Reforma da Previdência

Ato pelo 1º de Maio une contra nova Previdência centrais sindicais adversárias

Bolsonaro "conseguiu a proeza de unir a oposição", diz Guilherme Boulos. Paulinho da Força afirma que o centrão da Câmara discute uma reforma "que não garanta a reeleição de Bolsonaro" em 2022

Mais informações

Além da reforma da Previdência, a luta contra o desemprego  —que alcança 13,4 milhões de brasileiros— foi outra das bandeiras levantadas no ato. "Quem tem um parente desempregado ou está sem trabalhar, levanta a mão", gritou um líder sindicalista. No meio do público, milhares ergueram os braços. Marcelo Caetano de Souza, 43, foi um deles. "Eu era marceneiro, mas perdi o emprego três anos atrás, no final do Governo Dilma, e desde então não consegui mais me recolocar no mercado", afirma. Hoje faz bico de ambulante. "A reforma será péssima. Vai afetar especialmente os mais pobres".

O primeiro grande teste desta coalizão intersindical e pluripartidária será em 14 de junho, data para a qual foi convocada nesta quarta-feira uma greve geral em todo o país. Ainda é cedo para prever se haverá adesão massiva à convocatória, o que em tese colocaria pressão nos congressistas que discutem a reforma em Brasília. Representantes do sindicato dos metroviários de São Paulo, que tem potencial para parar a cidade, sinalizaram que devem aderir. "Dia 14 não terá trem, metrô nem ônibus", disseram, para a multidão que lotou o vale do Anhangabaú.

Considerado um estranho no ninho no evento, o deputado Paulinho da Força afirmou que o bloco conhecido como centrão da Câmara está discutindo a necessidade de "fazer uma reforma que não garanta a reeleição de Bolsonaro". Segundo o parlamentar, a economia para os caixas públicos prometida pelo presidente caso a reforma seja aprovada da maneira como está garantiria um segundo mandato ao capitão. "Nos últimos três anos de mandato ele teria 240 bilhões de reais para gastar [por ano], ou seja, garantiu a reeleição", afirmou.

Enquanto Paulinho está de olho em barrar Bolsonaro em 2022, Maria Creusa, 64, tem uma preocupação mais imediata. Ao lado do pequeno Hércules, de 11 anos, ela explica o que a levou ao Anhangabaú. "Eu consegui me aposentar aos 60. Tive sorte. Com essa reforma eu ainda teria que trabalhar pelo menos mais quatro anos para isso. Vim para a rua porque sinto que a aposentadoria e o futuro do meu neto estão em perigo. Isso para não falar da educação, que está sendo sucateada pelo Governo", afirmou.

Uma ausência notada no ato foi a do candidato do PDT à presidência, Ciro Gomes. Indagado sobre o fato, Haddad, que em entrevista ao EL PAÍS não disfarçou o mal-estar entre o pedetista e ele após o primeiro turno das eleições, minimizou o não comparecimento: "O Lupi [Carlos Lupi, presidente do PDT] está aqui, as centrais também estão aqui todas. Mas nem todos os presidenciáveis estão aqui. Marina não está, Ciro não está". Em seguida, disse que não comentaria a falta de Ciro. Lupi, por sua vez, afirmou que o ex-governador do Ceará "achou oportuno não ir ao ato, que é dos trabalhadores e sindicatos, para não parecer eleitoreiro".

Com ou sem Ciro, uma frente de esquerda para enfrentar a reforma esbarra em uma série de problemas. A professora Nadine Marques, 32, elogiou a união das centrais sindicais. "É fundamental nessa hora", disse. Mas criticou o que chama de uma "esquerda arcaica, que se nega a enxergar os absurdos que o presidente Nicolás Maduro faz na Venezuela e continua a defendê-lo". Indagado sobre isso, Haddad se limitou a dizer que "a esquerda é a favor da auto determinação dos povos e contra a ingerência de países estrangeiros".

Guilherme Boulos, liderança do MTST e ex-candidato à Presidência pelo PSOL, chamou a unidade entre as centrais sindicais e movimentos sociais como a Frente Povo Sem Medo de "histórica" e "improvável". "O Bolsonaro conseguiu a proeza de unir a oposição e as diferentes centrais. Apesar das diferenças entre elas, todos perceberam que é hora de trabalhar junto para derrubar esta reforma", afirmou.

O presidente da CUT, Vagner Freitas, reconheceu de forma velada que além das pautas em comum, a falta de verba decorrente do fim da contribuição sindical obrigatória, aprovado em 2017, também teria aproximado as centrais. "Muita gente estava torcendo contra [a união entre as entidades], o presidente disse que o ato seria esvaziado porque os sindicatos estavam quebrados. Se estamos quebrados ou não, não sei, mas que estamos com muita vontade de luta, isso é um fato", disse.