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Temer joga a toalha e cede a Mereilles a defesa do Governo nas eleições

Presidente desiste de candidatura diante de alta impopularidade e só estará nos eventos “que achar adequado” de campanha do novo aspirante emedebista

Eleições 2018
Temer e Meirelles no evento do MDB, em Brasília. REUTERS

Enquanto alguns figurões do MDB discursam em um púlpito na sede do partido em Brasília, o pretenso candidato da legenda à presidência da República, Henrique Meirelles, mostra-se impaciente mexendo várias vezes no telefone celular. Vez ou outra olha para o orador e esboça um sorriso tímido, quando é elogiado. De repente, em um gesto que parecia coordenado, uma assessora se aproxima e lhe dá uns óculos de grau, que ele rapidamente troca com o que já estava usando para poder ler as folhas e mais folhas de papel que estão em suas mãos. É a sua vez de discursar. Sua fala precede a do presidente Michel Temer, que anunciou que não concorrerá a sua própria sucessão e deixou o caminho livre para Meirelles tentar realizar o seu sonho: presidir o país. Para isso, tentará agregar as legendas de centro e combater, os discursos extremistas e a “política populista”.

O ex-ministro da Fazenda inicia sua fala com os olhos afundados na papelada. Gesticula de maneira artificial e enfatiza palavras que parecem ter sido grifadas por seus assessores. A oratória ainda está sendo moldada para falar com a maior parte dos eleitores que pouco ou nada entendem de economia. Em seus 18 minutos ao microfone, Meirelles passeia quando fala de finanças. É espontâneo, afinal presidiu o Banco Central nos anos Lula e foi presidente mundial do BankBoston. Mas escorrega quando trata de outros assuntos. Lê longos trechos do discurso e a língua tropeça, quando não está debruçado sobre a “numeralha” que tanto domina. Exemplos: quando quis discorrer sobre segurança pública chamou facções criminosas de facções criminadas; e, quando defendia a implantação de educação digital para os estudantes brasileiros trocou o “r” pelo “l” na palavra “merecem”.

Falando para um público de cerca de 150 pessoas, a maioria filiada ao MDB, o discurso de Meirelles pouco empolga os ouvintes. Os aplausos foram tímidos. Assim como o foram para os demais oradores – o senador e presidente do partido Romero Jucá, o presidente Temer e o ministro Moreira Franco – nesta terça-feira. Aliás, o único momento de êxtase entre os espectadores foi quando Temer sentenciou que os filiados que não apoiarem as candidaturas do MDB deverão deixar a legenda. “Vamos parar com essa história de, ‘ah, eu não, eu vou para tal lugar’. Ou ‘eu não apoio o Meirelles. Eu não apoio fulano’. Então saia do partido, não é possível isso aí. Temos de ter unidade do partido”.

A preocupação de Temer é que a rebelião promovida por caciques emedebistas como os senadores Renan Calheiros (AL) ou Roberto Requião (PR), além de acordos regionais como o costurado pelo também senador Eunício Oliveira (CE), possam comprometer os palanques do partido e contaminar parte da militância. Aliado a essas costuras locais, a cúpula do MDB está preocupada que a impopularidade de Temer – 86% dizem que não votariam em seu candidato, segundo o Datafolha – ou as investigações policiais que pesam contra ele possam interferir na candidatura presidencial.

Quando indagado se o presidente estará em seus palanques pelos Estados, Meirelles disse que a preocupação dele deverá ser a de governar o país pelos próximos sete meses. E estará nos eventos de campanha “que achar adequado”. E se o questionamento é sobre os inquéritos contra o mandatário, o pré-candidato diz estar despreocupado e prefere falar de si mesmo. “O presidente Temer será um cabo eleitoral positivo pelo que ele está realizando [como governante]. Mas é importante dizer também que meu histórico é o de uma reputação inquestionável. Não tenho dúvida que isso vai prevalecer”.

"A premissa não é de desistência, mas de escolha", diz Jucá sobre a saída de Temer da disputa

Oficialmente, segundo Jucá, Temer não desistiu de concorrer à sucessão. O senador afirma que o partido escolheu Meirelles por entender que, no momento, ele teria mais chances eleitorais do que o presidente. “A premissa não é de desistência, mas de escolha”.

Outro fator que pesou na escolha por Meirelles é o financiamento da campanha. Com a proibição de doações eleitorais por empresas, a expectativa é que ele financie boa parte dos custos para sua candidatura, assim como o fez em 2002, quando foi eleito o deputado federal mais bem votado de Goiás. Na ocasião, quando declarou uma fortuna de 45 milhões de reais, gastou quase 900.000 reais do próprio bolso. Agora, em que possui pelo menos 217 milhões de reais – de acordo com reportagem do BuzzFeed – a expectativa dos medebistas é que invista em si próprio e possa liberar os recursos para serem divididos entre os candidatos ao Congresso Nacional e aos governos estaduais.

Sondado para ser candidato a vice-presidente, Meirelles já refutou essa possibilidade. Diz que tentará agregar os partidos de centro que já lançaram pré-candidatos, como o PSDB, PRB, PR, SD e o DEM. “Se não no primeiro turno, estaremos juntos no segundo”. E afirma que, apesar de aparecer com apenas 1% nas pesquisas de intenções de voto, tem chances de crescer porque baseará seu discurso nos avanços da economia da gestão Temer e em um discurso que pretende combater os extremismos. “O Brasil já cansou de aventuras e de política populista porque tudo isso gera crise, gera recessão, gera desemprego”.

Seu sucesso depende de ele se tornar conhecido aproveitando sua baixa rejeição, 17% dos eleitores não votariam nele no primeiro turno, conforme o Datafolha. Além disso, também precisará contar com o apoio do heterogêneo MDB, uma legenda onde os interesses regionais costumam prevalecer sobre os nacionais.

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