Rússia

Putin promove integração da Crimeia cinco anos depois da sua anexação

Presidente russo esgota os dividendos de popularidade trazidos por tomar a península da Ucrânia. Permanecem as denúncias de violações de direitos humanos na região

Carreata com bandeiras para comemorar o quinto aniversário da anexação da península da Crimeia pela Rússia, em Sebastopol, em 16 de março.
Carreata com bandeiras para comemorar o quinto aniversário da anexação da península da Crimeia pela Rússia, em Sebastopol, em 16 de março.

Em 18 de março de 2014, a banca de jornais de Irina Valiulina, em Taman, uma pequena localidade russa numa das baías do estreito de Kerch, ficou sem bandeiras da Rússia. O ardor patriótico desencadeado pela assinatura do decreto de anexação pelo presidente Putin fez muita gente do povoado (de 10.000 habitantes) sair à rua para comemorar o fato que, na terminologia do Kremlin, é definido como a “volta”. Hoje, Valiulina tem bandeiras de sobra.

Os russos, como essa risonha vendedora de 53 anos, continuam apoiando majoritariamente a anexação. Também na Crimeia as cifras são boas: 72% dos cidadãos da Crimeia (62% dos menores de 24 anos) acham que teve um efeito positivo, embora essas cifras provenham do Centro Russo de Pesquisa da Opinião Popular (estatal). Mas cada vez são menos os russos que acreditam que a mudança de mãos trouxe mais benefícios que danos: 39%, segundo um levantamento da Fundação da Opinião Pública, de Moscou, publicada na sexta-feira, frente aos 67% do final de 2014. E no mesmo ritmo, aponta Andrei Kolesnikov, do Centro Carnegie de Moscou, “a popularidade de Putin, que na última década esteve vinculada a campanhas militares e à excitação patriótica”, também está diminuindo. As impopulares reformas, como o aumento da idade de aposentadoria, bem como a crise econômica que a Rússia atravessa, já não são mais curadas à base de discursos patrióticos ou beligerantes.

A aprovação do presidente russo, que mostrou um apetite voraz por ganhar territórios e alimentar sua ideia do “ressurgimento da Rússia”, alcançou 86% depois da anexação da península da Crimeia; poucos meses antes, estava em 65%, segundo dados do Centro Levada (independente). E explorar esse discurso sobre um Ocidente hostil e russófobo o levou a vencer as eleições com 76% há pouco mais de um ano. Algo similar ocorreu com a breve guerra com a Geórgia em 2008, quando Putin alcançou 88% de aprovação e a Rússia assumiu o controle da Ossétia do Sul e da Abkházia, num gesto que, para John Lough, do think tank Chathan House, e outros analistas, marcou a política externa que se consolidaria com a anexação da Crimeia.

Putin rodeado de autoridades da Crimeia durante a assinatura do documento de adesão da península à Rússia, em 18 de março de 2014, no Kremlin, em Moscou.
Putin rodeado de autoridades da Crimeia durante a assinatura do documento de adesão da península à Rússia, em 18 de março de 2014, no Kremlin, em Moscou.

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O Kremlin, apesar de toda a condenação internacional, continua impulsionando seus projetos para acelerar a integração da península. Investiu em um novo aeroporto, em alguns projetos de turismo no setor vitivinícola e em reforçar a presença militar. E há 10 meses, na boleia de um caminhão de fabricação russa, o presidente inaugurou a ponte da Crimeia, uma passarela de 19 quilômetros sobre o estreito de Kerch, que para muitos simboliza seu afã expansionista. Nos primeiros seis meses após sua abertura, a estrutura já foi usada por cerca de três milhões de veículos, segundo as autoridades. A ponte, construída pela empresa do oligarca Arkadi Rotenberg, colega de judô de Putin, e que custou até agora quatro bilhões de dólares (15,3 bilhões de reais), será completada no final deste ano com uma linha férrea.

E essa ligação ferroviária, que terá um custo adicional de 1,7 bilhão de dólares, representará um passo a mais na conexão total com a Crimeia, como observou o líder russo há algumas semanas em seu discurso anual do Estado da Nação. Nesta segunda-feira, exatamente meia década após assinar o decreto de anexação, Putin deve visitar a península, onde inaugurará uma das duas novas centrais termoelétricas. Será o ponto culminante de uma série de eventos, em várias regiões da Rússia e na própria península, batizados de “primavera da Crimeia”. Tudo com eventos tão vistosos como o hasteamento de uma gigantesca bandeira russa na Crimeia por parte dos Lobos da Noite, um grupo de motociclistas russos ultranacionalistas, fervorosos admiradores de Putin e Stálin.

Putin cruza a ponte sobre o estreito de Kerch, em maio passado, dirigindo um caminhão Kamaz.
Putin cruza a ponte sobre o estreito de Kerch, em maio passado, dirigindo um caminhão Kamaz.

Enquanto acontecem os festejos, nas cidades próximas à ponte, com estradas remendadas e falta de infraestrutura, os trabalhadores descansam pouco. Eles se esforçam para cumprir os prazos estabelecidos para a construção de novas estações de trem.

