Caça por testes de anticorpos após Coronavac leva a falsos resultados sobre proteção e prejudica imunização do país

Até profissionais da saúde abraçaram a febre de exames que, na prática, não conseguem mensurar a proteção individual de vacinados. Ação estimula busca por terceira dose sem endosso das autoridades sanitárias do país, atrasa imunização geral e alimenta a desinformação sobre vacinas

Posto de vacinação contra a covid-19 em São Paulo.
Posto de vacinação contra a covid-19 em São Paulo.Sebastiao Moreira (EFE)

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Uma ideia tem soado atrativa em muitos grupos de profissionais da saúde brasileiros no WhatsApp: realizar testes laboratoriais de anticorpos neutralizantes para saber o nível de proteção adquirida após a segunda dose da vacina contra a covid-19. Mas, se o intuito é fazer o exame em busca de alguma tranquilidade para quem está na linha de frente da pandemia, na prática esta febre vem causando mais receio com resultados lidos de maneira errada. Embora estes exames tenham baixa eficácia e não sejam capazes de estimar qual é a proteção clínica individual dos imunizados com duas doses, são muitos os relatos de pessoas que, com base neles, acharam que haviam perdido a proteção poucos meses depois de tomar a vacina. A ação tem potencial de causar efeitos colaterais à estratégia nacional de imunização ao estimular a busca pela terceira dose sem endosso das autoridades sanitárias do país, atrasar a imunização geral da população e alimentar a desinformação sobre a eficiência das vacinas, especialmente a Coronavac.

Um médico que trabalha na linha de frente em hospitais do Ceará e que pediu para não ser identificado na reportagem conta que, sob o estímulo de colegas da saúde, fez o exame de anticorpos neutralizantes poucas semanas após receber a segunda dose da Coronavac. Celebrou o resultado superior a 90%, mas três meses depois a injeção de ânimo se esvaiu. O médico refez o teste para saber qual a proporção ainda tinha destes anticorpos com a capacidade de neutralizar a entrada do vírus nas células. Desta vez, os resultados apontaram um nível “praticamente zerado”. O “susto” o fez considerar até tentar uma terceira dose na xepa da vacina, mas depois de conversar com colegas e pesquisar sobre o assunto, entendeu que anticorpos não são a única proteção gerada pelas vacinas e que o resultado daquele teste não significa que ele está suscetível ao vírus. “Fiquei com muito medo de estar desprotegido porque trabalho na linha de frente. Tomo os cuidados e uso máscara, mas tenho contato diário com o vírus e fui tentar entender”, diz.

Conforme especialistas, este tipo de exame é inadequado para tirar qualquer conclusão ―seja ela positiva ou negativa― sobre o grau de imunidade gerada pelas vacinas em uma pessoa. Isso porque ele mede apenas um dos vários componentes de um sistema de proteção complexo: os chamados anticorpos neutralizantes. E a ciência ainda não sabe responder sequer qual a quantidade dessas moléculas que seria necessária para garantir uma proteção clínica. O exame também não avalia, por exemplo, outra parte importante da resposta imunológica humana, que é a capacidade que a vacina dá às células de defesa de aprenderem a identificar o micro-organismo invasor (no caso, o coronavírus) e mobilizar outras células para atacá-lo.

“Não faz sentido querer estimar a proteção de vacinas usando este teste de anticorpos. Você só vê um componente de uma resposta [imunológica], que é complexa e diversa”, afirma a biomédica Mellanie Fontes-Dutra. Segundo ela, não é possível garantir que este teste ―genérico― mensure a produção dos anticorpos específicos estimulados pela tecnologia da vacina aplicada no usuário. E, até o momento, a ciência não tem dados robustos para responder quanto tempo dura a proteção dos imunizantes contra a covid-19. “É natural uma queda da primeira onda de anticorpos, mas isso não significa que a defesa diminuiu. A resposta foca também na formação de células de memória. Isso significa que, caso a pessoa seja exposta depois ao vírus, o corpo dela tem uma memória que vai permitir a produção de uma nova onda de anticorpos de forma potente e mais rápida”, detalha a biomédica.

Fraudes em busca da terceira dose por ‘sommeliers de vacina’

Se por um lado os testes de anticorpos são ineficazes para dar respostas sobre o nível de proteção individual, por outro a disseminação de seus resultados tem gerado efeitos colaterais à estratégia nacional de imunização. Isso porque, ao julgarem que estão desprotegidas, há pessoas burlando as regras para tomar uma terceira dose de marcas de vacinas que acreditam ser “melhores”. O ato configura como fraude neste momento em que doses de reforço não são endossadas pelas autoridades sanitárias brasileiras e pode atrasar a imunização geral da população. Até agora, pouco mais de 16% dos brasileiros conseguiram tomar as duas doses necessárias para completar o esquema vacinal.

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Um exemplo deste problema é o caso da veterinária que tomou a vacina da Janssen em Guarulhos em junho, três meses depois de já ter sido imunizada com as duas doses da Coronavac. Nas redes sociais, ela contou ter buscado um posto de saúde da cidade sem um sistema online para tomar outro imunizante contra a covid-19 sob o argumento de estar “incomodada” com a “vachina”, uma referência pejorativa ao imunizante da Sinovac. A suposta fraude praticada pela veterinária está em investigação e ilustra um problema replicado no país. Segundo um levantamento feito pela Universidade Federal de Alagoas com dados do Ministério da Saúde, há registros de que 29.570 pessoas receberam pelo menos três doses de vacinas. Os dados podem ter discrepâncias e não necessariamente são todos relacionados a fraudes, mas dão um norte sobre esta questão que contribui para o atraso da vacinação de milhares de brasileiros que ainda aguardam para receber a primeira dose.

