Eleições EUA 2020

Joe Biden, seu filho Hunter e um e-mail da Ucrânia. A arma de Trump para tentar virar a eleição nos EUA

O presidente e seu entorno buscam uma reviravolta na campanha com acusações de corrupção contra o candidato democrata durante seus anos como vice-presidente, com uma história cheia de controvérsia

Um seguidor de Trump mostra uma foto de Hunter Biden na fila de um comício do presidente em Erie (Ohio).
Um seguidor de Trump mostra uma foto de Hunter Biden na fila de um comício do presidente em Erie (Ohio).BRENDAN MCDERMID / Reuters

“Os e-mails secretos de Joe Biden.” “Um executivo ucraniano agradeceu a Hunter Biden pela oportunidade de se reunir com seu papai vice-presidente.” A surpresa de outubro —como são chamadas as notícias-bombas destinadas a mudar a reta final das campanhas presidenciais nos EUA— foi disparada pela campanha de Donald Trump no dia 14, uma quarta-feira. Estampou a primeira página do New York Post, tabloide pertencente ao australiano Rupert Murdoch, um dos jornais de maior circulação dos Estados Unidos. Tratava-se de uma guinada na direção de uma linha de ataque já bem conhecida: a relação do candidato democrata com a Ucrânia e os possíveis conflitos de interesses decorrentes da presença de seu filho Hunter no conselho da Burisma, empresa de gás dessa ex-república soviética, durante os anos em que o pai ocupou a vice-presidência dos Estados Unidos (2009-2017).

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O Twitter bloqueou a difusão desse conteúdo em sua plataforma, alegando que suas regras proíbem o compartilhamento de material hackeado, mas depois recuou. Nesta quarta-feira, em uma audiência no Senado, o executivo-chefe dessa rede social admitiu que a decisão inicial foi “incorreta”. O presidente Trump utilizou a história, sem muito sucesso, para atacar o rival no último debate presidencial. E se queixa reiteradamente de que os meios de comunicação silenciam sobre o que, num tuíte nesta quarta, definiu como “a maior e mais confiável história de qualquer lugar do mundo”.

Mas o que é exatamente a acusação que o presidente e sua equipe querem usar para reverter uma campanha que, a cinco dias da eleição, quase todas as pesquisas dão como perdida?

O e-mail

A reportagem do New York Post se baseia numa breve correspondência eletrônica, especificamente um e-mail de abril de 2015, supostamente enviado a Hunter Biden por Vadym Pozharskyi, assessor da Burisma. O e-mail diz o seguinte: “Caro Hunter, obrigado por me convidar a [Washington] DC e me dar uma oportunidade de conhecer seu pai e passarmos um momento juntos. É realmente uma honra e um prazer”. Dessa mensagem não se deduz se o suposto convite se concretizou e a reunião aconteceu. A campanha de Biden disse em nota que revisou a agenda do ex-vice-presidente naqueles meses e não consta nenhuma reunião como a descrita no tabloide.

A mão de Rudy Giuliani

A origem da história, e aí está parte do seu problema, está em Rudy Giuliani, ex-prefeito de Nova York e advogado pessoal de Trump, que há anos vem difundindo acusações infundadas de corrupção contra os Biden. Em meio à trama russa que consumou boa parte do mandato de Trump, seu fiel escudeiro Giuliani, cujos turvos contatos no país ex-soviético são alvo de investigação pela Justiça norte-americana, defendeu uma desacreditada teoria de que foi a Ucrânia, e não a Rússia, que cometeu ingerências nas eleições de 2016, e que sua ação foi para ajudar Hillary Clinton. Também acusou reiteradamente Joe Biden de permitir que seu filho enriquecesse traficando a influência de seu pai. Segundo o Post, os e-mails foram obtidos no disco rígido de um computador que Hunter Biden teria deixado para consertar em uma loja de Wilmington (Delaware) em abril de 2019, e que nunca teria ido recolher. O dono do estabelecimento, que não pode assegurar que seu cliente fosse mesmo Hunter Biden, teria feito uma cópia do HD e o cedido a um advogado de Giuliani e ao ex-assessor de Trump Steve Bannon. Afirma também que contatou o FBI através de um intermediário para entregar uma cópia.