A vendedora Valiulina, que não deixa seu quiosque de Taman nem um único dia, não atravessou a quilométrica passarela. Está muito feliz com a anexação, mas também reconhece que esperava que levasse a um maior desenvolvimento. Tanto para a Crimeia quanto para o sua cidade, a última antes da ponte. “Pensava que viriam mais turistas e que haveria mais investimentos”, diz. Seu filho Alexander normalmente atravessa a ponte uma vez por mês. Quando esteve aberta ao público ele logo pegou o carro com alguns amigos e atravessou. Foi mais uma coisa simbólica, diz.

A apenas poucos quilômetros de Taman, um mirante vigiado por dois soldados e coroado com um lançador de foguetes da Segunda Guerra Mundial transformado em monumento, mostra o avanço da construção. Um enorme cartaz anuncia que quando todo o projeto estiver pronto, 29 pares de trens passarão por dia (15 de passageiros, dez de carga e quatro de ligação).

Manifestantes da oposição exigem melhoras econômicas e desenvolvimento numa manifestação em Moscou, coincidindo com o 28º aniversário do referendo de preservação da URSS e com os cinco anos da anexação da Crimeia.
Manifestantes da oposição exigem melhoras econômicas e desenvolvimento numa manifestação em Moscou, coincidindo com o 28º aniversário do referendo de preservação da URSS e com os cinco anos da anexação da Crimeia.

Há cinco anos, houve poucas baixas entre a população civil da Crimeia, apesar da participação do misterioso exército de homenzinhos verdes, sem bandeiras ou galões – que muito tempo depois a Rússia confirmou como membros de suas forças especiais –, que permitiu e apoiou a súbita organização do referendo de anexação à Rússia, que obteve 95% de votos a favor. No entanto, essa operação, que ocorreu logo depois que os ucranianos derrotaram Viktor Yanukovych, aliado da Rússia, em Kiev, foi o prelúdio de um conflito no leste da Ucrânia, onde o Kremlin apoia rebeldes separatistas pró-russos, que já fez entre 10.000 e 13.000 mortos e 1,5 milhão de deslocados.

Desde a anexação, todos os canais de televisão ucranianos foram desconectados na Crimeia e os canais e meios de comunicação, como os dos tártaros, foram proibidos. Além disso, organizações internacionais e a ONU alertaram sobre as constantes violações dos direitos humanos, como batidas, invasões de domicílio, purgas nos serviços públicos ou detenções irregulares. Especialmente em relação à comunidade tártara, denuncia a Comissária de Direitos Humanos da Ucrânia, Liudmila Denisova, que afirma que pelo menos 34 cidadãos ucranianos estão detidos ilegalmente em prisões na Crimeia e outros 35 na Rússia.

No domingo, a alta representante de Política Externa e de Segurança Comum da UE, Federica Mogherini, também falou de violações de direitos e disse que houve uma “deterioração significativa” da situação na península da Crimeia desde a anexação. “Os habitantes da península enfrentam restrições sistêmicas às suas liberdades fundamentais: expressão, religião ou crença, associação e manifestação pacífica”, disse a chefe da diplomacia europeia em um comunicado.

A MÁQUINA DE PROPAGANDA RUSSA ‘ADOTA’ UM GATO

A ponte da Crimeia tem sua própria moeda comemorativa, de cinco rublos. E também o seu próprio animal de estimação. Seu nome é Mostik e é um gato bochechudo, branco e com manchas cor de gengibre, adotado pelos trabalhadores da grande obra. Se a passarela sobre o Estreito de Kerch é o símbolo do expansionismo de Putin e de seu desejo de recuperar o que foi perdido com o desaparecimento da União Soviética, Mostik (que em russo significa pequena ponte) procura ser o componente vivo e sentimental da anexação.

A televisão pública fez reportagens sobre o famoso gato, vestido com um pequeno capacete laranja e um colete fluorescente; dedicaram-lhe canções e ele tem até seu próprio merchandising. Quando Putin inaugurou a ponte em maio, Mostik o fez quatro caminhões atrás do líder russo, também em um veículo Kamaz. O felino também é parte da propaganda do Kremlin, segundo pesquisa do veículo de comunicação russo Proekt, que revelou que quem promove sua imagem nas redes – possui milhares de seguidores no Instagram, por exemplo – é a filha de um alto funcionário da equipe de Putin.

Mostik cruzou a ponte da Crimeia. Mas o chamado "trem dos troféus da guerra da Síria", outra das iniciativas de propaganda do Governo russo, não conseguiu fazê-lo. O comboio ferroviário itinerante, que exibe blindados e armas leves supostamente apreendidos dos terroristas no conflito sírio, em que a Rússia apoiou o regime de Bashar al-Assad, tem um plano de rota para percorrer todo o país. E neste, de acordo com o ideário do Kremlin, a Crimeia não podia faltar. No entanto, as vias não estão terminadas e teve de chegar à península de balsa.