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Greve dos caminhoneiros no Recife: “Levamos uma hora em um percurso de quatro minutos”

Sem combustível, diversos postos fecharam mais cedo, enquanto a gasolina chegou a custar nove reais o litro. Frota de ônibus será reduzida novamente nesta quinta

Greve dos caminhoneiros
Carros fazem fila de mais de uma hora em posto em Recife.

Do celular, o empresário Marcus Bispo, 29, tentava contornar uma situação que pode lhe trazer muito prejuízo. "Diga aos motoqueiros que pagaremos adiantado a eles para que coloquem combustível", dizia. Bispo é dono de dois restaurantes cujo serviço é feito exclusivamente por delivery na região central e zona sul do Recife. Enquanto monitorava a fila de carros para que ninguém passasse na frente da mãe dele, que aguardava para abastecer em um dos poucos postos abertos na zona oeste da cidade, tentava minimizar as perdas. "O abastecimento de alguns alimentos, como molho de tomate e queijo que vêm de Caruaru, já está comprometido por causa da greve dos caminhoneiros. Agora preciso garantir que tenhamos entrega amanhã", dizia.

Àquela altura, por volta das quatro e meia da tarde desta quarta-feira, terceiro dia da greve nacional dos caminhoneiros, alguns dos 11 motoboys do empresário já haviam comunicado que não teriam dinheiro para pagar pelo alto preço do combustível na cidade. Em um posto na zona sul, o litro da gasolina chegava a nove reais, e foi interditado pelo Procon horas depois por práticas abusivas. Sem ter o que vender, muitos postos foram fechando ao longo do dia. "Temos seis ciclistas que entregam na região central", dizia Bispo. "Vou acionar mais. Nunca passei por algo assim".

A greve dos caminhoneiros, iniciada nesta segunda-feira em todo o país contra o aumento do diesel, levou à escassez de combustível e fez com que os preços subissem. Em Pernambuco, os motoristas estão parados há três dias impedindo a saída do porto de Suape, de onde vem a maior parte do combustível para a distribuição. Com a escassez nos postos, a corrida para abastecer o carro levou o caos a diversas vias da capital. Somente pela zona oeste, a reportagem contabilizou sete postos fechados por volta das quatro da tarde.

Em um dos poucos abertos, o valor da gasolina havia subido 40 centavos em menos de 24 horas. "Ontem estava 4,80 reias. Agora, está 5,20", informou o frentista, que preferiu não se identificar. Ele explica que esgotado o combustível das bombas na terça-feira, hoje o reabastecimento já custava mais caro. E o valor acabou sendo repassado ao consumidor. Ainda assim, os carros parados na rua formavam uma fila que dobrava a esquina e engarrafava o trânsito.

O economista Clóvis Procópio, 70, dizia estar há uma hora e 20 minutos na fila para abastecer. Questionado, ele não soube dizer o valor do litro do combustível. "Quando chegar a minha vez, estará ainda mais caro", disse, ao ser informado dos 5,20 reais. "Mas o carro está na reserva. Desmarcamos todos os compromissos para rodar atrás de um posto", disse. "A cidade está um caos. Levamos uma hora em um percurso que normalmente fazemos em quatro minutos", emendou o filho dele, o empresário Thiago Procópio, 34.

A vida de quem não tem carro também está sendo comprometida na cidade. Segundo informou o Consórcio Grande Recife, responsável pelas linhas de ônibus das 15 cidades da Grande Recife, os ônibus circularam nesta quarta-feira com a mesma frota do período das férias de janeiro. Ou seja, foram realizadas 8% a menos de viagens ao longo do dia - cerca de 2.000 viagens - para economizar combustível. Para esta quinta-feira, o consórcio informou que "haverá inevitável diminuição do número de viagens, no horário de pico", "podendo haver ao longo do dia paralisação de algumas empresas operadoras", mas não informou, em números, o tamanho da redução da frota.

Por meio de nota, o Governo do Estado afirmou estar "adotando todas as medias que estão ao seu alcance para minimizar os efeitos danosos da paralisação nacional dos caminhoneiros", mas não afirmou quais medidas seriam. Disse, porém, que "a solução para esse impasse, que está levando todo o Brasil ao colapso, está nas mãos do Governo Federal".

Aeroporto

Com a escassez de combustível, os aeroportos de diversas cidades do país estão em alerta. Nesta quarta, a Advocacia-Geral da União (AGU) obteve uma liminar na Justiça Federal para garantir o fornecimento de combustível no aeroporto Internacional dos Guararapes, o principal de Pernambuco e o mais movimentado das regiões Norte e Nordeste, com um movimento diário de 25.000 pessoas. A medida judicial determina que o Sindicato dos Transportadores de Cargas Autônomos de Pernambuco (Sintracape), responsável pelo bloqueio da rodovia que liga Suape às demais rodovias, permita a passagem das carretas que transportam combustível para o aeroporto.

Na decisão, a juíza destacou a urgência da medida ao lembrar que o abastecimento de combustível estava garantido somente até esta quarta-feira, o que poderia prejudicar a regularidade dos cerca de 70 voos programados. A multa determinada em caso de descumprimento é de 10.000 reais. Com isso, os caminhões que levavam combustível ao aeroporto foram liberados para passar pelo bloqueio dos manifestantes.

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