Nasce uma rede de artistas latino-americanas contra a violência psicológica

Dezenas de atrizes e diretoras de 10 países da América Latina se unem em uma nova campanha para denunciar a violência psicológica no meio artístico

Nasce uma rede de artistas latinoamericanas
contra a violência
psicológica

Cidade do México / São Paulo - 01 mar 2021 - 20:17 UTC

Há um ano, quando a pandemia começou, a diretora brasileira de documentários Luciana Sérvulo achava que havia chegado o momento de um de seus projetos mais ambiciosos: um filme sobre como iria mudar a situação das mulheres na América Latina durante a crise de 2020. “Comecei a fazer contatos, mas logo que iniciei o projeto tive pneumonia”, contou Sérvulo ao EL PAÍS , de 54 anos, de sua casa em São Paulo. Coronavírus? Dois testes deram negativos. Confusa com o que estava acontecendo com seu corpo, interrompeu o projeto enquanto se recuperava, mas também começou a falar pela primeira vez, na terapia, de uma ferida mais profunda que carregava no corpo desde antes da pandemia. “Era um sintoma de tudo o que eu tinha vivido”, diz Sérvulo, depois de se reconhecer vítima de um tipo de violência ainda pouco comentada na América Latina: a violência psicológica.

“Foi quando me convidaram a participar do lançamento do #MeToo Brasil, como diretora, que falei pela primeira vez em público que havia sofrido um relacionamento de abuso emocional”, diz Sérvulo, sobre um evento digital organizado no ano passado por artistas do mundo audiovisual. “Eu não tinha ideia antes do mal que o silêncio estava me causando, como estava destruindo minha saúde física e minha saúde emocional.”

Sérvulo dirigiu documentários sobre diversos temas, desde os jovens nas ruas de Rio de Janeiro em A Rua dos Meninos, de 2005, até a Cuba pós-Obama em Filhos da Revolução, de 2019. Mas diz que seus anos de trabalho foram acompanhados de constantes comentários de colegas para minar seu papel como diretora: para deslegitimar suas decisões ou ignorar sua autoridade no set por ser mulher em posição de poder. Comentários que aos poucos conseguiram ferir emocionalmente. “Dou um exemplo clássico: quando se é uma diretora, digamos, democrática [que pede a opinião de sua equipe], isso pode significar naquele mundo machista do cinema que se é uma diretora ‘que não sabe o que quer’”, diz ela.

Comentários frequentes como ‘vamos ver se você tem experiência’ ou ‘vamos ver se é boa’. “O sistema de machismo patriarcal em que vivemos se reflete em um set de filmagem”, diz Sérvulo. De acordo com uma pesquisa digital de 2017 com 1.400 pessoas que trabalham com artes audiovisuais no Brasil, 59% das mulheres consideram que suas opiniões são desconsideradas em seu ambiente de trabalho por causa de seu sexo ou orientação sexual, em comparação com 13% dos homens.

A diretora brasileira prefere não falar sobre a pessoa que mais a feriu psicologicamente durante as filmagens, mas diz que é uma cantora famosa, com uma longa carreira. “Há mulheres que também são abusadoras”, afirma Sérvulo. Em 2020 ela transformou a experiência pessoal em outro tipo de iniciativa: em poucos meses organizou uma rede latino-americana de atrizes e diretores em 10 países da América Latina para fazer campanha contra a violência psicológica no meio artístico. Chama-se Respeito em Cena. Artistas de cinema, teatro e televisão vindos do México, Costa Rica, Nicarágua, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Brasil, Chile e Argentina.

“A violência psicológica exercida no meio artístico tem provocado traumas, deixado sequelas e marcas psíquicas profundas em muitas e muitos artistas, prejudicando carreiras e afetando de forma nociva suas vidas pessoais e familiares”, diz o manifesto desse novo grupo, publicado nesta segunda-feira e assinado por mais de 100 pessoas (principalmente artistas, mas também outros profissionais da psicologia ou do jornalismo).

“Todos os países da América Latina, sem exceção, são extremamente machistas”, diz Sérvulo, que começou a organizar essa rede com apenas 14 mulheres, e em poucas semanas quase 100 se uniram ao projeto, como as mexicanas Dolores Heredia e Joahana Murillo, as argentinas Thelma Fardin e Mirta Busnelli, e as brasileiras Cláudia Abreu, Marienne de Castro e Maeve Jinkings, entre outras. “Descobri que quase não há ninguém no Brasil fazendo trabalho sobre violência psicológica. O discurso é voltado sobretudo à violência sexual”, afirma Sérvulo. E se já é difícil denunciar violência sexual ou física às autoridades, a nova rede é a possibilidade de criar um espaço seguro para falar sobre violência psicológica sem ser tachadas de loucas.

