Nova York reinventa a vida em suas ruas

Sacudida pela pandemia, pela ausência de turistas e pelo êxodo no seu centro financeiro, a cidade encara a reabertura com enormes incógnitas, mas aprendeu algumas lições. Seus moradores conquistam espaços, aproveitam ruas sem carros e exercem uma nova solidariedade vinculada aos bairros

O Central Park, cheio de gente aproveitando o final de semana no último dia 15 de maio.
O Central Park, cheio de gente aproveitando o final de semana no último dia 15 de maio.Cole Wilson / EPS

Esta reportagem começa com um lanche. Em frente a pedaços do que é, segundo dizem, o melhor strudel da cidade, Hayfa Bachus, bioquímica aposentada, e Basiliki Siuti, dona de um salão de beleza, discutem nas mesas externas de uma confeitaria do Upper West Side se a pandemia modificou o espírito nova-iorquino. “Agora é tudo carpe diem, ninguém mais faz planos”, queixa-se Siuti, sorvendo um capuchino. “As pessoas estão mais solidárias, o sofrimento nos tornou mais empáticos”, rebate Bachus. As amigas se distraem aos domingos nestas mesas, instaladas no meio do asfalto graças à iniciativa municipal Open Streets (“ruas abertas”), uma ação emergencial, relacionada à pandemia, que interrompe o tráfego em dezenas de ruas – uma centena de quilômetros ao todo – para favorecer o consumo ao ar livre em bares e restaurantes. A chegada abrupta de uma potente moto que estaciona ao seu lado faz Bachus e Siuti recriminarem a conduta do motociclista. O gesto de repreensão parece inaudito numa cidade e num país que se caracterizaram pelo respeito (ou indiferença) pela liberdade do outro.

Mais informações

“É que a gente rapidamente se acostuma ao que é bom”, brinca Bachus sobre a calmaria das ruas sem tráfego. Porque neste momento uma das chaves para a cidade – que foi o epicentro da pandemia nos EUA em março de 2020 – será verificar se as agruras e restrições ao longo de mais de um ano terão valido a pena, se a cidade ganhará em habitabilidade, ou se o retorno à normalidade significará mais do mesmo: congestionamento, barulho, inacessibilidade. As ruas cheias de gente passeando ou aproveitando o brunch, de jogos de amarelinha e meninas com sainhas de libélula, ou a dança dos patinetes, sibilantes como serpentes, parecem indicar que os nova-iorquinos não querem recuar. Erwin Figueroa, diretor da Transportation Alternatives, uma organização parcialmente responsável por convencer a prefeitura a aprovar uma lei que torna permanente o programa Open Streets, diz que este momento é crucial. “Não podemos voltar ao de antes, ao excesso de tráfego, com alto índice de acidentes e quase sem alternativas de transporte mais sustentáveis”.

E continua: “É agora que devemos reivindicar o espaço público. Os pedestres dispõem de apenas 24%, que são as calçadas; as ciclovias representam 0,93%, mas se trata também de dar mais opções de transporte aos cidadãos, não só a bicicleta, também meios coletivos eficientes. A mensagem é clara: os motoristas não podem ser os únicos usuários da cidade”. Figueroa argumenta que, nesta metrópole com um milhão de milionários e dezenas de milhares de sem-teto, “décadas de desigualdade forjaram identidades públicas desiguais”.

O exemplo da open street na avenida 34 em Elmhurst (Queens) reflete como a vida dos moradores mudou. Administrada por 150 voluntários, esse calçadão se estende por 26 quarteirões e um amplo boulevard, e é a única que funciona sete dias da semana, das 8h às 20h, com o uso de barreiras portáteis que os voluntários colocam e retiram a cada 12 horas. Rita Wade, voluntária-sênior, diz que a avenida 34 é o exemplo mais relevante de rua aberta, porque está na região com menos áreas verdes da cidade em proporção ao número de habitantes. Também foi um dos epicentros do vírus.

Sessão de Yoga no terraço do The Edge, o mirante mais alto de Manhattan.
Sessão de Yoga no terraço do The Edge, o mirante mais alto de Manhattan. Michael George / EPS

Hoje, aulas de idiomas e de dança, brincadeiras e corridas infantis e até uma assessoria jurídica gratuita para os moradores afetados por despejos – uma das consequências ruins da pandemia – coexistem na avenida 34, que, diferentemente das demais ruas abertas, não foi destinada aos consumidores – não há bares nem restaurantes –, e sim aos cidadãos.

