Trump na ONU: “O futuro pertence aos patriotas, não aos globalistas”

Enquanto o presidente dos EUA discursava, cresciam entre os democratas as vozes que pedem o início de um processo de impeachment contra Trump “por delitos graves”

Trump se reúne com Boris Johnson na Assembleia Geral da ONU.
Trump se reúne com Boris Johnson na Assembleia Geral da ONU.Evan Vucci (AP)

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Ante a instituição que representa a multilateralidade, Donald Trump fez nesta terça-feira, em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, uma defesa ardente do isolacionismo. “O futuro não pertence aos globalistas, e sim aos patriotas”, deixou para a história o presidente dos Estados Unidos. Envolvido em diversas frentes internacionais, sem sinais de avanço em nenhuma, o Trump que se viu em Nova York é um líder muito diferente daquele que, em sua primeira intervenção neste foro, há dois anos, ameaçou o “pequeno homem-foguete” Kim Jong-un com a “destruição total” da Coreia do Norte. Nesta terça-feira, o presidente se mostrou menos beligerante em suas tensões com o Irã, e também com a Venezuela, afirmando que os Estados Unidos não querem “inimigos permanentes” e expressando sua rejeição do uso da força. “Somos a potência mais poderosa do mundo, mas espero nunca ter de usar esse poder”, assinalou. “Tenho o imenso privilégio de me dirigir a vocês hoje como o líder eleito de uma nação que valoriza a liberdade, a independência e o autogoverno acima de tudo”, disse Trump ao iniciar seu discurso de 37 minutos. “Se querem liberdade, sintam orgulho de seu país. Se querem democracia, agarrem-se à sua soberania. Se querem paz, amem sua nação. O mundo livre deve abraçar suas fundações nacionais”, continuou.

Após essa defesa do isolamento, o presidente citou suas numerosas frentes internacionais. Distribuiu críticas, mas evitou qualquer ameaça de uso da força. Como não poderia deixar de ser, foi muito crítico com o regime do Irã, acusando-o de ser “o principal patrocinador mundial do terrorismo”. Insistiu no dever de bloquear o caminho de Teerã para as armas nucleares, e defendeu sua saída do acordo de 2015, assim como a eficácia de suas sanções econômicas. Mas indicou que esse não é um conflito que corresponda exclusivamente aos EUA, dizendo que “todas as nações têm o dever de agir”. Significativamente, mencionou apenas de passagem o ataque às instalações petrolíferas da Arábia Saudita no dia 14 — Washington acusa Teerã pelo ataque, chamado de “ato de guerra” pelo próprio secretário de Estado de Trump —, preferindo citar uma longa lista de ofensas históricas, e ressaltando que os Estados Unidos buscam a aliança e não o conflito. “Alguns dos nossos melhores amigos de hoje eram nossos piores inimigos”, afirmou.

Na véspera dos discursos, os líderes da Alemanha, França e Reino Unido se alinharam com o presidente Trump ao acusar Teerã pelos ataques a instalações petrolíferas sauditas. Em um comunicado conjunto na segunda-feira, eles não só apoiaram a acusação de Washington sobre os ataques na Arábia Saudita, que Teerã nega, como também pediram um acordo nuclear mais amplo — numa guinada em relação à posição da Europa de tolerância com o Irã, depois que os europeus tentaram salvar durante um ano o acordo de 2015 que os Estados Unidos decidiram romper. “Chegou a hora de que o Irã aceite negociações de longo prazo sobre seu programa nuclear, assim como sobre assuntos de segurança na região, incluído seu programa de mísseis”, diz o comunicado assinado pelo presidente francês, Emmanuel Macron, pela chefe de Governo alemã, Angela Merkel, e pelo primeiro-ministro britânico, Boris Johnson.

