Laerte Coutinho e as duas caras do Brasil

A cartunista virou referência na luta do coletivo transgênero no Brasil

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O medo era justificado. No Brasil, 689 transexuais foram assassinados entre 2008 e 2014, segundo a ONG Transgender Europe. É a cifra mais alta do mundo, de acordo com seus dados, embora a organização não tenha informação sobre todos os países. Nos últimos anos houve melhoras: as cirurgias de redesignação de sexo, proibidas no Brasil até 1997, hoje são feitas em vários hospitais públicos. Também é possível mudar de nome legalmente _na verdade, desde que se comprove algo chamado “transtorno de identidade”. São os paradoxos de um país frequentemente visto de fora como sexualmente liberado: “O Brasil é muito desigual e ambíguo. Convivemos com grandes liberalismos e extremas repressões e agressividade para a população LGBT, as mulheres, os negros, as minorias…”, diz, com as unhas bem feitas, tocando os cabelos e chamando o gato.

Laerte atribui parte da intolerância a uma onda de conservadorismo político que tenta restringir o conceito de família a uniões de homens e mulheres ou tornar ainda mais difícil a interrupção da gravidez (já praticamente impossível de conseguir de forma legal). “Quem esse Congresso representa? Tem a proporção de negros que tem a população brasileira? Não. A proporção de mulheres, de LGBT, de indígenas…? Não. O que existe é um bando de empresários brancos ricos que não representa a sociedade”, ressalta.

Laerte defende sua luta tanto na Associação Brasileira de Transgêneros que ajudou a criar, como na Folha de S. Paulo, onde publica charges diárias, e frequentemente na capa. Em 2013 posou nua na revista Rolling Stone. Um ano antes protagonizou uma polêmica porque uma mulher a recriminou por usar o banheiro feminino de uma cafeteria. O gerente lhe pediu que usasse o masculino. “O banheiro é uma questão crucial. A gente pode até permitir que um transgênero circule no mesmo espaço social, mas o banheiro é tabu. Os conservadores chegaram a propor um terceiro banheiro: para gente estranha. Para alienígenas”, brinca. Soou a resposta de um famoso colunista da revista Veja e Folha, Reinaldo Azevedo, que a acusou de representar as “microditaduras das minorias” e se referiu a ela como “um homem que anda por aí vestido de mulher”.

Em geral, contudo, Laerte é bem recebida. “Tratam-me com muito respeito e carinho. Surpreende-me muito constatar isso em um país que mata travestis de forma bárbara e trata as mulheres de forma bárbara. Penso: sou uma privilegiada porque sou branca, jornalista, conhecida? Quando fiz a transição estava em meu momento de maior popularidade. E não perdi leitores”. Converteu-se na cara da comunidade transgênero no Brasil. “É importantíssimo que existam modelos positivos. Eu nunca os tive quando jovem. Existir de forma tranquila, assumindo identidades antes proibidas, é transgressor e produz resultados”, afirma.

Ainda muitos a tratam por ele, mas não se incomoda muito. “Meus filhos e meus amigos de décadas usam o masculino. Não tenho problemas porque são pessoas que amo, com quem tenho uma história. Não sinto a necessidade de dizer: ‘de agora em diante meu nome é Sônia”. O nome foi escolhido em 2009, sem pensar muito, olhando-se no espelho. Mas o deixou de lado, em parte porque seu público a conhece como Laerte. “Não deixei de ser o que sempre fui. Sou conhecida como um cartunista, um jornalista até os 60 anos e depois uma mulher, uma pessoa transgênero que também é jornalista e cartunista. Não me incomoda minha história masculina. O que tenho é um grande apreço por minha identidade feminina. Cada vez mais”.

Descobriu sua identidade em 2004 através de seu trabalho. Publicou uma charge onde um homem maquiado, de salto alto, dizia: “Às vezes um cara tem que se montar”. Uma leitora lhe disse que, caso a charge fosse autobiográfica, existia um lugar onde podia experimentar, o Brazilian Crossdresser Clube, que Laerte frequentou por alguns anos. Foi mordida pela curiosidade. “Bendita Internet”, suspira. Com o tempo passou do crossdressing (vestir-se com elementos normalmente associados a outro gênero) a assumir-se como trans. Mas opina que os rótulos não devem limitar porque “a cultura de gêneros é opressiva para homens e mulheres”. Aos 64 anos continua descobrindo a si mesma. “Como me construo, como me apresento, quanta mulher sou e que tipo de mulher sou… Essas perguntas não têm fim”.

Correção

A primeira versão desta texto continha problemas de edição, com frases erroneamente atribuídas à cartunista.