História

Retorno às rotas do comércio de pessoas escravizadas que moldaram o Brasil

Um fotógrafo e um historiador rastreiam as marcas deixadas pelo tráfico de pessoas na África. O resultado se transformou em um livro e, agora, em uma série documental para TV

Cela no Castelo de São Jorge da Mina, em Gana, que foi utilizada para confinar negros escravizados.
Cela no Castelo de São Jorge da Mina, em Gana, que foi utilizada para confinar negros escravizados.CESAR FRAGA

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Nos países do oeste da África, venera-se uma ave mitológica, chamada sankofa, que tem a cabeça virada para trás, símbolo de que é preciso retornar ao passado esquecido para recuperá-lo. No caso dos brasileiros César Fraga, fotógrafo, e Maurício Barros, historiador, seu retorno aos ancestrais consistiu em reconstruir quatro rotas do período do comércio de escravos no Atlântico, que sangraram o continente africano no século XVIII. Seu registro da memória de um dos capítulos mais vergonhosos da humanidade se plasmou em 4.000 fotos e uma viagem de 60 dias por nove países, narrada no livro Do outro lado (editora Olhares, 2014), que depois virou uma exposição e, agora, uma série documental de TV, chamada justamente Sankofa – A África que te habita, exibida no Brasil pelo canal Prime Box.

No caso de Fraga, a experiência foi também um rastreamento de seu próprio passado como descendente de africanos trazidos para o Brasil. “Cresci ouvindo as histórias que minha mãe contava da sua avó materna, uma mulher que só não foi escravizada porque nasceu justamente depois da abolição no Brasil. Então eu tinha uma profunda curiosidade de conhecer mais da realidade africana além do que está nos livros de história”, diz por e-mail.

Com Barros como guia, Fraga fotografou a ocre Casa dos Escravos, na ilha senegalesa de Gorée, de onde partiam os navios negreiros. Também o antigo castelo de São Jorge da Mina, em Gana, usado para confinar escravizados. “O edifício mantém dúzias de celas. Uma delas era para os rebeldes. Ali eram atirados, sem luz, água, nem comida, para que seus gritos servissem de lição aos outros prisioneiros. De vez em quando se a porta era aberta, os cadáveres eram retirados, e outros negros eram jogados lá dentro”, relata o fotógrafo. Já Barros, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, relembra como no Castelo de Cape Coast, também em Gana, se depararam com “uma procissão musical e de dança que entrou no castelo e desceu até os calabouços onde os africanos eram encarcerados”. “Lá celebraram um ritual junto a um altar onde havia rastros de sacrifícios de animais.”

No arquipélago de Cabo Verde pisaram na praça da Cidade Velha onde os negros capturados eram castigados para infundir terror, como recorda o seu pelourinho. Na cidade angolana de Malanje procuraram os rastros da rainha Ginga, uma guerreira que batalhou contra as potências coloniais. O périplo os levou em Ouidah (Benim) à casa do Chachá, “um ex-escravo brasileiro que se tornou um dos grandes traficantes de seres humanos”. “A memória material do tráfico de escravos para o Brasil continua de pé”, afirma Fraga.

Esses lugares são hoje também atração turística, motivo pelo qual sofreram importantes intervenções. Entretanto, Barros observa que estas modificações geraram um grande debate nesses países. “Deve-se modernizar estes espaços e adaptá-los aos padrões museológicos, ou devem ser mantidos intactos, para que os visitantes possam ter uma dimensão da trágica experiência que acolheram?”. Para o historiador, deixá-los tal como estão “é impossível”. “Mais importante é assegurar sua condição de patrimônio material e imaterial”, diz. Entretanto, em Angola, chamou a atenção do fotógrafo “o abandono completo do patrimônio histórico”. “Um arqueólogo me disse que não havia nenhum apoio do Governo, como se este quisesse ocultar esse passado doloroso.”

As principais potências europeias do comércio escravista “eram Grã-Bretanha, Portugal, França e o Holanda”, observa o historiador. Capturaram e transferiram em condições sub-humanas milhões de pessoas para trabalhar em lavouras de toda a América. “No começo do século XIX, a Grã-Bretanha aboliu a escravidão e pressionou outros países a fazerem o mesmo. Era mais por interesses comerciais que humanistas, já que com a Revolução Industrial o complexo processo da mão de obra escrava começou a ser menos interessante economicamente.”

Os descendentes na África daquelas pessoas que foram escravizadas receberam os dois brasileiros como se fossem da família. “Na Guiné-Bissau me apresentei a um grupo de jovens sentados em círculo num gramado. Um deles me disse: ‘Já que somos irmãos, você vai comer com a gente’. Então, uma mulher pôs um tigela de arroz no centro e todos comemos com as mãos”, conta Fraga. Também entraram nas casas e rituais, embora o fotógrafo documentarista admita que o começo foi complicado, até que tenha lhe ocorrido pronunciar uma frase que lhe abriu muitas portas: “Meu sangue é o seu sangue”.

Fraga acredita que trabalhos como este deveriam servir para a luta no Brasil contra “o persistente ambiente discriminatório contra os afrodescendentes”. “Este cenário é um obstáculo ao nosso progresso”, acrescenta. E relembra uma palestra que deu a estudantes numa das maiores favelas de São Paulo. Fraga perguntou aos jovens quantos se sentiam descendentes de africanos. “Para minha surpresa, muito poucos levantaram a mão.” Entretanto, meses depois recebeu uma carta de uma professora da escola em que lhe dizia que suas palavras tinham despertado em muitos de seus alunos “o orgulho de sua ascendência afro”.

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