Trump dedicou uma parte de seu discurso à situação na Venezuela, e chamou Nicolás Maduro de “um fantoche cubano que se esconde de seu povo enquanto Cuba se aproveita da riqueza petrolífera da Venezuela para proteger seu regime”. O presidente americano garantiu “aos venezuelanos presos neste pesadelo” que “todos os Estados Unidos” estão com eles. Mas falou em esperar. “Estamos acompanhando muito de perto a situação na Venezuela. Esperamos pelo dia em que a democracia será restaurada e a Venezuela será livre”, discursou, depois de afirmar que seu país tem uma “enorme quantidade” de ajuda humanitária preparada para a Venezuela. A situação na Venezuela, argumentou, é um aviso de que “o socialismo e o comunismo não tentam tirar as pessoas da pobreza”, em vez disso, só buscam “poder para a classe dominante”. “Os Estados Unidos jamais serão um país socialista”, insistiu o presidente, em uma mensagem velada à ala mais esquerdista do Partido Democrata de seu país, envolvida agora no processo de escolher a pessoa que enfrentará Trump nas eleições presidenciais do ano que vem.

O presidente também criticou bastante aqueles que, em sua opinião, tiram proveito da migração em massa. “Os ativistas que promovem uma política de fronteiras abertas têm interesses além das pessoas inocentes e comprometem os direitos humanos”, afirmou. “Suas políticas são cruéis.” O presidente disse que todos os países têm “o direito absoluto de proteger” suas fronteiras. “Incluindo os Estados Unidos”, especificou.

A China foi outro alvo previsível de Trump, que acusou Pequim de burlar o sistema e roubar propriedade intelectual. “Para enfrentar essas más práticas, impusemos tarifas enormes”, recordou. Ele não deu nenhum sinal de uma possível redução das hostilidades na guerra comercial, nem mesmo neste momento em que negociadores dos dois países se preparam para uma nova rodada de conversações no mês que vem. Também advertiu Pequim quanto à necessidade de respeitar os direitos humanos em Hong Kong, onde há meses são realizados protestos em massa contra o controle chinês.

No primeiro dia da Assembleia Geral, Trump esteve rodeado de líderes que, em maior ou menor grau, imitaram seu estilo. Imediatamente antes do presidente americano, seguindo uma tradição que se repete todo ano desde 1955, abriu a sessão, em sua primeira Assembleia, o brasileiro Jair Bolsonaro, cujos polêmicos modos lhe valeram o apelido de “mini-Trump”. Depois do americano, foi a vez do presidente egípcio, Abdel Fatah al-Sisi, ex-general que simboliza a repressão das primaveras árabes, e do não menos autoritário presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. Enquanto Trump se dirigia ao mundo, continuava crescendo seu último escândalo doméstico: as acusações de que, em julho, ele pediu ao presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, que investigasse o ex-vice-presidente Joe Biden — favorito para conseguir a indicação democrata à Casa Branca — e seu filho, e de que congelou a ajuda financeira ao país pouco antes de telefonar para o líder ucraniano. Crescem, entre os democratas, as vozes que pedem o início de um processo de impeachment contra Trump “por delitos graves”, mas muitos resistem, pois consideram que o processo nunca prosperaria no Senado, que tem maioria republicana. Ao chegar à ONU, Trump voltou a falar de “caça de bruxas”. “Estou liderando as pesquisas [para as eleições de 2020] e [os democratas] não sabem como me parar”, afirmou. “O único caminho que têm é o impeachment.”

Vários meios de comunicação dos Estados Unidos confirmam que a presidenta da Câmara, Nancy Pelosi, estava se reunindo com figuras poderosas para discutir a criação de um comitê para abrir um possível julgamento político de Trump. Ao mesmo tempo, o presidente anunciou seu desejo de tornar pública a polêmica conversa telefônica realizada com o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, em julho passado, que é a origem desse novo escândalo político. O suposto denunciante que alertou sobre a ligação se ofereceu comparecer perante o comitê do congresso.

No final do dia de trabalho, durante o qual devem discursar 21 líderes, espera-se o pronunciamento de Boris Johnson, que estreia em uma Assembleia Geral em meio a um incêndio doméstico. De manhã, a Suprema Corte britânica decidiu, por unanimidade de seus 11 magistrados, anular a iniciativa do primeiro-ministro de suspender o Parlamento, provocando um novo terremoto político a apenas um mês do prazo de 31 de outubro para a saída automática, com ou sem acordo, do Reino Unido da União Europeia. Os juízes consideram que a decisão do primeiro-ministro de fechar o período de sessões em Westminster durante cinco semanas frustrou a intenção dos deputados de evitar um Brexit selvagem.

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