“É possível considerar que a violência psicológica é uma instância para outras formas de violência”, diz a socióloga Ana Safranoff, que estudou este tipo de violência na Argentina onde, segundo dados de 2013 a 2018, de todas as mulheres que denunciaram agressões às autoridades, 80% foram vítimas de violência psicológica.

Maeve Jinkings, estrela brasileira de filmes como Aquarius (2017), com o qual alcançou reconhecimento internacional em Cannes, foi uma das primeiras artistas a aderir à iniciativa de Sérvulo. Embora seja uma atriz experiente aos 44 anos e com um amplo currículo em teatro, cinema e televisão, Jinkings diz que sofreu abuso assédio sexual de um diretor e testemunhou violência psicológica por parte de uma preparadora de elenco —a própria atriz sofreu uma agressão de um assistente dessa profissional—. “Cheguei a levar um tapa na cara durante um exercício que, supostamente, era para soltar a raiva”, conta, por telefone, de Recife.

Tal como acontece com muitas mulheres, a atriz também sofreu abusos psicológicos como porta de entrada para o assédio sexual por parte de um diretor. “Ele costumava acenar com possíveis papeis em filmes, em troca de promessas de relações, porque chamava pra fazer teste e, na sequência, assediava sexualmente. Sabemos que isso configura uma permuta implícita. Eu me neguei a entrar nesse jogo e, um dia, ele me olhou e disse: ‘Você gosta demais de si mesma, não é?’. Nunca me esqueci dessa frase, porque é um exemplo muito claro de como as coisas funcionam nesse tipo de ambiente”, lembra.

Jinkings compara esse tipo de abuso no meio artístico a uma relação tóxica de casal na qual a intimidade e a confiança são construídas para compartilhar segredos, medos e traumas, e uma das pessoas usa isso contra a outra em todas as oportunidades. “O trabalho do ator é se deixar atravessar pelos outros, mas o diretor ou preparador não pode quebrar essa confiança e usar essa vulnerabilidade para te humilhar”, diz.

Uma violência invisível

Ao contrário da violência física, que deixa uma ferida visível, a violência psicológica causa danos de forma menos evidente: geralmente com comentários frequentes e humilhantes que procuram desqualificar e gerar profunda insegurança. “A violência psicológica visa aspectos fundamentais do ser humano, prejudicando sua imagem e honra”, explica Carmen Lucía Díaz, professora da Escola de Psicanálise da Universidade Nacional da Colômbia. “O ser humano, homem ou mulher, é constituído por um corpo físico, por sua imagem corporal, por uma subjetividade ou dimensões de valor. A violência psicológica busca prejudicar essa imagem, e prejudicar essa imagem é prejudicar o que sustenta a pessoa, o que a torna valiosa para os outros, mas também para si mesma.”

Palavras, gestos ou gritos são as armas dessa violência, mas como as palavras não deixam as mesmas feridas que um golpe, é mais difícil identificar o dano. “Como o processo não é muito claro, a pessoa começa a silenciá-lo, e quando se dá conta, o ego já está muito destruído. Tem a ver, precisamente, com mirar a destruição narcisista. Todo ser humano deve ter um elemento narcisista, mas esse amor próprio vai sendo esmagado. Como a pessoa está muito insegura, ela se censura a si mesma pelo que é, e se responsabiliza por tudo o que está acontecendo”, comenta Díaz.

Safranoff, a socióloga argentina, constatou em seus estudos que as mulheres em condições mais vulneráveis são mais propensas a serem vítimas desse tipo de violência, mas também considera uma teoria para explicar por que mulheres com mais visibilidade ou poder — como atrizes ou cineastas — podem ser alvo de abusos.

“A ordem patriarcal que se baseia na dominação masculina fica ameaçada quando as mulheres têm mais recursos”, diz Safranoff. “A violência é usada para restaurar o sistema tradicional de subordinação das mulheres. No campo das artes audiovisuais, talvez isso possa estar desempenhando um papel relevante, já que os homens podem se ver ameaçados pela fama/papel público das mulheres. A violência psicológica surge como forma de restaurar seu poder“.

Uma ferida latino-americana diante do público

Luciana Sérvulo dirige uma nova campanha contra a violência psicológica na América Latina. FOTO: CORTESÍA / VIDEO: Colectivo Respeito Em Cena

A matéria-prima com que as atrizes trabalham é o corpo, a voz e a empatia para se apropriar de um novo papel. Por isso, várias das atrizes desta nova rede latino-americana contra a violência psicológica citaram os ataques recorrentes a seu corpo como foco das agressões que sofreram.

