“Quino influenciou a todos nós na América Latina”

Artistas do Brasil, Chile, Colômbia e México destacam a relevância que o argentino teve em suas carreiras profissionais

São Paulo / Bogotá / Santiago / Cidade do México / Buenos Aires - 30 sep 2020 - 22:44 UTC
Homenagem a Quino feita pela cartunista Laerte em 2014.
Homenagem a Quino feita pela cartunista Laerte em 2014.

Laerte Coutinho, de 69 anos, uma das cartunistas mais importantes do Brasil, aprendeu a ler espanhol com as histórias de Mafalda, da mesma forma que aprendeu francês com Asterix. “Conheci a obra do Quino nos anos 1960, quando chegaram ao Brasil as publicações da editora argentina Ediciones de la Flor, e fiquei maravilhada. Tinha 17 ou 18 anos”, conta a artista por telefone. Para ela, a obra de Joaquín Salvador Lavado Tejón, que morreu nesta quarta-feira aos 88 anos em Mendoza (Argentina), foi fundamental para que ela mesma seguisse sua carreira no universo dos cartuns. “Quino influenciou a todos nós na América Latina. Seu trabalho é desses tão originais que qualquer um o reconhece automaticamente, com um simples olhar”.

Apesar de sua obra ser tão reconhecível, Laerte afirma que nunca viu ninguém, por mais que tentasse, reproduzir o traço de Quino ou conseguir construir retratos sociais tão precisos como ele. Ela identifica em Mafalda algo muito diferente dos quadrinhos underground norte-americanos de crítica social e da violência do humor francês, embora suas outras grandes referências sejam o norte-americano Robert Crumb e o humor gráfico do Charlie Hebdo e Harakiri. “Quino nos ensinou que é possível tratar dos problemas de fundo da sociedade e, ao mesmo tempo, retratar nosso entorno, o sujeito da padaria, o vizinho, os amiguinhos dos nossos filhos…”, diz Laerte, referindo-se aos personagens de Mafalda. “É difícil encontrar quem consiga construir um paralelo como esse, sem ser algo tão sanitizado como fazem os norte-americanos”.

“O trabalho de Quino é inalcançável”, define André Dahmer, cartunista de 46 anos que publica na Folha de S.Paulo. Dahmer ficou “desconcertado” e “impactado” ao saber da notícia da morte do argentino, cinco minutos antes de conversar com o EL PAÍS. “Perdemos um mestre, um dos melhores, uma voz que sempre clamou pela humanidade com sua obra muito poética, sem raiva, embora tratasse de temas duros”, afirma.

Dahmer diz que Mafalda é um personagem tão icônico quanto Calvin e Haroldo, de Bill Watterson —“Embora com um inconformismo e uma visão crítica que estes não tinham”—, mas gosta especialmente das obras de Quino anteriores à menina sábia e respondona que ficou conhecida em todo o mundo. Em um de seus cartuns favoritos do argentino (que ele tem pendurado em sua casa), um pai agricultor chama o seu filho e lhe pede que pare de sonhar e ponha os pés no chão, enquanto o menino avança com a colheitadeira pelas nuvens, querendo colher poesia. “Sua arte é gigante”, diz Dahmer.

Outro a quem Quino influenciou diretamente é Sidney Gusman, editor da Mauricio da Sousa Produções, responsável pela Turma da Mônica, a HQ infantil mais famosa do Brasil. “O fato de ele ter colocado seus questionamentos e inquietações com o mundo na boca de crianças é algo assustadoramente talentoso”, comenta.


Gusman destaca a atemporalidade de obras como Mafalda, que deixou de ser publicada originalmente em 1973, mas que continua sendo editada inclusive em livros didáticos brasileiros. “Isso demonstra que Quino sempre esteve à frente do seu tempo. E ele nos fazia primeiro rir para depois chorar ao jogar luz sobre tudo de ruim nas nossas sociedades. O mundo perdeu um grande contador de histórias”, lamenta. Como diz André Dahmer, Quino era “dessas pessoas que deveriam viver para sempre”.

Temas que ultrapassam fronteiras

Trino Camacho, um dos cartunistas mais importantes do México, atribui a universalidade de Quino à sua capacidade de conectar algo muito local (como a realidade portenha de Mafalda) com questões sem nacionalidade. “Ele lidou com questões que são filosóficas do ser, conseguiu criar personagens que hoje, em 2020, ainda nos representam”, afirma. O cartunista mexicano lembra que os livros de Quino chegaram a seu país no final dos anos 1960, quando algumas livrarias importaram as edições argentinas. “Quando li, percebi: é isso que eu quero fazer”, lembra. “Quino foi o nosso Gabriel García Márquez. Acho que ele é o maior cartunista de toda a América Latina”.

