Richarlison comemora com Everton o gol na final da Copa América.NATACHA PISARENKO (AP)

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Em dez dias, ele foi de isolado da delegação brasileira por conta de uma caxumba a autor do gol do título do Brasil contra o Peru na final da Copa América. Richarlison, 22 anos e natural de Nova Venécia, no Espírito Santo, perdeu a titularidade da seleção para Gabriel Jesus e foi diagnosticado com a doença na semana antes da partida contra o Paraguai, nas quartas, mas se recuperou a tempo de entrar na final e bater o pênalti que definiu o 3 a 1. Uma reviravolta comum para quem conquistou uma vaga no elenco de Tite em apenas seis meses e que, em quatro anos de carreira, foi de promessa do América Mineiro a artilheiro do Everton FC no campeonato inglês. Mesmo brilhando na Europa e na Copa América, ele não se esquece das origens capixabas. É pensando no desenvolvimento da terra natal, onde ele viralizou ao comemorar a convocação para o torneio com a família, que o jogador vai financiar a excursão de alunos de um Instituto Federal da sua cidade para a Ásia, onde disputarão a Olimpíada Global de Matemática.

Richarlison se tornou profissional em 2015 pelo América Mineiro, mas passou apenas um ano em Belo Horizonte antes de ser negociado com o Fluminense. Uma temporada e meia no Rio de Janeiro foram o suficiente para credenciar o jovem como uma das maiores promessas brasileiras e encaminhar sua venda para o Watford, time inglês conhecido por ter Elton John como ex-presidente. Sob o comando do treinador português Marco Silva, o capixaba rapidamente se adaptou e estreou bem na Premier League. No começo da temporada 2018-19, Silva foi para o Everton e levou o brasileiro consigo; no time da cidade dos Beatles, Richarlison balançou as redes 15 vezes em 38 jogos. “Desde quando eu saí do América, todos viram a minha evolução”, comenta o jogador. “Em todos os treinos no Everton eu aposto 20 ou 50 euros para poder melhorar minha finalização, por exemplo”. Segundo o Centro Internacional do Estudo do Esporte (CIES), ele é o 28º jogador mais caro do mundo no momento.

Assim que chegou no Watford, o brasileiro não sofreu na adaptação dentro do futebol inglês e, como titular, viu seu time ocupar a quarta posição do concorrido campeonato inglês. Antes de uma partida contra o Chelsea, em outubro de 2017, o jornal Telegraph perguntou a Richarlison se ele não teria medo de jogar contra o atual campeão nacional. “Eu lembro que quando estava crescendo no Brasil, uma vez um cara apontou a arma no meu rosto, porque ele achava que eu era um traficante tentando tomar seu ponto de distribuição”, respondeu o sincero atacante. “Essa era a minha vida. Depois disso, jogar contra o Chelsea me parece fácil”.

Foi a primeira vez que a história da infância do atacante, passada em Nova Venécia, veio à tona. A cidade da região norte capixaba, que tem cerca de 50.000 habitantes e o 15º PIB do Espírito Santo, é famosa pelo apelido de capital do granito e pelo estádio Zenor Pedrosa, onde Romário fez seu primeiro gol como jogador profissional, em 1985, num amistoso do Vasco contra o time da cidade. 34 anos depois, outro atacante da seleção brasileira teve um momento marcante na cidade. Richarlison acompanhou a convocação de Tite para a Copa América sentado no chão da casa de sua vó, na cidade natal, rodeado de amigos e familiares. O vídeo do atacante comemorando o anúncio viralizou nas redes.

“Fiquei muito nervoso”, admitiu Richarlison em entrevista ao Globo Esporte. Seu nome foi o último a ser anunciado por Tite, uma vez que os atacantes ficam para o final da convocação e a ordem dos nomes ditos é alfabética. O atacante ainda começou o torneio como titular, perdeu a vaga para Jesus na primeira fase, ficou em quarentena por conta da caxumba e voltou na final, quando bateu o pênalti no fim do segundo tempo. "Muitos deram para mim como fim de Copa América porque o tempo de cura [da caxumba] é de 15 dias. Mas tive fé e coragem. Coloquei na cabeça que ia melhorar e curei em quatro dias". Ele disse que dedica o gol para sua bisavó Julita, de 87 anos, mas confessou que não lembrava do nome dela ao fim do jogo. "É tanta emoção que eu esqueci!".

Antes da doença, o atacante estava concentrado com a seleção brasileira se preparando para o torneio quando a estudante Ana Carolina o marcou em um tweet. Ana estuda no campus em Nova Venécia do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e, no tweet, contou que sua turma foi convidada para participar da Olimpíada Global de Matemática 2019, que acontece na primeira semana de agosto no Taiwan, mas que precisavam de ajuda para arrecadar os 50.000 reais necessários para a viagem de três estudantes e um professor. “A escola não possui verbas”, disse a aluna. Poucas horas depois, o capixaba respondeu dizendo que ajudaria a custear a viagem dos alunos do ensino público federal.

“Eu estou ajudando, mas quem tinha que ver essas coisas era o governo”, afirmou o atacante. “Sei que as pessoas vão evoluir a educação da cidade, por isso ajudo. Espero que dê tudo certo e estou torcendo para eles, porque sei a dificuldade que eles passam no Espírito Santo”. A turma já havia arrecadado 1.000 reais para a viagem, então Richarlison doou os 49.000 restantes necessários para levar um professor aqueles que, de acordo com a classe, representarão melhor o Instituto na competição internacional. Porém, os estudantes ainda buscam arrecadar mais 100.000 reais, que seriam suficientes que todos os alunos possam participar.

A turma escreveu uma carta de agradecimento ao jogador, na qual cita a participação na Olimpíada de Matemática como uma “oportunidade única” para os alunos. “O nosso orgulho por você não é só pelo seu destaque em campo, mas se estende por todas essas ações que representam um retorno imensurável para a cidade”. Richarlison sabe das responsabilidades que tem como representante mais bem-sucedido da história de sua cidade natal. Já morou em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Londres e Liverpool, mas não esquece Nova Venécia.

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