Crise dos Combustíveis no Brasil

Sete dias de caos na República Federativa das Rodovias

Os caminhoneiros provaram ser a única categoria capaz de converter o Brasil em um refém do tamanho de um continente

NELSON ALMEIDA (AFP)

Isso é o que se passa por uma cena normal no Brasil dos últimos dias. O país inteiro passou ao menos uma semana imerso em uma greve de caminhoneiros que paralisou boa parte de sua vida pública, quando não transformou o dia a dia em seus 26 Estados em um pesadelo logístico. Postos de gasolina, supermercados, hospitais e aeroportos foram ficando desabastecidos com o passar dos dias e suspenderam alguns de seus serviços: os portos ficaram sem nada para exportar e os cidadãos e governos locais ainda buscam desesperadamente fórmulas para resolver a situação. E como trilha sonora de todo este caos, o zunzunzum de soluções temporais que o Governo federal, de Michel Temer, vai anunciando e que, até um final in extremis, pouco fizeram para mudar a situação nas ruas.

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Quando a greve começou, na segunda-feira passada, nada indicava que iria alcançar essa dimensão. Os caminhoneiros protestavam contra o preço do combustível, o que não parecia um despropósito. O valor não parou de subir desde junho de 2017, quando a petroleira estatal, a Petrobras, começou a se basear na oscilação internacional. Mas se a Petrobras mudou de política de preços é porque Temer permitiu em maio de 2016, razão pela qual, nestes primeiros dias, o Executivo pouco pôde – ou quis – fazer. Só que essa resposta implicava um erro de cálculo: o Brasil é o país que mais depende de rodovias no mundo. No total, 58% de suas mercadorias – e, sobretudo, 90% de seu petróleo –, é distribuído através delas (nos Estados Unidos, um país de menor tamanho, somente 43% do petróleo é transportado assim). Os caminhoneiros são a única categoria capaz de converter o primeiro país latino-americano em um refém do tamanho de um continente.

O alarme soou na quarta-feira, quando várias cidades começaram a viver a mesma cena: carros amontoados em postos de gasolina que estavam entregando suas últimas gotas de combustível. Na quinta-feira já se falava em crise. A central de abastecimento do Rio de Janeiro não recebeu 90% dos caminhões que esperava e todas as grandes cidades reduziram o transporte público à metade. No Paraná, no Sul, duas universidades fecharam as portas. Na sexta-feira a crise se transformara em caos nacional. Os aeroportos já cancelaram voos às dezenas, incluindo alguns internacionais. São Paulo, a maior megalópole e a mais rica do país, lar de 12 milhões de pessoas, se declarou em estado de emergência: horas depois, 99% de seus postos de gasolina ficaram vazios. Em algumas de suas ruas começaram a aparecer entregadores de comida em domicílio a cavalos. Os Estados de Pernambuco e Sergipe também se declararam em emergência logo depois. O aeroporto de Brasília cancelou 40 voos. Uma associação de exportadores de carne anunciou que, com a falta de alimentos, morreriam 1 bilhão de aves e 20 milhões de suínos.

Enquanto isso, em estradas de todo o país ocorriam piquetes de caminhões com os motoristas dentro. Na sexta-feira havia 534 e em um deles, na periferia de São Paulo, estava Ademir Wagenknecht, de 43 anos, 25 deles ao volante de um caminhão. “Às vezes trabalho dez horas e às vezes, 20, e vejo meus filhos três ou quatro dias por mês”, explica. “Um só pneu já é um absurdo de caro, custa 1.800 reais, que é o que recebo para levar cebolas a Santa Catarina. O que me resta se gasto tanto com diesel? Tenho que tirar do meu bolso. Eu segui a profissão do meu pai, que me ensinou o trabalho, mas na época havia muito menos dificuldades.”

Não foram poucos os momentos da crise em que o Governo projetou a imagem de que simplesmente não sabia o que fazer. Não há precedente na história do Brasil para este tipo de problema. A frota de caminhoneiros nunca havia sido tão grande, o Executivo nunca tão impopular (somente 5% da população vê Temer com bons olhos) e, sobretudo, o país não tem prática de taxar o petróleo de modo livre. A norma era que a Petrobras modificasse artificialmente seu valor seguindo indicações políticas, mas quanto Temer chegou ao poder, em maio de 2016, renovou a cúpula dirigente da petroleira e lhe deu liberdade para mudar o sistema de preços. Eles decidiram se basear na oscilação internacional, que não está exatamente baixa ultimamente. Há duas semanas o barril do Brent alcançou 80 dólares (quase 300 reais) pela primeira vez desde 2014. No resto do mundo, as economias emergentes como a brasileira sofrem os vaivéns do dólar, e o real está cada vez mais distante da moeda norte-americana. Ou seja, o preço subiu 50% em um ano e a moeda perdeu 4,3% no último mês. O fósforo e o pavio da bomba.

A princípio Temer tentou ser conciliador. Na quarta-feira se vangloriou de ter convencido a Petrobras a baixar o preço do diesel em 10% em relação ao valor internacional, e o deixar assim durante 15 dias como gesto de boa vontade para negociar. Com isso, fez disparar o medo de que a política voltasse a controlar a Petrobras e as ações da petroleira desabaram pelo menos 14%. Esse único gesto já havia baixado o valor da maior empresa brasileira em 47 bilhões de reais. Na quinta-feira Temer voltou à carga. Comprometeu-se a pagar à Petrobras a diferença entre o valor internacional do diesel e o preço para o consumidor brasileiro. Assim o preço não se alteraria até dezembro. Não bastou. Na sexta-feira Temer voltou a aparecer e, desta vez, quando surgiu na televisão, nas ruas de Brasília se escutou um buzinaço coletivo. Sua solução desta vez foi mais drástica: ameaçou chamar o Exército para desobstruir as estradas.

Alguns piquetes foram se dissolvendo ao longo do fim de semana e Governo prosseguiu com a fórmula de se antagonizar com os caminhoneiros. Entre as acusações: estavam fazendo locaute, ou seja, a paralisação patronal (no Brasil se adapta o termo inglês, lockout), que é ilegal; e também que estavam associados a máfias e criminosos para pressionar a classe política. Ao final, cedeu aos pontos principais pedidos pelos grevistas. Não parecia ter muita mais opção. Se a ideia era lançar a categoria à ira da população, não se saiu de todo bem, pelo menos no momento. O atendente Claudenislon os incentiva, no restaurante vazio do Recife, onde trabalha: “Quando fazem manifestação contra a tarifa de ônibus, não vão até o fim? Até abaixar? Então por mim, eles [os caminhoneiros] deveriam ir até o fim”, diz. “Até o preço do combustível abaixar.”