Nova York é a quintessência do contraste, quando não da contradição: um bairro progressista que pressiona pelo fechamento de um hotel transformado em albergue para indigentes; uma legião de voluntários que cuida com esmero dos jardins, mas trata ao próximo com desdém; lojas de luxo para animais domésticos em frente à qual dormem moradores de rua; o fechamento de uma torre futurista após vários suicídios motivados pela falta de futuro… Um formigueiro frenético, de seres em busca de quimeras ou do ganha-pão, que exige movimento contínuo, como um ciclista para não cair da bicicleta. Por isso, meses atrás causava estupor ver a Times Square sem carros, as calçadas das grandes avenidas de Manhattan sem o exército de funcionários de escritório engolindo sanduíches enquanto caminham apressados, os neons da Broadway apagados, com a poeira se acumulando nos cartazes. O trânsito em todas as suas formas – tráfego, azáfama, turismo – define a cidade e a alimenta ao mesmo tempo em que a consome.

Inna Zelikson vive do fluxo de viajantes na bela estação Grand Central. Dona com sua irmã de uma simpática joalheria numa das galerias comerciais, teve dias em que pensou em jogar a toalha, quando seu negócio era o único aberto naquele espaço. “Antes tínhamos três turnos de funcionários para atender a loja e abríamos todos os dias. A cada dia 750.000 pessoas passavam pela estação, mais de um milhão de turistas por ano. Depois do confinamento, parecia um cemitério. Muitos dias me perguntei o que estava fazendo aqui sozinha, atrás do balcão”. As dificuldades para pagar o aluguel – hoje reduzido a 20% dos 12.000 dólares (104.500 reais) que desembolsava antes da pandemia – já são história diante da atual perspectiva de futuro. “Não sei se a cidade vai ficar melhor ou pior do que antes, mas sim diferente, e demorar até recuperar sua força. Mas sou otimista, não só pela reincorporação das pessoas aos escritórios, mas também pela volta dos turistas. Todo mundo está desejando voltar a Nova York porque é a cidade. O mundo tem os olhos voltados para nós. E nós cumprimos, seguimos as pautas sanitárias, nos vacinamos: nada pode dar errado.”

Apesar de os distritos de Queens e Brooklyn terem sofrido com maior virulência o desafio da covid-19 – caminhões-frigoríficos ainda conservam em um píer do Brooklyn os corpos de 750 vítimas não identificadas –, é Manhattan, e especialmente as áreas do Midtown e Lower Manhattan, epicentro financeiro, que mostra as cicatrizes mais visíveis: uma fileira de pontos comerciais para alugar e milhares de escritórios vazios. O Hudson Yards, maior intervenção urbanística feita com capital privado, chegou à beira da falência. Nem sequer a sofisticada imagem de iogues madrugadores se esticando como gatos na cobertura do The Edge, um dos mirantes da cidade, consegue ocultar a ameaça de ruína que se abate sobre a carapaça mais luxuosa de Nova York, tão aparente que pode levar a crer que tudo é esplendor e luxo, e não a sujeira e os ratos que também coexistem a alguns metros.

Os preços dos escritórios desabaram em Manhattan, uma ilha que dependia vitalmente de 1,6 milhão de transeuntes por dia, e nunca houve tanto espaço disponível: 16,4%, bem mais do que depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 ou da Grande Recessão de 2008. A transformação será evidente: se o teletrabalho se consolidar como opção prioritária, muitas colmeias de aço e vidro continuarão desocupadas. Kenneth T. Jackson, historiador da cidade e professor emérito da Universidade Columbia, especula por telefone que “a tendência do teletrabalho continuará, mas não tão forte, porque somos seres sociais e necessitamos uns dos outros. É provável que um grande número de escritórios vagos não tenha como ser alugado em três ou quatro anos, mas acabará sendo; pode ser que parte se destine a uso residencial, e que Manhattan custe um pouco mais a se recuperar que o resto da cidade, talvez só em 2022 ou 2023”. Jackson salienta a capacidade de resistência de Nova York. Há motivos para o otimismo, afirma: “Dos 450 bairros que compõem oficialmente a cidade, alguns já voltaram completamente à normalidade”.

