Processo de impeachment de Donald Trump

Os detalhes da trama ucraniana que podem culminar no impeachment de Trump nos EUA

Pressões de Trump sobre o presidente da Ucrânia para investigar o filho de Joe Biden visavam a prejudicar a campanha eleitoral do ex-vice-presidente democrata, um dos favoritos para enfrentar o republicano na disputa presidencial de 2020

Primeira página de documento com transcrição de telefonema do presidente dos EUA, Donald Trump, com líder da Ucrânia, Volodymyr Zelenskiy
Primeira página de documento com transcrição de telefonema do presidente dos EUA, Donald Trump, com líder da Ucrânia, Volodymyr ZelenskiyJim Bourg (Reuters)

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mais uma vez enfrenta intenso escrutínio público pelo uso da política externa para benefício próprio. Desta vez, na Ucrânia, cujo presidente, Volodimir Zelenski, ele tentou supostamente pressionar durante uma conversa telefônica para que investigasse o trabalho naquele país do filho de Joe Biden, Hunter, que tem negócios em Kiev, com o objetivo final de prejudicar a campanha do ex-vice-presidente para as eleições de 2020. Trump prometeu nesta terça-feira tornar pública a conversa telefônica, pouco antes de a presidente do Congresso dos EUA, Nancy Pelosi, anunciar a abertura de um processo de impeachment do presidente. A nova trama também ameaça entravar as relações da Ucrânia com os Estados Unidos, um de seus aliados mais valiosos.

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O presidente Zelenski, que atualmente está nos Estados Unidos para participar da Assembleia Geral da ONU, evitou falar sobre a conversa, ocorrida em julho. O caso surgiu por uma denúncia anônima de um membro dos serviços de inteligência dos EUA, que alertou seus superiores de que Trump havia mantido uma conversa por telefone com o presidente ucraniano em meados do ano, durante a qual o pressionou a investigar os negócios de Biden e seu filho Hunter no país europeu. Trump e a equipe ucraniana negaram que houvesse pressões.

No entanto, o republicano, que voltou a falar em "caça às bruxas" contra ele, reconheceu que conversou sobre Biden. Além disso, vários relatórios mostram que a Casa Branca congelou momentaneamente a ajuda econômica à Ucrânia, um dos países mais pobres da Europa e muito dependente de empréstimos de organizações como o Fundo Monetário Internacional (FMI).

A história que agora ameaça chamuscar a corrida eleitoral norte-americana começa em 2014. Uma mobilização social europeísta e anticorrupção depôs o presidente Viktor Yanukovich, aliado do Kremli. A Rússia tinha acabado de anexar a península ucraniana da Crimeia por meio de um referendo considerado ilegal pela comunidade internacional e, nessa época, teve início o conflito armado no leste da Ucrânia com os rebeldes pró-russos apoiados por Moscou. Nesse panorama, o então vice-presidente Joe Biden —uma das principais figuras da diplomacia do governo Barack Obama— viajou para Kiev em várias ocasiões e colaborou com outras figuras internacionais para apoiar o Governo que surgiu após a chamada revolução da Maidan.

Logo depois do início de sua missão na Ucrânia, seu filho, o advogado Hunter Biden, aceitou uma posição no conselho de administração da Burisma Holdings, uma das maiores empresas de gás natural do país, de propriedade de Mikola Zlochevski, um oligarca próximo ao ex-presidente Yanukovich. Zlochevski tinha sido ministro de Recursos Naturais por um tempo e fora investigado —nunca condenado— várias vezes por abuso de poder, lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito. O filho de Biden recebia cerca de 50.000 dólares (cerca de 210 mil reais) por mês por seu trabalho na Burisma.

