Quando a imaginação se alimenta do rancor

No Brasil atual, há uma afinidade entre o medo da beleza livre e a opção por um projeto que ameaça as liberdades individuais

Celebração de eleitores de Bolsonaro no dia da eleição, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.
Celebração de eleitores de Bolsonaro no dia da eleição, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.Fernando Frazão (Agência Brasil)

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Em visita a Berlim, em 1930, ao ser questionado acerca dos riscos que a Alemanha corria diante da ascensão do nazismo, Freud respondeu que uma nação que havia produzido Goethe não sucumbiria a algo tão nocivo. O teórico da literatura Wolfgang Iser conta esse episódio para argumentar que a perda de status que as artes sofreram ao longo do último século deve-se, em boa parte, ao fato de que o processo de humanização por meio delas provou ser uma grande ilusão.

Ainda assim, no Brasil de 2018, acho difícil entender como alguém escolhe o lado contrário ao de Milton Hatoum ou Adriana Varejão, isto é, como alguém a quem tenham sido dadas as oportunidades sociais e culturais escolhe ficar do lado oposto ao da beleza. Não falo da beleza óbvia e repetida das celebridades ou do pôr do sol, mas daquela que nos desloca do cotidiano para nos transportar a um estado mais fundamental: um estado a que, por exemplo, um troço dolorido como “Jesus chorou”, dos Racionais MC’s, nos leva. Porque a beleza, além de não ser óbvia, também não é fácil e, com frequência, nos machuca.

Defender, aqui, a potência da arte e da beleza, quando estamos prestes a pôr a faixa presidencial em um apologista da tortura seria ingênuo como a resposta de Freud? Acredito, ao contrário, na relação entre experiência artística, imaginação e empatia, e que a empatia deveria estar na essência do que é a política. Mais especificamente, creio existir — entre aqueles que tiveram o devido acesso às artes — um alinhamento entre a relação que cada um tem com elas e seu posicionamento em relação a questões sociais. Em outras palavras, e perdoem-me o simplismo, parece-me que as manifestações de apoio ao candidato de extrema-direita foram, durante o segundo turno, consistentemente mais feias que aquelas ao candidato que representava a alternativa a ele.

De um lado, declarações racistas grotescas de Regina Duarte; do outro, o poema-manifesto de Arnaldo Antunes. Daquele, o registro de um ex-juiz de punho erguido enquanto seus parceiros destruíam a placa que homenageava uma vereadora assassinada; deste, a lucidez enérgica de Mano Brown. Lá, imagens falsas e toscas como a das mamadeiras em formato de pênis; aqui, a profusão dos belos ‘desenhos pela democracia’. Nas mãos deles, armas; nas nossas, as dos nossos amigos.

Não se deve, todavia, simplesmente supor uma separação essencial, genética, entre os lados. Gosto e política se discutem. Desde, pelo menos, as eleições de 2014, surpreende a capacidade de tantas pessoas letradas se deixarem levar por fantasias delirantes como a de uma iminente ditadura comunista. Para além da má-fé dos que nutrem tais paranoias, minha hipótese é a de que falta emoção na vida particular daqueles indivíduos. É natural: entre a rotina capitalista que achata os dias de todos nós e o moralismo perverso que, para tantos de nós, termina de extinguir as chances de redenção dos desejos e de exercício da alegria, sobram energia e rancor. Quando, nesse cotidiano, não se inserem a arte e a vivência afetiva de diferentes possibilidades por ela oferecidas, a imaginação ruma em direção ao nonsense e ao horrível.

A responsabilidade, porém, é de todos. É preciso que nós, que prezamos a beleza desconcertante e que experimentamos a imaginação de um modo saudável, tentemos entender o que podemos fazer para difundir essa experiência. E é preciso perguntar: onde é que instituições como a escola, a universidade, a mídia cultural falham ao compartilhar com o público seus objetos, isto é, textos literários, filmes, canções, obras de artes visuais?

Minha hipótese não dá conta de todo o problema, mas arrisco dizer que, por razões que vão da inércia à arrogância, sequestramos desse compartilhamento o que mais nos tem feito falta agora: a habilidade, inerente à arte, de comover. Por estarmos constantemente defendendo apenas o que as obras significam, seja alegórica ou historicamente, perdemos a chance de permitir ao leitor, ao público, a liberdade de trafegar por elas, de se deixar envolver.

Não conseguimos nem uma coisa nem outra: o público não sabe interpretar uma obra, tampouco consegue enxergar o outro. Só se vê, só entende a si próprio. O resultado são cenas como a dos fãs de Pink Floyd que não haviam entendido nada das canções que tanto adoravam — o que só descobriram depois de pagar os ingressos para ver Roger Waters nos estádios brasileiros. É claro que o lado de cá também, por outro viés, também só enxergou a si mesmo. Tanto que não viu se aproximar a imensa onda conservadora que teve seus anseios atendidos pela figura do nosso presidente eleito. O apreço ao belo causa uma cegueira que, entre outros, recebe o nome de preconceito. E nos distrai do que, por receio ou soberba, não queremos ver. Até mesmo nos faz nos apegar de tal modo a certas belas narrativas que insistimos em transformar líderes falhos em heróis ou mártires. Nosso erro é, também, estético.

Isso tudo não equivale a dizer que não há espaço para a pura celebração da alegria e do pertencimento identitários — de todos os lados, cada um de nós quer e precisa ser acolhido. No entanto, a quebra de regras que a experiência artística proporciona, aquilo que chamei de deslocamento, é uma vivência extrema das diferenças, que proporciona um reencontro modificado consigo mesmo. Por isso, a arte e a beleza requerem que saiamos de nós — que nos movimentemos ao ritmo do outro. Vem daí esse verbo tão importante: comover, mover junto.

Sabemos que Hitler e seus seguidores chamaram degenerada à arte que fugia às regras do jogo naturalista: aquilo que não copia a realidade, o que é indomável, assusta porque escancara as possibilidades do belo. Não comparo nossa situação à da Alemanha nazista, mas chamo a atenção para o fato de que, no Brasil atual, há uma afinidade entre o medo dessa beleza livre e a opção por um projeto que ameaça as liberdades individuais. Também vem daí, em boa parte, o ressentimento que os departamentos de humanidades, nas universidades, inspiram. E que precisamos combater, com informação. Não estamos fazendo orgias e usando substâncias alucinógenas nas universidades, pessoal; estamos, entre diversas ações, compartilhando outras formas de beleza, às quais vocês estão convidados. Se não sabem disso, a culpa também é nossa.

Ficarei no meu território: o da literatura. O que sobra a tantos estudantes senão se apegar ao texto menos complexo — aquele que gera menos possibilidades de erro de interpretação, mas também pouco espaço de interação — para driblar o receio de chegar à conclusão errada? Um receio que reiteradamente ajudamos a construir. Naturalmente, nem todo leitor apaixonado será um defensor dos direitos humanos, do mesmo modo que a arte não é o único caminho, nem o mais fácil, para a construção da empatia e o reconhecimento afetivo do outro.

A julgar, porém, pelo que essas eleições nos mostraram, talvez estimular o exercício da imaginação empática, a vivência afetiva das narrativas e poemas, seja um bom começo para criar gerações mais sensíveis à beleza do diferente e menos suscetíveis ao poder das emoções deletérias. Provavelmente, isso não será suficiente para mudar o resultado de uma eleição, mas talvez salve uma ou duas vidas.

Ligia Gonçalves Diniz é professora de literatura e autora de Imaginação como presença: o corpo e seus afetos na experiência literária (em preparação). Atualmente, é pesquisadora de pós-doutorado na UFMG.