“A verdade é que sempre fui uma jovem pouco ligada, cega para essas violências, porque para mim ser atriz era uma alegria, até que certas coisas aconteceram e comecei a me questionar”, diz Camila Selser, 35 anos, atriz nicaraguense que desde muito jovem decidiu entrar no mundo da televisão mexicana e trabalhou para novelas da Televisa como Te Doy la Vida (2020), e séries como Sr. Ávila (2013-2018, da HBO) e Soy tu Fan (2011, produção de Gael García e Diego Luna, entre outros).

“A diretora de elenco de uma empresa super conhecida me disse: ‘se você não perder peso, vamos te tirar da novela, então, dê um gás’.” Em outra ocasião, um assistente de direção me disse: ‘Você poderia ter ganho esse papel, mas acontece que não tem peitos”, diz Selser. “E em outra, um dos atores me disse: ‘quando você está caladinha fica mais bonita’. Obviamente naquele momento tive vontade de puxar uma faca e matá-lo, mas não me atrevi porque ele é amigo do diretor, e os dois são famosos.”

Selser esclarece que ouviu dezenas de comentários desse estilo ao longo de sua carreira, sobre seu corpo e sua personalidade, e que por um tempo conseguiram mudar a imagem que ela tinha de si mesma. “É uma constante, essa perfuração, esse martelo, que você não é boa o suficiente, que é melhor calar a boca”, recorda a atriz. “Eu era uma jovenzinha que tomava como verdade tudo o que me diziam: sim, estou gorda, sim, eu falo mais, sim, sou aquela que não tem peitos, mas é uma boa atriz. Nunca fui suficiente para a indústria.”

No canto oposto do continente, no Chile, a atriz de teatro e ativista Andrea Gutiérrez diz que não teria sobrevivido no mundo da televisão por causa desse mesmo controle violento do corpo. “É uma área que acho bonita, mas é super cruel, você tem que ter uma carapaça super dura”, diz Gutiérrez, ex-presidenta do sindicato dos atores chilenos e que escreveu uma tese no ano passado sobre violência de gênero contra atrizes e escritoras.

Em sua pesquisa de mestrado, Gutierrez constatou que “as relações de poder são terreno fértil para a violência psicológica” e que frequentemente são os diretores e produtores que exercem esse tipo de violência contra as atrizes. Mas, além do controle sobre o corpo, existem outras maneiras comuns de atacá-las, como apontá-las constantemente como problemáticas. “Embora minha pesquisa diga que as atrizes têm uma conduta mais profissional do que os homens, no cinema ou no teatro, elas são tachadas de loucas, ou de histéricas ou de problemáticas”, explica Gutierrez.

Ele também encontrou exemplos em que se exigia das atrizes de teatro que cuidassem da limpeza das salas, ou das xícaras de seus colegas, para devolvê-las aos papéis domésticos aos quais o feminino está associado. E ainda, explica Gutierrez, achou casos em que a maternidade feminina é controlada. “Muitos comentários das chefias que se referem à maternidade como algo que limita a carreira das atrizes, que é impossível conciliar, porque vai deformar o corpo delas e ninguém vai chamá-las de novo.”

No centro do continente, na Nicarágua, a rede de mulheres também contou com a presença de Gloria Carrión, diretora de um documentário de sucesso do ano passado, Heredera del Viento. As atrizes “ficam muito mais expostas do que nós, as diretoras”, admite Carrión. “No meu caso, vivi violência moral, machista, como minar a autoridade de alguém. Não é a mesma coisa a que as atrizes estão expostas quando expõem seu corpo, suas emoções diante da câmera.”

Como Luciana Sérvulo no Brasil, Carrión também se viu diante do dilema, como diretora na Nicarágua, de estar em uma posição de poder, mas com colegas relutantes em reconhecê-las como líderes: em duas ocasiões, ela lembra, “minha capacidade de dirigir foi questionada, ou questionam a minha autoridade no set, e isso por ser mulher”. Mas, ainda assim, considera que mais do que focar em casos específicos, a nova rede pode ter um papel de divulgação que nenhuma outra rede de atrizes latino-americanas teve até agora, e que pode responder de forma diferente às preocupações levantadas pelo #MeToo do Estados Unidos em 2017, dando espaço à violência psicológica e não apenas física ou sexual.

“Esta é a primeira vez que vejo um esforço sério no nível latino-americano”, diz Gutiérrez com otimismo. “Fiquei animada em somar minha voz a isso para poder motivar outras mulheres do sindicato a levantarem suas vozes, caso tenham denúncias a fazer, e a transformar esses espaços”.

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