Eleições nos EUA

Bernie Sanders conquista voto latino e obtém vitória estratégica em Nevada

O senador consegue mais de 50% dos votos no Estado mais diverso das primárias e se transforma em favorito na corrida

Bernie Sanders durante campanha em Las Vegas, Nevada.
Bernie Sanders durante campanha em Las Vegas, Nevada.MIKE SEGAR / Reuters

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As eleições em Nevada são vencidas com o grito de sí, se puede (sim, podemos). Não é um gesto aos latinos. Não é uma frase que o candidato possa soltar no final de um discurso em inglês como uma anedota. Conectar com a população que fala espanhol é a essência de qualquer campanha eleitoral viável num Estado com um terço de população latina, em sua maioria com uma experiência de imigração muito recente. Em Nevada, o favorito para vencer as primárias deste sábado não era o senador Bernie Sanders. O favorito era o Tio Bernie. E não houve surpresas. Na madrugada de domingo, o senador por Vermont se aproximava dos 50% dos votos segundo os resultados preliminares. Era o dobro do apoio que o segundo lugar, o ex-vice-presidente John Biden. A vitória dá enorme força a Sandres antes da chamada Superterça, quando serão decididos um terço dos delegados da convenção democrata que decidirá que enfrentará Donald Trump.

A demonstração de poderio de Sanders se construiu com base no voto latino. “Em Nevada não se pode ganhar se os latinos não gostam de você. Simples assim, hermano.” O ativista e sindicalista José La Luz foi contundente na última quinta-feira no escritório de campanha de Sander em Las Vegas, onde um grupo de voluntários se dispunha a bater às últimas portas para garantir que os simpatizantes de Sanders estivessem presentes neste sábado nos caucus (assembleias eleitorais) considerados estratégicos para estas primárias.

Os latinos são um terço dos três milhões de habitantes de Nevada. Mais de 70% da população do Estado mora no condado donde fica ­Las Vegas. E 33% de todos os democratas registrados em Nevada são latinos. São os trabalhadores da hotelaria, o principal setor da cidade. Nas cozinhas de Las Vegas, sempre se falou espanhol. Mas a importância do idioma cresceu muito nos últimos 10 anos. Hoje, bairros inteiros da cidade só falam espanhol.

Há quatro anos, o senador Bernie Sanders enfrentou aqui uma maquinária eleitoral lubrificada por Hillary Clinton havia uma década. Voluntários latinos percorriam os bairros de Las Vegas chamando listas de simpatizantes em nome de Clinton. A campanha de Sanders era formada por um grupo de ativistas. O maior evento da campanha foi um comício num auditório em Henderson, nos arredores. Ainda assim, Sanders perdeu por uma diferença de apenas quatro pontos num Estado onde as pesquisas indicavam que Clinton arrasaria. Agora, os resultados contundentes apareceram.

Em 2020, a campanha onipresente na cidade foi a de Sanders. Aquela guerrilha de ativistas se transformou num exército. Sanders abriu 11 escritórios em todo o Estado, oito deles em Las Vegas. O primeiro inaugurado foi o de East Las Vegas, um bairro transformado no coração mexicano de Nevada. Esse escritório tem feito trabalho de campo desde maio de 2019. Na época, Sanders já estava emitindo um anúncio em espanhol em Iowa, oito meses antes da votação nesse Estado. Em dezembro, a congressista Alexandria Ocasio-Cortez veio a Las Vegas para falar num fórum a favor de Sanders totalmente em espanhol. Segundo os dados da campanha, a equipe organizou 560 eventos bilingues, e os voluntários fizeram mais de meio milhão de ligações em espanhol.