O chileno Guillo (Guillermo Bastías Moreno) concorda que Quino traçou um caminho a seguir por várias gerações: “Eu o conheci enquanto estudava arquitetura e descobri uma forma de humor inteligente que me cativou. Na época, eu estava abandonando a arquitetura e me apaixonando pelo ofício de desenhar”, lembra. Amigo de Quino desde os tempos em que trabalhava na revista Apsi, adversário da ditadura de Augusto Pinochet, Guillo confessa sua tristeza pela morte de “uma pessoa boa e talentosa” que tocou em “questões fundamentais da existência humana”.

Para ele, autor de livros como Pinochet ilustrado, Quino foi uma figura fundamentalmente política, "mas de alta política, não partidário, mas interessado em responder a perguntas como ‘Somos felizes?’, Que é a essência do humor gráfico. Quino foi um grande político“. Guille destaca duas qualidades técnicas no trabalho do amigo: “Ele mesclava o talento do texto com o desenho, o que não é comum”.

Quino também foi uma figura poderosa na Colômbia, país que, como disse certa vez seu editor Daniel Divinsky, fundador das Ediciones De La Flor, “tem a honra de ter sido o pioneiro na pirataria de Mafalda”. O humor do argentino chegou oficialmente ao país andino com o jornal El Tiempo entre 1972 e 1973 e, desde então, tem sido guia de cartunistas e ilustradores“. Além de Mafalda, que continua a ser a personagem mais relevante da classe média latino-americana na mídia impressa, os livros temáticos de Quino também tiveram impacto na Colômbia”, afirma Pablo Guerra, ilustrador e editor da Cohete Comics.

“Uma das qualidades de Quino é que suas observações são relevantes em diferentes gerações. Como cartunista, tinha também a enorme capacidade de fazer parecer fáceis desenhos muito difíceis, fazia-os funcionar de forma muito direta e intuitiva, com técnica e linhas brilhantes”, acrescenta Guerra. O colombiano Mario Hernando Orozco (Mheo), aprendeu desenhar, em parte, graças a Quino. “Como cartunista, você sempre começa imitando alguém e, para mim, Quino sempre esteve lá”, diz Orozco, que dá aulas de humor gráfico na Universidade de Pereira. “A primeira coisa que mostro aos alunos da minha turma, como humor gráfico, é um desenho de Quino: me ajuda a explicar como, em uma de suas tiras, o leitor acha que algo vai acontecer e, de repente, sua perspectiva muda completamente. Ele era um mestre nisso, em surpreender”.

Para Orozco, o segredo do sucesso da Mafalda na América Latina foi retratar uma classe média com a qual toda a região se identificasse: um bairro onde se podiam fazer amizades, o sonho de comprar o primeiro carro, uma mãe dona de casa, um pai de escritório que volta para casa cansado. Quino se diferenciava dos cartunistas que desenhavam personagens ou acontecimentos políticos do momento, porque queria encontrar algo mais profundo na experiência do nosso cotidiano. “A sua capacidade de representar, através do desenho, as diferentes posturas em sociedade revela um conhecimento muito profundo da alma humana”, afirma Orozco.

O chileno Alberto Montt, também editado por Ediciones de La Flor, afirma que “a obra de Quino é um convite constante ao pensamento crítico”. “Mafalda começou a aparecer em países que viviam em regime de ditadura. Os poucos que se mudaram foram os atores culturais porque se exilaram e viajaram de país em país com suas obras debaixo do braço”, lembra. Mafalda foi uma das poucas histórias em quadrinhos obtidas no Equador —onde Montt cresceu— e seu pai acreditava que eram tirinhas para crianças. Mafalda veio então a ele “primeiro através de imagens e depois transformou-se em palavras e ideias”. Agora, ele a redescobre com sua filha. “Quino não esperava que você risse do que ele fazia. Na verdade, eu não me lembro de ter rido nenhuma vez lendo Mafalda. O que Quino propôs foi um cavalo de Tróia de ideias”, diz Montt.

Cintia Bolio, cartunista mexicana, também se lembra de ter lido Quino pela primeira vez no final dos anos 1970 e perceber, anos depois, certos ecos no que viveu no México. “Havia certas semelhanças entre o que ele retratava politicamente”, diz Bolio. “Entre aqueles regimes autoritários do sul e, no caso do México, aquelas mais de sete décadas que vivemos [com o PRI no poder]”. Bolio, cartunista feminista, diz que se identificou com Mafalda desde que começou a ler e a desenhar. “Lembro-me de uma tira em que Mafalda lembra as mulheres da antiguidade e diz que só as deixavam ser trapos. O professor tinha uma visão feminista da opressão das mulheres e isso, para mim, tornou-se uma referência".

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