Zelenski na Assembleia Geral da ONU, nesta terça-feira em Nova York.
Zelenski na Assembleia Geral da ONU, nesta terça-feira em Nova York.Seth Wenig (AP)

A nomeação de Hunter Biden foi muito controversa. Não só pelos vínculos de seu pai com a Ucrânia, também pelas relações de Zlochevsky com o ex-presidente Yanukovich, pró-russo. No entanto, a Casa Branca rejeitou que a nova ocupação do filho de Biden no conselho da Burisma —ao lado do ex-presidente polonês Alexander Kwasniewski, do ex-chefe do centro antiterrorismo da CIA Joseph Cofer Black e do especialista em investimentos Alan Apte, entre outros— representasse um conflito de interesses. Hunter Biden estava no organograma até abril deste ano.

Já há algum, Trump, e sobretudo seu advogado pessoal, o ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani, sugeriram que o ex-vice-presidente Biden pressionou o Governo ucraniano a interromper uma investigação contra seu filho, chegando a manobrar até conseguir que ele destituísse o então procurador-geral Viktor Shokin. Da Ucrânia, no entanto, vários relatórios mostram que nunca houve uma investigação em andamento contra Hunter Biden. A tudo isso se soma outra reviravolta: o então vice-presidente reconheceu que pressionou pela destituição do procurador-geral Shokin e disse que chegou a ameaçar congelar os recursos para a Ucrânia se Shokin não saísse. Mas Joe Biden era apenas mais um dos diplomatas e especialistas internacionais de várias organizações anticorrupção a exigir isso. Shokin, 66 anos, procurador-geral entre fevereiro de 2015 e abril de 2016, não apresentou nenhum caso importante contra a corrupção dilacerante que assolava o país e, por isso, se tornara uma das figuras mais impopulares da Ucrânia.

Demorou um pouco, mas o Governo ucraniano, liderado pelo presidente Petro Poroshenko, substituiu Shokin. Nomeou para seu lugar Yuri Lutsenko, que, segundo os relatórios sobre sua gestão, tampouco fez melhor trabalho: também não promoveu condenações em larga escala por corrupção. Em março deste ano, quando as pesquisas já apontavam como favorito o atual presidente, o ator Volodimir Zelenski, com um discurso focado no combate à corrupção, o procurador Lutsenko disse em entrevista a The Hill que a embaixadora dos EUA na Ucrânia lhe havia pedido que não investigasse várias pessoas. Ele também declarou que as autoridades ucranianas "iniciariam uma investigação criminal" para determinar se funcionários públicos do país tentaram interferir nas eleições presidenciais de 2016 nos EUA.

As declarações de Lutsenko não tiveram grande impacto internacional e o Departamento de Estado dos EUA imediatamente as negou. No entanto, nutriram as especulações de Giuliani sobre a trama ucraniana. O advogado pessoal de Trump começou a preparar pouco depois uma viagem a Kiev logo para pedir ao Governo de Zelenski que investigasse os Biden. E também que fossem analisadas as alegações de interferência eleitoral que supostamente teriam beneficiado Hillary Clinton. Giuliani argumenta que as autoridades ucranianas ajudaram a democrata com recursos desviados do FM e que forneceram à campanha dela informações prejudiciais sobre pessoas próximas a Trump, como seu ex-chefe de campanha Paul Manafort, que foi condenado em março por esconder que recebeu pagamentos de políticos ucranianos pró-russos.

Os preparativos da viagem de Giuliani foram extremamente controversos em Kiev e, por fim, o advogado de Trump decidiu suspender a visita. Mas não deixou de lado sua intenção de forjar um caso contra os Biden, algo que poderia prejudicar muito as chances do democrata diante de uma futura disputa com Trump em 2020. Fontes do Governo ucraniano comentam que Giuliani manteve conversas com autoridades de Kiev sobre o trabalho de Hunter Biden na Burisma. Em meados do ano, o advogado de Trump se reuniu em Madri com um dos principais assessores de Zelenski. Naquela data, Giuliani lhe pediu que investigasse os Biden. O assessor de Zelenski, de acordo com fontes familiarizadas com a conversa, lhe respondeu que enviasse seu pedido pelo canal oficial.

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