O problema com o Giuliani

Os serviços de inteligência norte-americanos advertiram à Casa Branca no ano passado que o advogado foi alvo de uma “operação de influência” por parte da inteligência russa, conforme publicou o The Washington Post. A advertência partia de interações de Giuliani com a inteligência russa durante uma viagem à Ucrânia em dezembro de 2019, onde o advogado tratava de obter roupa suja dos Biden. A inteligência norte-americana transmitiu sua preocupação de que Giuliani estaria sendo usado pelos russos para fornecer informação falsa ao presidente. Robert O’Brien, assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, advertiu a Trump de que qualquer informação trazida por Giuliani da Ucrânia poderia estar contaminada pela Rússia. “Faça o que achar melhor”, disse-lhe, “mas seu amigo Giuliani foi trabalhado por agentes russos na Ucrânia”. Aquelas advertências ganham peso agora, já que a informação que Giuliani procurava na Ucrânia é semelhante à contida na correspondência que o próprio advogado proporcionou ao tabloide. O FBI está agora investigando se os correios eletrônicos são parte de uma operação de inteligência estrangeira. O diretor da inteligência nacional, John Ratcliffe, afirmou na semana passada na Fox News que não há evidências que confirmem que se trate de uma ingerência estrangeira.

Na redação do New York Post

Steve Bannon, recentemente acusado por promotores federais de um crime de fraude não relacionado com esta trama, informou ao New York Post sobre a existência desse disco rígido no fim de setembro. Em 11 de outubro, um domingo, Giuliani entregou uma cópia de um HD ao tabloide. Afirma ter escolhido o Post “porque ou ninguém mais teria pegado ou, se chegassem a olhá-lo, teriam passado todo o tempo que pudessem tratando de contradizê-lo antes de publicar”. Diversos jornalistas veteranos da redação expressaram suas dúvidas sobre o material e questionaram se havia sido feito o suficiente para verificar sua autenticidade. Bruce Golding, repórter no jornal desde 2007, não permitiu que sua assinatura figurasse na reportagem porque duvidava da credibilidade da história, segundo o The New York Times. Pelo menos outro repórter, segundo o mesmo jornal, negou-se a ter seu crédito incluído. A matéria saiu assinada por Emma-Jo Morris, editora-adjunta de política, contratada em abril oriunda da Fox News, e Gabrielle Fonrouge, repórter do New York Post desde 2014. A primeira nunca havia assinado nada no jornal até aquela quarta-feira. Fonrouge, segundo as fontes do Times, só soube que o artigo levaria sua assinatura depois que já havia sido publicado.

A controvérsia em torno de Hunter Biden

Em 2014, uma mobilização social europeísta e anticorrupção desalojou do poder em Kiev o presidente Viktor Yanukovich, aliado da Rússia, país que acabava de anexar a Crimeia através de um referendo considerado ilegal pela comunidade internacional, dando lugar a um conflito armado no leste da Ucrânia com os rebeldes pró-russos apoiados por Moscou. Joe Biden, então vice-presidente de Barack Obama, viajou a Kiev em várias ocasiões durante esse tempo e trabalhou com outras figuras internacionais para amparar o Governo surgido da chamada Revolução do Maidan.

Coincidindo com a missão de seu pai na Ucrânia, o advogado Hunter Biden aceitou um cargo no conselho da Burisma, uma das maiores companhias de gás natural do país, pertencente a Mikola Zlochevski, oligarca próximo ao ex-presidente Yanukovich. A nomeação de Hunter Biden, que continuou na companhia até abril do ano passado, foi muito polêmica, mas a Casa Branca negou que houvesse um conflito de interesses. O próprio Hunter Biden reconheceu em outubro do ano passado que, apesar de não ter feito nada de incorreto, seu trabalho na Ucrânia foi “um erro de avaliação”. Em um recente relatório, os senadores republicanos consideraram que pode ter havido um conflito, mas não encontraram nenhum sinal de que a relação profissional de Hunter Biden com a empresa tenha influenciado as políticas dos Estados Unidos. O entorno de Trump —que segundo a inteligência norte-americana se beneficiou de uma maciça operação de ingerência do Kremlin na campanha de 2016— vem há tempos promovendo uma desacreditada teoria segundo a qual Joe Biden pressionou pela demissão de um promotor ucraniano que poderia prejudicar a Burisma numa investigação. É verdade que pressionou. Mas o fez em coordenação com Obama e outros mandatários ocidentais, justamente por considerarem que o promotor não agia com contundência contra a corrupção.

O e-mail incrimina Joe Biden?

Se ficasse demonstrado que o hoje candidato democrata se reuniu com um representante da Burisma, como poderia sugerir o e-mail, Joe Biden teria mentido, já que insistiu no passado que nunca discutiu com seu filho sobre seus negócios na Ucrânia. Mas não existe rastro da suposta reunião, e pelo teor da mensagem não se deduz necessariamente que esta tenha mesmo ocorrido. E, ainda caso tenha acontecido, Biden não seria o único político norte-americano a se reunir com Pozharskyi. Este fez parte de uma comitiva da Burisma que fez lobby com funcionários do Congresso para tentar demonstrar que a Burisma não era uma companhia corrupta.

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