Trump confirma que reembolsou advogado por pagamento a atriz pornô

Declaração foi dada pelo Twitter após um de seus advogados contradizê-lo publicamente

Rudy Giuliani com Donald Trump em 2016
Rudy Giuliani com Donald Trump em 2016AFP

Donald Trump sabia do acordo de confidencialidade com a atriz pornô Stormy Daniels e foi ele quem pagou os 130.000 dólares (aproximadamente 450.000 reais) para comprar seu silêncio. A revelação surpreendente foi feita com naturalidade diante de milhões de espectadores por ninguém menos que Rudolph Giuliani, que há apenas duas semanas se juntou à equipe jurídica que assessora o presidente dos Estados Unidos. A versão de Giuliani basicamente expõe como mentirosos o próprio cliente, Donald Trump, e seu advogado pessoal, Michael Cohen.

Trump, que chegou a dizer que não sabia nada sobre o pagamento, saiu nesta manhã em sua defesa. Em três tweets, ele afirmou que deu um adiantamento mensal a Cohen, sem relação com a verba da campanha, com o qual o advogado teria pago um acordo de confidencialidade que tinha como objetivo "acabar com as acusações falsas e extorsivas" da atriz. Segundo o presidente, esses acordos "são muito comuns entre celebridades e pessoas ricas".

O palco das declarações de Rudy Giuliani foi uma entrevista na Fox News, em horário nobre, com o apresentador-estrela da emissora conservadora, Sean Hannity. Giuliani, ex-prefeito de Nova York e ex-candidato à presidência e um dos primeiros partidários de Trump entre os republicanos, compareceu na condição de advogado do presidente, depois de anunciar, em 19 de abril, que passara a integrar a equipe jurídica de Trump para lidar com a investigação do promotor especial sobre a trama russa.

Sem que lhe perguntassem diretamente, Giuliani começou a dizer que o pagamento à atriz pornô Stormy Daniels “não era dinheiro de campanha”. O esclarecimento é pertinente, porque essa pode ser a complicação legal mais clara em que Trump esteve envolvido. Mas, em seguida, ele diz que o valor “foi canalizado através de um escritório de advocacia e o presidente o reembolsou”.

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Hannity parece surpreso com a resposta e Giuliani a repete. Quando o apresentador lembra a ele que o presidente alegou não saber nada disso, Giuliani responde: “Ah, ele não sabia os detalhes, até onde sei. Mas ele sabia do acordo em geral, que Michael (Cohen) iria cuidar de coisas como essa.” Mais tarde, Hannity insiste novamente e Giuliani repete: “O presidente reembolsou ao longo de vários meses.” Quando o apresentador lembra a ele que Michael Cohen disse ter feito isso por conta própria, Giuliani parece surpreso: “Ah é? Eu não sei, não investiguei isso. Não tenho motivos para discutir isso.”

Donald Trump e Stormy Daniels (cujo nome verdadeiro é Stephanie Clifford) teriam tido um encontro sexual em 2006. Trump nega. Pouco antes da eleição, uma década mais tarde, o advogado pessoal de Trump, Michael Cohen, pagou a Daniels 130.000 dólares em troca de um acordo de confidencialidade em nome de um cliente que não assinou o documento (a assinatura está em branco). Três meses atrás, Daniels processou Cohen e Trump para anular o acordo.

Trump nunca havia se referido a essa questão até 6 de abril, quando um repórter perguntou a ele no Air Force One se ele sabia do pagamento a Stormy Daniels. “Não”, respondeu categórico. Outro jornalista perguntou se ele sabia de onde o dinheiro havia saído. “Não, não sei”, disse ele. E acrescentou que era preciso perguntar a Michael Cohen porque ele era seu advogado nesse assunto. Com essa afirmação, Trump comprometia a versão de Cohen de que o presidente não tinha nada a ver com Daniels.

A implicação mais séria deste assunto, até agora, é a possibilidade de que esse dinheiro seja considerado uma doação não declarada para a campanha, o que é crime. A estratégia de Michael Cohen para proteger Trump tem sido dizer que o presidente não sabia de nada, que o valor foi pago por ele e não foi reembolsado nem por Trump, nem por suas empresas, nem pela campanha. Esse parecia ser o esclarecimento que Giuliani pretendia fazer. É importante porque há uma investigação do FBI em andamento sobre esses pagamentos, cuja primeira consequência foi uma busca agressiva nos escritórios e na casa de Michael Cohen.

Logo após as declarações, o repórter do Washington Post Robert Costa tuitou que havia acabado de falar com Giuliani e que este afirmara que o presidente estava “muito feliz” com a revelação e havia aprovado suas declarações. O presidente “estava muito consciente de que, em algum momento, quando eu visse a oportunidade, iria acabar com isso”, diz Giuliani, citado por Costa. Ele afirma ter falado com Trump “quatro ou cinco dias atrás”.

O advogado de Daniels, Michael Avenatti, nunca escondeu que seu objetivo final com esse processo é questionar o presidente no tribunal. Quanto mais pontos obscuros e contradições houver na versão da outra parte, maiores são as probabilidades de o juiz federal que cuida do caso em Los Angeles chamar as partes para depor, incluindo Trump. Avenatti costuma tuitar sua alegria toda vez que surge um novo detalhe sobre o caso.

Quarta-feira não foi exceção. Duas horas depois das revelações de Giuliani, Avenatti apareceu na CNN para dizer que o público deveria estar “enojado” com “as mentiras ditas durante três meses” sobre o assunto. No Twitter, ele acrescentou: “Trump mentiu descaradamente no Air Force One (...) Não vamos descansar enquanto não se fizer justiça.”

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