70º Festival de Berlim

Hillary Clinton: “Os serviços secretos russos ainda trabalham para Trump”

A política democrata apresenta uma série sobre sua vida no Festival de Berlim. “Putin me atacou, queria me derrotar”, afirma em encontro com EL PAÍS e quatro outros veículos de comunicação internacionais

Hillary Clinton nesta terça-feira no Festival de Berlim.
Hillary Clinton nesta terça-feira no Festival de Berlim.Christoph Soeder / dpa
ENVIADO ESPECIAL A BERLIM - 26 feb 2020 - 00:07 UTC

Por trás das robustas portas de madeira de uma sala do hotel Adlon, um dos mais sofisticados de Berlim, se ouve claramente o riso de Hillary Rodham Clinton. Um grupo de jornalistas europeus aguarda a ex-secretária de Estado dos EUA ao redor de uma mesa na sala principal da suíte, enquanto do outro lado Clinton conversa com a diretora do documentário Hillary, Nanette Burstein, e duas outras pessoas. A voz cantada é da ex-senadora (Chicago, 72 anos), mas o que mais se ouve são suas gargalhadas.

Essas gargalhadas e esse bom humor são alguns dos detalhes que iluminam a série documental Hillary, com quatro capítulos de 65 minutos cada, produzida pela Hulu ―propriedade da Disney― para estrear em sua plataforma, e que realiza um soberbo e incisivo percurso pela vida de uma advogada que por muito pouco não foi a primeira presidenta dos Estados Unidos. Hillary, programado na seção Especial da Berlinale, tem três fontes de material: todo o audiovisual sobre a vida de sua protagonista, 2.000 horas de gravações filmadas pela equipe da candidata durante os 15 meses da campanha que acabou levando Donald Trump ao poder, e entrevistas realizadas por Burstein (a quem foi oferecido o projeto, que aceitou em troca do controle absoluto do resultado final) com qualquer pessoa que pudesse contribuir com algo.

Da própria Hillary (deu 35 horas de entrevista em sete dias seguidos) e do marido, o ex-presidente Bill Clinton, que chora ao lembrar o affaire Lewinsky, colegas, subordinados, amigos e jornalistas e inclusive outro ex-presidente, Barack Obama, que com uma única frase resume o terrível mito de Sísifo no qual se converteu a vida política de Hillary Clinton, marcada por um constante recomeço. “Ela é vítima do duplo critério. Quando está em um cargo, seus níveis de popularidade disparam por causa de sua firmeza e sua sabedoria, e é exatamente isso que se volta contra ela quando se candidata a outro cargo.”

Clinton entra. Pede para ser apresentada a cada jornalista. Burstein diz que sua protagonista nunca rejeitou uma pergunta ou vetou um assunto ―e, de fato, se fala de tudo na tela― e pessoalmente a ex-senadora não é diferente. Sobre o recém-condenado Harvey Weinstein diz: “O júri falou claramente e está na hora de ele prestar contas. Doou dinheiro para minhas campanhas, como fez com qualquer candidato democrata a qualquer posto”. Sobre o pré-candidato Bernie Sanders, se ouve em uma conversa do documentário na campanha de 2016: “Está no Congresso há décadas. Ninguém gosta dele, ninguém quer trabalhar com ele porque não fez nada. É um político de carreira”. Ontem, em Berlim, Clinton se explicou: “Apoiarei o candidato democrata, seja ele quem for. Tivemos quatro anos ruins e, se houver outros quatro, pode ser muito difícil recuperarmos os danos. Tenho minha opinião sobre Sanders, obviamente... e farei campanha para ele. Qualquer democrata é melhor que Trump, um perigo para a democracia. Mas eu teria gostado que Sanders tivesse me apoiado em 2016 como eu apoiei Obama em sua época e pedi ao meu pessoal que o apoiasse”.

Quase no início do documentário aparece o caso dos e-mails, a conta dupla que Clinton usou quando era secretária de Estado e que motivou uma investigação do FBI: “Nunca fiz nada ilegal, nem dei nenhum tipo de informação classificada, nem infringi nenhuma regulamentação, e foi um assunto devastador para a minha campanha. Quando o eco dessa manobra terminou, o diretor do FBI voltou ao assunto 10 dias antes da eleição presidencial e me afundou. Três dias depois, disse que não havia nada, era o de sempre, mas já era tarde. A clara vantagem que eu tinha em regiões onde poderia ter vencido desapareceu”. Sente que houve uma conspiração organizada? “Claro! E meticulosamente calculada. Durante um ano, a Administração Obama considerou como tornar pública a interferência russa e como estavam manipulando a opinião pública e quando o fizeram, poucas horas depois roubaram e distribuíram e-mails do meu chefe de campanha. Não há mistério. A Rússia usou vazamentos do Wikileaks para contaminar as pessoas.”

E vai além: “Foi uma operação sofisticada, concertada. Putin me atacou, queria me derrotar, e é ele o modelo de conduta de Trump. Putin está rodeado e financiado pela oligarquia russa, invadiu três países e cometeu crimes de guerra na Síria... E Trump admira essa liderança, até gosta que não haja controles legislativos nem jornalísticos. O atual presidente dos Estados Unidos o qualificou de “mestre da distração e é por isso que diz dez estupidezes por dia”. Para Clinton, “os serviços secretos russos ainda trabalham para a campanha de Trump, porque a distração faz parte da estratégia”. E eles têm um terreno perfeitamente adubado: as redes sociais. “Temos que regular as redes. Nos EUA, metade das pessoas se informam pelo Facebook e não há nenhum controle.” Como exemplo, expõe algumas mentiras usadas contra ela na campanha. “As pessoas estão desinformadas. Um estudo da Ohio State University, centrado nos eleitores de Obama que depois apoiaram Trump naquele Estado, descobriu que eles fizeram isso acreditando que eu estava muito doente ―e que Sanders havia tido um ataque cardíaco, um detalhe que confirma a diferença de apreciação entre os sexos― ou que o papa Francisco apoiava Trump. Tudo isso eram mentiras distribuídas pelo Facebook. E isso é propaganda manipuladora.”

Clinton ainda fica surpresa com “a enorme quantidade de histórias ridículas” que circulam sobre sua vida: “Teorias da conspiração, doenças, loucuras propagadas pelas redes”. É por isso que queria que alguém visse isso de fora. “Vivi experiências impressionantes. Mas o documentário me usa como uma lupa para falar de décadas de história. Espero que os jovens tirem uma conclusão: nunca deem seus direitos como garantidos. Nunca acreditem que a luta acabou ou que essas liberdades estão garantidas. É uma luta e eu sou uma pequena parte dessa batalha.” Sobre o futuro, ela reflete: “Sou otimista, porque acredito que é a melhor maneira de viver, mas estou preocupada com o crescimento da xenofobia, do nacionalismo e dos movimentos populistas. Eles estão dominando o discurso e isso coloca a democracia em perigo. Entendo que as pessoas sintam medo, mas as soluções não nascem dele e os líderes políticos existem para criar diálogos construtivos. Para não gritar furiosos”.

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