Bolívia

Vitória do partido de Evo Morales na Bolívia dá oxigênio à esquerda latino-americana

Retorno do MAS ao poder tem um importante alcance simbólico e representa uma advertência aos setores mais radicais da oposição venezuelana

Encontro entre o ex-presidente boliviano Evo Morales e o mandatário argentino, Alberto Fernández, na segunda-feira à noite, na residência presidencial de Olivos.
Encontro entre o ex-presidente boliviano Evo Morales e o mandatário argentino, Alberto Fernández, na segunda-feira à noite, na residência presidencial de Olivos.Gabinete de prensa de Evo Morales

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O retorno do partido de Evo Morales ao poder na Bolívia redesenha o mapa dos equilíbrios políticos na América Latina. Apesar de o país não exercer peso suficiente para sacudir a região —tem apenas 11 milhões de habitantes e uma economia muito modesta em comparação aos seus vizinhos—, a vitória eleitoral do ex-ministro Luis Arce tem um grande alcance simbólico. Sua vitória redefine alianças e dá oxigênio aos projetos de esquerda.

As eleições gerais realizadas no domingo, após quase um ano do Governo interino de Jeanine Áñez, devolveram o controle ao Movimento ao Socialismo (MAS). E, se essa formação conseguiu ganhar sem Morales e seu vice, Álvaro García Linera, ambos asilados na Argentina, a votação foi de certa forma um plebiscito sobre o ex-mandatário que renunciou em 2019, em meio a acusações de fraude eleitoral. Uma das mensagens divulgadas pelo líder indígena nas redes sociais após o anúncio dos resultados preliminares compõe uma fotografia dessas alianças, em que figuram nomes com trajetórias às vezes radicalmente distintas, mas que têm um denominador comum: sua oposição ao bloco conservador na América do Sul, encabeçado por Jair Bolsonaro e pelo colombiano Iván Duque. “Além do povo, vários presidentes e ex-presidentes salvaram minha vida”, manifestou Morales, antes de agradecer ao argentino Alberto Fernández, ao mexicano Andrés Manuel López Obrador, ao cubano Miguel Díaz-Canel e ao venezuelano Nicolás Maduro.

Os dois primeiros foram essenciais, em novembro do ano passado, quando as Forças Armadas bolivianas forçaram o governante a renunciar, após 14 anos no poder, e precipitaram sua saída do país. Morales viajou primeiro ao México e mais tarde se instalou na Argentina, onde continua desde então. Na segunda-feira à noite, jantou com Fernández, que não hesitou em descrever como “golpe de Estado” os fatos que convulsionaram a Bolívia nos últimos meses. Os outros governantes esquerdistas se pronunciaram em termos semelhantes.

Ocorre que há um abismo entre o presidente argentino ou López Obrador e, por exemplo, Nicolás Maduro. A Venezuela está há anos mergulhada numa crise institucional e econômica sem precedentes, e a gestão do regime chavista, que também está encurralado pelas sanções da Administração de Donald Trump, já provocou o êxodo de quase cinco milhões de pessoas, segundo as Nações Unidas. Um ano atrás, vários políticos da oposição viram na queda de Morales uma espécie de itinerário ou modelo para uma transição também na Venezuela. O presidente da Assembleia Nacional venezuelana, Juan Guaidó, prontamente elogiou o processo na Bolívia como exemplar. Em uma conversa com a presidenta interina Jeanine Áñez, chegou a afirmar que “nós nos inspiramos em vocês, no exemplo da filha dileta do libertador, dessa força que demonstraram, sobretudo o apego à sua carta magna e a conduzir uma transição. Seu exemplo não é uma brisinha, é um furacão de democracia para libertar a Venezuela, mas também a Nicarágua e Cuba”.

Essa posição despertou desconfianças em setores mais moderados da oposição venezuelana. Além disso, o paralelismo entre o projeto político do MAS e os rumos do chavismo não se sustenta. O líder indígena cometeu o erro de desconsiderar o resultado do referendo sobre uma reeleição indefinida, que perdeu em 2016, e decidiu voltar a disputar eleições. Isso gerou uma crise de legitimidade. Entretanto, sua gestão econômica não admite comparações com a catástrofe que atinge milhões de venezuelanos.

Em todo caso, Maduro, cada vez mais sozinho no tabuleiro internacional, aproveitou a vitória de Arce para encher o peito e lançar uma advertência a seus adversários. “A Bolívia e a Venezuela estão unidas por uma luta histórica que tem séculos e que ainda não termina”, proclamou. O sucessor de Hugo Chávez, que convocou eleições parlamentares em dezembro —as quais serão boicotadas pela maioria das forças opositoras, alegando falta de garantias—, também considera que “o povo boliviano unido e consciente derrotou com votos o golpe de Estado”.

Na lista de agradecimentos de Morales há outros nomes. O ex-chefe do Governo espanhol José Luis Rodríguez Zapatero, que continua muito ativo na América Latina com sua participação nas iniciativas do Grupo de Puebla, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o equatoriano Rafael Correa e o colombiano Ernesto Samper. Todos eles foram muito críticos com a atuação da Organização dos Estados Americanos (OEA) e seu secretário-geral, Luis Almagro. A volta do MAS representa um duro golpe para a estratégia do organismo multilateral, por foi justamente uma denúncia de fraude eleitoral apresentada pela OEA que desencadeou a crise de 2019. A auditoria eleitoral da OEA, no entanto, foi posteriormente questionada por outros estudos. Na repetição do pleito um ano depois, e com um Tribunal Eleitoral renovado, o partido de Morales inclusive melhorou seu resultado.

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