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Prêmios Gabriel García Márquez premiam o jornalismo independente

Martin Baron, diretor do 'The Washington Post', inaugura a cerimônia com uma aposta na investigação sem deixar de lado a inovação tecnológica

Membros da equipe de 'El Faro' de El Salvador, após receber o reconhecimento pela Excelência no prêmio Gabo 2016.
Membros da equipe de 'El Faro' de El Salvador, após receber o reconhecimento pela Excelência no prêmio Gabo 2016. EFE

Os ganhadores da quarta edição do Prêmio Gabriel Garcia Márquez de Jornalismo, entregues pela Fundação Novo Jornalismo Ibero-americano (FNPI) na noite de quinta-feira, representam um dos lemas que Martin Baron, diretor do The Washington Post, levantou minutos antes da entrega das premiações: “Não existe outra alternativa à esperança nesse ofício”. Nenhum dos premiados pertence a um grande veículo de mídia. Trabalham em equipes pequenas. Buscam a colaboração de seus colegas. E têm em seu poder a ferramenta do tempo, que permitiu a um grupo de jornalistas brasileiros da ONG Repórter Brasil seguir durante quatro anos trabalhadores na floresta amazônica para levar o troféu na categoria Imagem. Jaci: Sete Pecados de uma Obra Amazônica, de Caio Cavechini, Carlos Juliano Barros, Ana Aranha, Cauê Angeli, Marcelo Min e Leonardo Sakamoto, é também o exemplo de que além da tecnologia “é preciso se ter alguém dizendo as coisas como elas são”, nas palavras do editor norte-americano.

Primeiramente, a FNPI decidiu inaugurar sua premiação anual com uma conversa magistral. Baron, ex-diretor do The Boston Globe, jornal que realizou a investigação sobre abusos sexuais de menores por padres da Igreja Católica que inspirou o filme Spotlight: Segredos Revelados, Oscar de melhor filme de 2016, esquentou a plateia com um longo discurso sobre a situação do jornalismo na última década. “Em 2001 quando começamos com esse trabalho a banda larga ainda estava na infância, não existiam as redes sociais e o Google não vendia ações”, começou dizendo. Mais de uma década depois, o veículo de comunicação que dirige foi adquirido por Jeff Bezos, dono da Amazon, e deixou de se concentrar no que acontece em Washington para se abrir ao mundo, essencialmente, através dos celulares. “Eu também sofri um processo de luto, estava apegado às coisas como eram antes, era difícil não sentir saudades, mas é preciso seguir em frente, é inútil resistir às mudanças”.

A jornalista brasileira Natália Viana, fundadora do veículo independente Agência Pública, viajou três dias de barco até uma aldeia indígena próxima a Manaus para descobrir por que seus habitantes se suicidavam. Quando chegou lá decidiu gravar cada um de seus entrevistados olhando para a câmera, além de escrever uma longa crônica. Na noite de quinta-feira seu trabalho levou o prêmio na categoria de Texto, além de materializar outro fragmento do discurso de Baron. “As histórias cada vez mais precisam ser conversacionais, acessíveis e ser construídas com diferentes ferramentas”, disse o diretor do Washington Post. “Dessa forma a voz e a personalidade de quem escreve é mais evidente e fica mais autêntica”.

O prêmio de melhor Cobertura foi para a jornalista colombiana Juanita León por seu trabalho no veículo digital La Silla Vacía sobre o processo de paz em seu país. Durante o último ano, elaborou uma série de reportagens sobre a questão relativa à Justiça Transicional a qual todos os participantes do conflito se submeteram. A repórter, como a equipe do El Faro, jornal também digital de El Salvador, reconhecido na categoria de Excelência, mostraram seu apoio à paz da Colômbia após 50 anos de guerra. Com um aplauso ao público, Carlos Dada, um dos fundadores do jornal, fez um discurso que destacou seu legado de rigor jornalístico em um dos países mais violentos do mundo. “Jornalismo contra o império da mentira”, disse minutos ante Jaime Abello, diretor da FNPI. “Contra a mentira, os delinquentes e o poder”, finalizou o diretor, orgulhando-se da qualificação de “incômodos”.

A Fundação Civio liderada pela jornalista espanhola Eva Belmonte recebeu o prêmio na categoria Inovação com Medicamentalia, uma investigação baseada no jornalismo de dados, que durante quatro meses investigou a dificuldade global no acesso a 14 medicamentos essenciais em 61 países, a maioria em vias de desenvolvimento. “Temos muita vontade de ganhar tráfego, a fidelidade do leitor e dessa forma conseguir assinaturas”, disse Baron, “mas espero que graças a Spotlight, os veículos de comunicação se dediquem ao jornalismo de investigação”. O trabalho de Belmonte e sua equipe não é o único a manter a essência das palavras do diretor. Jorge Cardona, editor do El Espectador e professor de jornalismo, premiado com o Clemente Manuel Zabala por sua trajetória, agradeceu o prêmio defendendo que na Colômbia as novas gerações “não tenham que contar aos seus filhos histórias de horror”. Pouco antes de esquecer o prêmio no palco pela pressa de sua timidez.

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