Esse exército de voluntários são gente vinda de todo o país. Como Vaneik Echeverría, um ator e produtor de teatro de Nova York de 46 anos que veio a Las Vegas para ajudar por dois dias e ficou por duas semanas. Ele diz que a campanha é global. “Conheci voluntários que vieram da Alemanha e da Eslovênia. Sempre foram americanos os que iam aos lugares para resolver os problemas. Agora este país tem problemas e vem gente do mundo todo para ajudar”, afirma. Na última quinta-feira, Echeverría foi bater às portas pedindo o voto para Sanders pela terceira vez no mesmo setor do leste de Las Vegas. Ele é dos que apoiavam Sanders em 2016 e se negaram a votar em Clinton. Este ano, reconhece que votará “estrategicamente” e que o objetivo é vencer Donald Trump, mas adverte ao Partido Democrata que não tome seu voto como certo.

No escritório do leste de Las Vegas também estava Lupita Arreola, uma mexicana de meia idade que veio do Arizona para ajudar as equipes de voluntários. Arreola já apoiava Sanders há quatro anos, quando as senhoras latinas de sua idade ajudavam Clinton porque era a candidata natural do partido. “De fato, perdi muitas amizades por isso. Agora elas estão com Bernie Sanders e são minhas amigas de novo”, diz. Sanders hoje ocupa as redes de apoio latinas que antes respaldavam Clinton.

A marca Tio Bernie “foi idealizada por Alexandra Ocasio-Cortez num comício em Nova York e tem tido uma força tremenda”, explica José La Luz. “Quando batemos às portas, os garotos dizem: É o pessoal do Tio Bernie, mãe! Temos que falar com eles!ʼ”

Curiosamente, enquanto os demais candidatos fazem esforços mais ou menos acertados para dizer algumas palavras em espanhol e mostrar proximidade em relação aos imigrantes, Sanders não faz nada parecido. É um branco judeu de Nova York que não fala uma palavra em espanhol. Segundo José La Luz, o que o faz se conectar com os latinos é “o apoio dos trabalhadores”. “É a sua consistência. O Bernie Sanders de hoje é o mesmo de há 10 ou 20 anos. Ele tem sido um campeão dos trabalhadores, que o estão recompensando”, afirma. Sanders se conecta com os latinos não por falar espanhol, mas porque fala em ajudá-los com saúde e educação, que são os principais problemas citados nas pesquisas.

Sanders ganhou 66% do minúsculo voto latino de Iowa, segundo uma estimativa da Universidade da Califórnia, e 42% do também modesto voto latino de New Hampshire, de acordo com pesquisas de boca de urna da CNN. Numa recente enquete da Univisión, 33% dos eleitores que se identificam com os latinos votariam em Sanders. Em seguida vem Joe Biden, o candidato mais parecido com o que Clinton foi há quatro anos, com 22%. As pesquisas davam a Sanders cerca de 30% do total de votos deste sábado, uma diferença muito grande considerando-se que há seis candidatos. Mas os resultados preliminares foram ainda melhores.

Nevada é o primeiro Estado que se parece com o resto dos Estados Unidos, a primeira prova real mostrando quem pode aspirar a um apoio amplo e quem não pode. Após empatar em Iowa (voto branco rural) e ganhar em New Hampshire (voto branco dos subúrbios), o impulso de Sanders entre os latinos de Nevada pode ser a prova de que sua coalizão de apoios é a mais ampla de todas. O próximo destino é a Carolina do Sul, onde será medido o apoio entre os afro-americanos. Lá Sanders está em segundo lugar, atrás de Biden.

Mas logo depois vem a Superterça, 3 de março. Neste dia, os dois Estados mais populosos do país, Califórnia e Texas, repartirão entre si um terço dos delegados necessários para ganhar a nomeação (415 na Califórnia e 228 no Texas). E os dois Estados têm, assim como Nevada, mais de um terço de população latina. Ou seja, tendo em vista a configuração do calendário das primárias, pode-se deduzir que, com a vitória contundente no laboratório latino de Nevada, Sanders terá tudo a seu favor para sair da Superterça com a nomeação ao seu alcance.

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