Seleccione Edição
Login

Tucano Aloysio Nunes Ferreira assumirá o Itamaraty

Citado na Lava Jato, parlamentar preside Comissão de Relações Exteriores do Senado

Aloysio Nunes Itamaraty
O senador Aloysio Nunes. Ag. Brasil

O presidente Michel Temer indicou, na tarde desta quinta-feira, o senador tucano Aloysio Nunes Ferreira, de São Paulo, para assumir o Ministério das Relações Exteriores. Nunes Ferreira, líder do Governo Temer no Senado e investigado no Supremo em processo derivado da Operação Lava Jato, substituirá o também tucano José Serra, que pediu demissão na semana passada mencionando problemas de saúde.

Aloysio Nunes, de 71 anos, foi anunciado pelo porta-voz do Governo, Alexandre Parola. O senador, um dos promotores do impeachment de Dilma Rousseff no Parlamento, aceitou o convite com um vídeo em sua página no Facebook, na qual promete defender as "diretrizes permanentes" da política externa brasileira. O tucano, que foi candidato a vice-presidente na chapa de Aécio Neves (PSDB) em 2014, tem longa experiência na área como presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado Federal. Antes mesmo do impeachment ser finalizado, já atuava como ponte da possível nova administração Temer com Governos estrangeiros. Foi como uma espécie de porta-voz do movimento que ele viajou aos EUA em abril passado e defendeu as prerrogativas legais da deposição da petista. Na época, aproveitou uma viagem para participar da assinatura do Acordo de Paris sobre Mudança Climática, em Nova York, para passar antes por Washington e se reunir com congressistas norte-americanos, empresários, representantes de instituições financeiras, além de manter encontro com então influente subsecretário do Departamento de Estado de Obama Thomas Shannon, ex-embaixador em Brasília.

Com a indicação de Aloysio Nunes, Temer trabalha para preservar o espaço do PSDB, o principal partido aliado do Planalto, no Governo. O nome do tucano, porém, não é livre de controvérsias. Assim como Serra, citado em uma delação da Operação Lava Jato ligada à empreiteira Odebrecht vazada à imprensa, Aloysio Nunes também teve o nome mencionado no escândalo. O senador tucano está sendo investigado em inquérito no Supremo Tribunal Federal, que corre em sigilo, pela acusação de ter recebido contribuições ilegais para sua campanha, o que ele nega. O nome de Aloysio Nunes aparece na delação do dono de outra empreiteira, a UTC, Ricardo Pessoa, também obtida no âmbito da Lava Jato. "O pagamento de vantagens pecuniárias indevidas a Aloysio Nunes Ferreira e Aloizio Mercadante (ex-ministro de Dilma, do PT) pelo grupo empresarial UTC, em valores em espécie e inclusive sob o disfarce de doação eleitoral 'oficial' pode configurar os crimes de corrupção passiva ou de falsidade ideológica eleitoral e de lavagem de dinheiro", escreveu a vice-procuradora-geral da República, Ela Wiecko, ao STF em novembro de 2015, segundo citação do jornal O Estado de S. Paulo. O senador, porém, nega as acusações e diz que todas as doações recebidas em campanha foram declaradas à Justiça eleitoral na ocasião.

Com a indicação de Aloysio Nunes, Temer trabalha para preservar o espaço do PSDB, o principal partido aliado do Planalto, no Governo

Um braço-direito do guerrilheiro Marighella

Como José Serra, o novo chanceler se notabilizou por fazer ferrenha oposição à política externa dos Governos Lula-Dilma, especialmente a proximidade de Brasília com os países do eixo bolivariano liderado pela Venezuela. Portanto, a chegada Aloysio Nunes não deve alterar substancialmente os rumos do Itamaraty, uma pasta rodeada de desafios, afetada pelo momento de baixa do Brasil no panorama internacional. Além da arrastada crise econômica, a política externa brasileira aposta em uma maior abertura comercial num momento agitado pelo neoprotecionismo de Donald Trump. De positivo, conta com a aliança estratégica com o Governo aliado de Maurício Macri, da Argentina, mas ambos tem de lidar com o drama político-humanitário da Venezuela de Nicolás Maduro, suspensa do Mercosul. Em seu pronunciamento, Aloysio Nunes prometeu fortalecer o bloco, aproximá-lo do mais liberal Aliança do Pacífico (México, Peru, Colômbia e Chile) e impulsionar as lentas negociações para um acordo comercial Mercosul-União Europeia. 

Citado em delação da Lava Jato, é investigado por supostamente ter recebido contribuições ilegais para sua campanha, o que ele nega 

Senador em seu primeiro mandato, o tucano tem longa lista de posições públicas pelo PSDB. Foi ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso (2001-2002), vice-governador do Estado de São Paulo e deputado em dois mandatos. Seu primeiro posto diplomático, porém, ocupou em 1968 em Paris, como representante do grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional (ALN), de resistência à ditadura militar brasileira (1964-1985). Assim como sua atual opositora política, Dilma Rousseff, também participou de de célebres ações da luta armada. Ele foi motorista do principal líder da ALN, Carlos Marighella e, pouco antes de partir para a França, participou, dirigindo um fusca roubado, do assalto a um trem pagador Santos-Jundiaí. Só voltaria ao Brasil em 1979, com a anistia aos perseguidos políticos que marcaria o começo do fim do regime militar.

Apesar de se fazer parte da linha social-democrata de fundadores do PSDB, o tucano flertou nos últimos anos com o eleitorado mais à direita do partido. Propôs, no Senado, a redução da maioridade penal de 18 anos para 16 anos em caso de crimes hediondos —um projeto criticado por defensores de direitos humanos.

MAIS INFORMAÇÕES