Desinformação e ataques à Coronavac

A divulgação dos testes de anticorpos também tem servido de combustível para as notícias falsas sobre as vacinas ―especialmente contra a Coronavac, a primeira aplicada no país e que foi majoritariamente usada em profissionais de saúde do primeiro grupo prioritário da campanha de vacinação no Brasil. A eficácia da vacina desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Butantan sofre questionamentos há meses em meio à disputa política entre o presidente Bolsonaro e o governador paulista João Doria. Nesta semana, teorias contra o imunizante voltaram a gerar burburinho com a publicação de um vídeo pelo médico e ex-vereador da cidade mineira Divinópolis, Delano Santiago, dirigido aos quase 1 milhão de seguidores que ele tem no Instagram.

Santiago cobrava o “direito” de tomar uma nova vacina sob o argumento de que havia recebido as duas doses da Coronavac e, seis meses depois, já não tinha anticorpos. Embasava sua teoria em resultados dos tais testes já refutados por especialistas. “Não adquiri anticorpos (...) 10% de resultado, quando deveria ter dado acima de 20 ou 50%”, reclamou. As autoridades sanitárias locais precisaram se apressar em uma resposta para reduzir os possíveis danos da publicação. A Prefeitura emitiu uma nota explicando que estes exames não são capazes de medir a proteção individual de nenhum imunizante. Lembrou ainda que a própria Agência Nacional de Vigilância Nacional (Anvisa) esclarece em uma nota técnica que, até o momento, não existe qualquer definição da quantidade mínima de anticorpos neutralizantes que seria necessária para conferir proteção imunológica contra a infecção pelo coronavírus.

Proteção das vacinas depende de uma estratégia coletiva

A eficácia e a efetividade dos imunizantes são determinadas por meio de estudos clínicos realizados na população. No caso da Coronavac, os primeiros resultados do ensaio clínico realizado na cidade paulista de Serrana atestam a segurança e a eficácia da vacina no mundo real e mostra capacidade de redução de casos sintomáticos em 80%, e de internações em 86%. Diante dos ataques direcionados há meses contra a Coronavac, o governador João Doria fez questão de lembrar que é esta a vacina mais aplicada no Estado de São Paulo quando anunciou a queda de 46% na letalidade de pacientes hospitalizados por covid-19 entre março e julho deste ano. “A melhor forma de preservar vidas é com a vacina, e foi o que aconteceu. Principalmente entre os idosos acima dos 70 anos, que já tomaram a primeira e a segunda dose da vacina. A maioria dos vacinados, 80% com duas doses, tomaram a vacina do Butantan”, afirmou o governador.

Mas estudos ainda estão em curso e há uma discussão em vários países de uma eventual necessidade de terceira dose de vários tipos de vacina contra a covid-19 para garantir uma proteção mais prolongada. Vários laboratórios estão fazendo testes para avaliar esta necessidade, inclusive no Brasil, como por exemplo a Pfizer. Por enquanto, o Instituto Butantan não considera a aplicação de uma dose de reforço da Coronavac, apesar deste passo ter sido sinalizado recentemente no Chile. Pesquisadores do país recomendaram nesta quinta (16) a aplicação de uma terceira dose do imunizante chinês ao identificarem queda nos anticorpos seis meses após a vacinação. Ainda não foram divulgados, porém, os dados detalhados que motivaram a recomendação. “Não podemos afirmar que a imunidade dura seis ou oito meses ainda. Imagino que este estudo seja para aumentar a resposta imunológica e tentar agir para evitar a infecção e controlar a transmissão. Mas eles não deixaram claro”, afirma Fontes-Dutra.

Enquanto a ciência não bate o martelo sobre essa questão, o Ministério da Saúde segue com a orientação de que o esquema vacinal deve ser completado com duas doses da mesma vacina (com exceção da Janssen, recém-chegada no país e cuja aplicação ocorre em dose única). Os brasileiros que porventura sejam vacinados com imunizantes de farmacêuticas diferentes ou com quantidade de doses superior às recomendadas devem ser notificados como um erro de imunização e efeitos adversos neles devem ser acompanhados. Com dezenas de casos de fraude pela terceira dose em investigação no país, os que comprovadamente burlaram o sistema podem ter de pagar uma multa de até 100.000 reais e devem responder também criminalmente.

Enquanto muitos nutrem uma preocupação em reforçar sua proteção individual, a enfermeira epidemiologista Ethel Maciel lembra que não há como de fato estar protegido com tanta gente ainda suscetível ao vírus. Ela afirma que não há evidências científicas sobre a necessidade da terceira dose neste momento e que a proteção por meio das vacinas depende de uma estratégia coletiva. Cientistas estimam que é preciso chegar a pelo menos 70% de toda a população vacinada para atingir uma imunidade de rebanho. “As vacinas são eficazes. O que falta pra gente agora é diminuir a transmissão, o número de pessoas infectadas por dia e tornar o cenário mais controlado e mais seguro. E aí mesmo vacinas com eficácia menor acabariam protegendo mais”, explica Maciel. O problema é que o Brasil ainda tem uma alta taxa de contágio e muita gente ainda na fila esperando sua vez de tomar a primeira dose da vacina.

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