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No Brasil, procuradora rebelde da Venezuela denuncia esquema milionário de propina a Maduro

Luisa Ortega falou com a imprensa em Brasília ao lado do procurador-geral Rodrigo Janot

A procuradora Luisa Ortega
Luisa Ortega e o procurador-geral, Rodrigo Janot, concedem entrevista coletiva em Brasília AFP

A ex-procuradora-geral da Venezuela Luisa Ortega, que rompeu com o Governo de Nicolás Maduro e foi destituída de seu cargo, está no Brasil para uma reunião de procuradores do Mercosul. Em entrevista coletiva ao lado do procurador-geral Rodrigo Janot, Ortega afirmou nesta quarta-feira que tem documentos que comprovam o pagamento de propinas por parte de multinacionais a Maduro e aliados. Segundo ela, o braço direito do presidente, Diosdado Cabello,recebeu cerca de 100 milhões de dólares da Odebrecht por meio de uma empresa sediada na Espanha, cujos donos seriam dois laranjas, primos de Cabello. Os documentos serão entregues aos governos brasileiro, colombiano, norte-americano e espanhol para que o esquema seja investigado.

Ortega e seu marido, o deputado chavista Germán Ferrer, chegaram a Brasília nesta terça-feira a convite da PGR. Ela viajou à Colômbia na última sexta-feira após fugir de seu país, onde alega estar sofrendo perseguição política. O asilo a Ortega foi oferecido publicamente por Juan Manuel Santos horas antes da chegada dela à Colômbia, por meio de um tuíte: “A procuradora Luisa Ortega se encontra sob a proteção do Governo colombiano. Se ela pedir asilo, lhe daremos”. Na coletiva desta quarta-feira, Ortega disse ainda não saber se aceitará o asilo proposto por Santos e vai estudar propostas de outros Governos. O ministro das relações exteriores, Aloysio Nunes, também informou à ex-procuradora venezuelana que, caso ela queira permanecer no Brasil, seu pedido de asilo político seria autorizado.

Segundo a ex-procuradora, o que motivou sua destituição do cargo foi justamente a investigação que conduzia sobre esse esquema de corrupção: "O que está acontecendo na Venezuela é a morte do Direito (...) O perigo é que isso possa se espalhar a toda região”, afirmou. Na mesma linha, Janot fez críticas ao regime de Maduro, disse que o que a Venezuela vive hoje é um “poder político ditatorial” e que Luisa Ortega sofreu um “estupro institucional”

Maduro

Ontem, Maduro fez um apelo para que a Interpol capture no Brasil a ex-procuradora-geral. “Espero que esses delinquentes sejam entregues à justiça venezuelana”, disse o mandatário durante longa conversa com a imprensa, que teve links com as principais embaixadas venezuelanas no mundo. Foi um evento curioso, porque também fizeram perguntas os embaixadores da Venezuela, líderes sindicais e advogados defensores da causa das esquerdas nos Estados Unidos. Cada um em seu momento deu oportunidade para Maduro atacar o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos – a quem acusou de liderar agressões contra seu Governo -, o da Argentina, Mauricio Macri – a quem chamou de “covarde” -, o secretário-geral da OEA, Luis Almagro – a quem se referiu como “lixo”-, e “os governos golpistas do Paraguai e do Brasil”, que nos últimos dias concordaram com a expulsão da Venezuela do Mercosul.

Na entrevista, Maduro também se referiu às relações com os Estados Unidos e reconheceu que se encontram “em seu pior momento”. Acusou Washington de ordenar “uma perseguição financeira” contra seu país e previu que o Governo de Donald Trump vai tomar medidas econômicas contra a Venezuela “que vão piorar a situação”. Mas disse que está preparando “uma série de decisões para proteger os venezuelanos do bloqueio comercial, petroleiro e financeiro”. Pediu o apoio dos venezuelanos: “Se esta revolução está sendo perseguida a partir de dentro e a partir de fora [do país], tem o direito de se defender. Vamos fazê-lo”.

Nos últimos meses, Washington criticou altos funcionários do Governo venezuelano, incluindo o próprio presidente, a quem qualificou como um ditador. Apesar de tudo, Maduro se mostrou disposto a conversar com seu homólogo norte-americano. Prometeu escrever-lhe uma carta: “Se ele ler com boa vontade, tenho certeza de que as relações entre os dois países vão melhorar”.

Maduro afirmou que o diálogo com a oposição continua ocorrendo privadamente todos os dias, mas disse que deseja iniciar um ciclo de conversas públicas, em qualquer país do mundo, com o acompanhamento da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC). “O ex-primeiro-ministro da Espanha José Luis Rodríguez Zapatero é testemunha. Estamos fazendo esforços com os Ministérios do Exterior do Equador, República Dominicana, El Salvador e Granada para concretizar uma conferência pelo diálogo, e fiz a proposta para que convidemos Governos de fora de nossa região para restabelecer o diálogo pela soberania e pela paz da Venezuela”.

O presidente revelou que estava disposto a adiar a eleição da Constituinte em troca da participação da oposição. “Tudo estava pronto, mas um dia receberam um telefonema. Alguém falou em inglês. Ao fim da chamada decidiram não assinar esse acordo”. Com essa infidelidade Maduro tentou desqualificar seus adversários. “A oposição não tem capacidade para decidir. Para chegar a um acordo conosco, precisam antes receber uma ordem do Norte (Estados Unidos). É lamentável. Ninguém tem capacidade de decisão”.

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