No Queens, diversas vias estão fechadas para os carros. Há aulas de idiomas e de dança, brincadeiras e corridas infantis e até uma assessoria jurídica gratuita.
No Queens, diversas vias estão fechadas para os carros. Há aulas de idiomas e de dança, brincadeiras e corridas infantis e até uma assessoria jurídica gratuita. Michael George / EPS

Numa rua ao sul do Central Park, o restaurante de Maria Loi registrava uma atividade inusitada antes mesmo da suspensão das restrições na cidade, em 19 de maio. Filantropa, divulgadora e apresentadora de programas culinários na televisão, Loi fez do seu estabelecimento o espaço de comunhão de um bairro arrasado pela escuridão e o medo. Não fechou nem um só dia, embora não abrisse para o público, e a cozinha preparava “600 refeições diárias, às vezes até mil, para os funcionários dos hospitais; depois para os sem-teto e para os que perderam sua renda devido à pandemia”, conta. A prefeitura lhe deu um prêmio como agradecimento por sua contribuição, mas Loi diz que para ela o melhor reconhecimento é alimentar as pessoas. “Não faço nada diferente do que fazia antes”, afirma a chef. “Uma das lições da pandemia é termos percebido como somos interdependentes”, acrescenta. Ela se diz otimista. “Acredito que a sociedade será melhor, que as pessoas perceberam que o individualismo não leva a lugar nenhum. Também nos fez redescobrir a importância da natureza. A sociedade, em geral, está agora mais solidária e mais conectada com o entorno.” Ela diz que, por precaução, não permitirá lotação completa no seu restaurante, embora já pudesse fazer isso desde 19 de maio. Sobre o fim das restrições, adverte: “Nova York não funcionará 100% enquanto a Broadway não reabrir”.

Essa rua dos teatros, que antes da pandemia trazia 11,5 bilhões de dólares por ano para a economia da cidade – sendo oito bilhões em gastos em restaurantes, hotéis, lojas e táxis, segundo a entidade setorial The Broadway League –, é o espinho cravado na recuperação. Os turistas, que eram 65% de seus espectadores, ainda não retornaram. Os teatros só reabrirão em meados de setembro, devido à dificuldade das montagens e à necessidade de adotar medidas de segurança nas salas. A paralisação obrigou seus 1.100 profissionais a se reinventarem como só um nova-iorquino sabe fazer: com uma completa virada no roteiro.

Anne Brummel estava em turnê com uma produção de My fair lady quando a pandemia eclodiu. Com seu marido, também ator, um filho de um ano e dois cachorros, viu-se repentinamente sem trabalho e sem saber quando voltariam a pisar em um palco. “No verão [terceiro trimestre de 2020] comecei a ver nas redes sociais como muitos colegas anunciavam pequenos negócios, e achei que seria uma boa ideia criar um site que agrupasse todos eles”, afirmou. Brummel lançou em tempo recorde o The Broadway Merchant Collective, que hoje representa 80 profissionais da Broadway transformados em empreendedores. “Tem de tudo, de estilistas de roupa infantil até cervejeiros artesanais, e crescendo. Meu marido e eu queremos voltar aos palcos, mas, sendo realistas, acho que vai demorar. Nova York depende muito do turismo”, diz.

Da esquerda para direita, em sentido horário: Emmanuel Abreu, cofundador de uma livraria comunitária em Washington Heights; a chef Maria Loi em frente ao seu restaurante, que serviu comida a agentes de saúde e moradores de rua nos tempos mais duros da pandemia; Inna Zelikson em sua joalheira na estação Grand Central e Erwin Figueroa, da Transportation Alternatives.
Da esquerda para direita, em sentido horário: Emmanuel Abreu, cofundador de uma livraria comunitária em Washington Heights; a chef Maria Loi em frente ao seu restaurante, que serviu comida a agentes de saúde e moradores de rua nos tempos mais duros da pandemia; Inna Zelikson em sua joalheira na estação Grand Central e Erwin Figueroa, da Transportation Alternatives.Michael George / EPS

