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Cais do Valongo, patrimônio mundial no Rio para não esquecer o horror da escravidão

Local escolhido pela Unesco, na região portuária carioca, foi porta de entrada de escravos

Cais do Valongo, no centro do Rio.
Cais do Valongo, no centro do Rio. Agência Brasil

O Sítio Arqueológico Cais do Valongo, localizado na zona portuária do Rio de Janeiro, ganhou neste domingo o título de Patrimônio Mundial da UNESCO. O lugar foi o principal porto de entrada de escravos africanos no Brasil e representa a exploração e o sofrimento das pessoas que foram trazidas à força ao país até meados do século XIX. O título joga luz sobre um passado de escravidão que deixou como herança uma profunda desigualdade social entre brancos e negros e um racismo estrutural nem sempre reconhecido.

"O Cais do Valongo é um local de memória, que remete a um dos mais graves crimes perpetrados contra a humanidade, a escravidão. Por ser o porto de desembarque dos africanos em solo americano, o Cais do Valongo representa simbolicamente a escravidão e evoca memórias dolorosas com as quais muitos brasileiros afrodescendentes podem se relacionar", disse em nota o Itamaraty, que expressou a "satisfação" do Governo brasileiro com a notícia. A atual secretária de Cultura do Rio, Nilcemar Nogueira, escreveu em seu Facebook que o título é "uma etapa essencial para o reconhecimento de uma memória que precisa ser revelada e, principalmente, reparada". Para Nogueira, que forma parte da delegação brasileira que viajou até a Polônia para defender a nomeação, "este momento marca o início de uma nova fase em relação ao reconhecimento de uma história que, por muitas décadas, esteve nos subterrâneos do que oficialmente conhecemos do nosso país". O ex-prefeito do Rio, Eduardo Paes, também celebrou a notícia em seu Instagram: "Que a história da Diáspora Negra seja sempre lembrada. Que as origens de nosso país, de nossa formação e de nossa cultura possam ficar marcadas. Que a violência dos homens possa ser sempre recordada para que não se repita".

O Cais do Valongo foi encontrado em 2011 durante as escavações feitas para a reforma da zona portuária. Segundo o antropólogo Milton Duran, suas ruínas são os únicos vestígios materiais da chegada dos africanos no país. O acadêmico foi um dos coordenadores da candidatura, que envolveu a Prefeitura do Rio e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e foi apresentada no final de 2015 – o Brasil detém o título para outros 20 locais, entre eles Brasília e Ouro Preto. "Esse Sítio Arqueológico é único pois representa os milhões de africanos que foram escravizados e que trabalharam para construir o Brasil como uma nação, gerando a maior população de negros fora da África no mundo", disse Kátia Bogéa, presidenta do IPHAN. O Executivo municipal prometeu uma comemoração no local nesta segunda-feira, a partir das 16h.

Ao ser nomeado patrimônio mundial, o Cais do Valongo foi colocado no mesmo patamar que outros lugares reconhecidos pela UNESCO como locais de memória e sofrimento, como um memorial em Hiroshima, no Japão, e o Campo de Concentração de Auschwitz, na Polônia. A nomeação exige que as autoridades brasileiras assumam determinadas responsabilidades. "A UNESCO recomenda que o Brasil adote ações especificas para a gestão dos vestígios arqueológicos, para a execução de projetos paisagísticos e para que os visitantes possam ter uma visão holística sobre o Cais do Valongo e o que ele representa", reconheceu o Itamaraty. "Tais medidas, que contribuirão para a preservação deste importante patrimônio cultural brasileiro, deverão ser implementadas pelos governos federal, estadual e municipal, em coordenação com a sociedade civil e as comunidades envolvidas".

Pequena África

Construído no final do século XVIII, o Cais do Valongo está localizado na região conhecida como Pequena África, que fica na zona portuária do Rio, no centro da cidade. Além de ter sido porta de entrada de milhões de africanos no Brasil, a região portuária foi também o ponto de encontro da comunidade negra na então capital. Com as leis assinadas em meados do século XIX que proibiam o tráfico de pessoas e a abolição da escravidão, referendada em 1889, milhares de negros, muitos vindos de outras partes do país, se instalaram na região, em bairros como Gamboa e Saúde, e se espalharam pelos seus arredores. Foi nessa mesma área central da cidade que o samba foi sendo lapidado até se transformar no gênero musical conhecido hoje, segundo historiadores.

O cais foi soterrado por uma reforma urbana do início do século XX, assim como boa parte da história da comunidade negra no centro do Rio ao longo do tempo. Foi finalmente redescoberto durante as obras no porto levadas a cabo nos últimos anos. Com a construção do Museu do Amanhã no píer Mauá, muitos cobraram que a Prefeitura aproveitasse a reforma da região para  também resgatar e valorizar a história dos negros que por ali passaram. Em junho deste ano, a Agência Pública lançou o aplicativo Museu do Ontem com o objetivo de revisitar este passado. Sob a gestão de Marcelo Crivella, o Executivo começou a debater neste ano a construção de um museu da escravidão em local próximo ao Valongo.

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