Jackson concorda que o turismo será decisivo para a recuperação. “Antes da pandemia éramos visitados por 67 ou 68 milhões de pessoas por ano; também os jovens, porque esta sempre foi a cidade das oportunidades”, observa. Mas jovens Emmanuel Abreu, fotógrafo, cinegrafista e sócio fundador de uma livraria comunitária em Washington Heights, um bairro de migrantes ao norte de Manhattan, afirmam que iriam embora – “para a Carolina do Norte, por exemplo” – se tivessem boas opções de trabalho. “Lá pagaria 400 ou 500 dólares por mês num apartamento grande”, conta Abreu junto a pilhas de livros herdados de voluntários perdidos para a pandemia.

“Neste bairro vimos pessoas literalmente famintas, contribuímos para bancos de alimentos; depois oferecemos o espaço para fazer exames de covid… foi uma experiência muito dura, que mostrou a verdadeira cara das pessoas. A recuperação será de longo prazo, porque a pandemia causou uma verdadeira frustração e demonstrou que o American way of life precisa se reajustar, que o que chamam de Nova York é uma coleção de grupos díspares”. A livraria que o jovem Abreu ajuda a gerenciar oferece aulas de alfabetização, música, livros grátis, informação…, uma acolhedora rede social para um bairro exausto. Mas ele, como cidadão, percebe uma sensação coletiva de desconfiança. “Abrir tudo? Acho otimista demais, porque as pessoas não têm dinheiro para gastar. Para se divertir tudo bem, mas ficar nesta cidade não faz nenhum sentido, porque ela tira o sangue.”

O temido repique inflacionário quando a economia alcançar velocidade de cruzeiro preocupa muita gente numa cidade de preços proibitivos. Antes da pandemia, 2.600 nova-iorquinos iam embora a cada semana por não conseguirem arcar com o custo da vida – sobretudo da moradia –, segundo o Escritório do Censo dos EUA. A nova normalidade significará novamente aluguéis astronômicos, ou a lição do excesso foi aprendida? Estará a gentrificação à espreita?

Nunca houve tantos escritórios fechados em Manhattan, onde 1,6 milhão de pedestres circulavam diariamente.
Nunca houve tantos escritórios fechados em Manhattan, onde 1,6 milhão de pedestres circulavam diariamente.Michael George / EPS

O próximo livro de Suketu Mehta será uma grande reportagem literária sobre a cidade aonde chegou da Índia quando menino e em cuja universidade dá aulas. Mehta, que observou cada metamorfose deste ser magnético e monstruoso, está otimista. “Para salvar Nova York, primeiro é preciso matá-la. Matar o quintal hipergentrificado dos ricos globais que ela virou. Talvez a cidade necessitasse deste desastre. O Greenwich Village tem como voltar a ser uma vila, em vez da sede de uma universidade corporativa?”, diz, em referência à instituição onde dá aulas. “As pessoas fugiram de Nova York? Não o suficiente. Para sobreviver, precisa ter menos gente rica. Mais aspereza. Mais permeabilidade. Mais uma vez, pode se tornar acessível para os jovens, os imigrantes, os que não são super-ricos”. Mehta defende a mestiçagem diante da impostação, até as últimas consequências. “O que amo no Queens [o bairro aonde chegou na década de 1970], que são a densidade e a diversidade, as duas coisas que o tornam delicioso, agora são criticadas como os fatores que causaram um inferno especial em Nova York”, diz o escritor, autor de This land is our land (“esta terra é a nossa terra”), sobre o brutal impacto do coronavírus no bairro onde cresceu. Porque, vícios à parte – é provavelmente a cidade do mundo que mais enfeitiça o visitante, embora gere uma espécie de síndrome de Estocolmo no morador –, Nova York é ao mesmo tempo a doença e seu remédio.

Apoie nosso jornalismo. Assine o EL PAÍS clicando aqui

Inscreva-se aqui para receber a newsletter diária do EL PAÍS Brasil: reportagens, análises, entrevistas exclusivas e as principais informações do dia no seu e-mail, de segunda a sexta. Inscreva-se também para receber nossa newsletter semanal aos sábados, com os destaques da cobertura na semana.

Arquivado Em:

Mais informações