Pandemia de coronavírus

Falta de critério único para a fila da vacina dificulta o controle de doses aplicadas em grupos prioritários

Ordem de vacinação definida por cada Estado e município brasileiro gerou dados imprecisos sobre vacinados, mostra estudo. Não se sabe exatamente qual a porcentagem de pessoas que poderiam já estar imunizadas, mas não estão

Profissional de saúde aplica uma dose da vacina da AstraZeneca/Oxford em uma mulher na Universidade Federal do Rio de Janeiro, no último 2 de junho.
Profissional de saúde aplica uma dose da vacina da AstraZeneca/Oxford em uma mulher na Universidade Federal do Rio de Janeiro, no último 2 de junho.Silvia Izquierdo / AP

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Além de vacinar lentamente a população contra a covid-19, Estados e municípios brasileiros adotaram diferentes critérios para vacinar os grupos prioritários, o que dificulta no acompanhamento preciso dos dados do país. Essa é uma das conclusões que se pode tirar de um levantamento feito por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) sobre a situação da campanha de vacinação no Brasil. Os dados levavam em consideração os vacinados até o dia 18 de maio. Mas há ainda outro percalço com o qual o Brasil não têm conseguido lidar com eficiência: o elevado índice de pessoas que já tomaram a primeira dose, mas não retornam para a segunda —neste sábado, o Estado de São Paulo realizou um mutirão de vacinação, com 5.000 postos de vacinação abertos, para tentar alcançar os 440.000 paulistas que já deveriam estar completamente vacinados mas não o fizeram. Até este domingo, pouco mais de 48 milhões de brasileiros haviam recebido a primeira dose (cerca de 23% da população) do imunizante contra o coronavírus e quase 23 milhões (10,8%) receberam a segunda.

No início da campanha de vacinação, o Ministério da Saúde, por meio do Programa Nacional de Imunizações (PNI), determinou quais grupos deveriam ter prioridade para tomar vacina, mas não estabeleceu regras precisas para cada um deles, deixando a decisão sob responsabilidade de Estados e municípios. Com isso, há locais que já estão vacinando, por exemplo, todas as gestantes e lactantes. Enquanto outros só estão disponibilizando o imunizante para as grávidas com comorbidades.

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Com os diferentes critérios, não é possível nem saber qual a real situação da imunização de profissionais da saúde, que deram início à campanha de vacinação, ainda em janeiro deste ano, por conta da maior exposição ao vírus. O levantamento mostra que, até 18 de maio, 36% desses profissionais ainda não haviam sido imunizados com a segunda dose em todo o país. O que explica? “A definição de profissional de saúde foi sendo utilizada no âmbito dos municípios de forma muito variada”, explica o médico epidemiologista Daniel Loureiro Werneck, pesquisador do Instituto de Medicina Social da UERJ e do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da UFRJ. Werneck é um dos coordenadores do estudo, ao lado de Ligia Bahia e Jéssica Pronestino de Lima Moreira, também da UFRJ, e de Mário Scheffer, do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP.

O Governo federal definiu no PNI quais as profissões que se enquadram na categoria “profissionais de saúde”, mas não precisou qual a ordem, dentro deste grupo, que Estados e municípios deveriam seguir para a vacinação, diante de uma quantidade de doses limitada. Com isso, houve Estados e municípios que adotaram uma regra ampla e incluíram logo na primeira leva profissionais como doulas, educadores físicos, veterinários ou biólogos, além de pessoas já aposentadas que não estão na linha de frente do combate à covid-19. Por outro lado, alguns lugares deixaram para vacinar profissionais da saúde mais jovens apenas agora. “Essas operacionalizações locais podem estar contribuindo para que essa segunda dose ainda não tenha sido dada”, argumenta. Uma parte, além disso, pode ter sido imunizada com a vacina da AstraZeneca/Oxford, que requer um intervalo de 90 dias entre a primeira e a segunda dose. “Se parte deles foi vacinada em abril ou maio [porque o calendário do município assim determinou], ainda não deu tempo de tomar segunda dose”. São necessárias duas doses para alcançar o grau de proteção contra o coronavírus previsto pelos imunizantes.

O segundo ponto que chama atenção é o fato de que, enquanto Estados se preparam para retomar a campanha de vacinação por idade em junho, somente 6,5% da população com comorbidades abaixo de 60 anos —menos de dois milhões de pessoas— haviam recebido até 18 de maio a primeira dose da vacina. Esse grupo, composto por quem possui doenças pré-existentes ou alguma deficiência, é estimado em pelo menos 31 milhões de pessoas no Brasil, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde, do IBGE, de 2019.

Esse é o número considerado pelo estudo para chegar à porcentagem. Porém, o Ministério da Saúde considerou, em sua primeira contagem, que essa população era de 17,7 milhões de pessoas. Depois, em 26 de abril, passou a considerar 28 milhões. São várias estimativas que tornam, mais uma vez, difícil acompanhar o ritmo da vacinação no plano nacional. “Mais uma vez, os critérios locais e a ordem de prioridade são muito variados, o que leva a muitas desigualdades e variações na cobertura”, explica Werneck. Além disso, há falta de clareza sobre se determinadas condições físicas e de saúde se enquadram, de fato, nos critérios estabelecidos.

O estudo aponta ainda que são “confusos os mecanismos de comprovação individual” —atestado médico, prontuários, registros de informações, entre outros— das comorbidades definidas como prioritárias. Além disso, prossegue o texto, este tipo de sistema acaba privilegiando pacientes da rede privada, com mais facilidades para obter atestados e relatórios médicos. Reportagem publicada no EL PAÍS no mês passado conta casos de médicos recebendo pedidos de receita e atestado para pacientes saudáveis, que buscam furar a fila. No início de junho a Prefeitura de São Paulo anunciou que passaria a reter os atestados médicos nos postos de vacinação para coibir tentativas de fraude.

Os diferentes critérios adotados pelos Estados também se estendem a outros grupos prioritários. Cabe a cada Governo estabelecer a ordem da vacinação de cada grupo, de acordo com o que considera mais importante. A Bahia, por exemplo, incluiu jornalistas e lactantes —entre segundo e o 12º mês pós-parto—, ambos a partir de 40 anos, entre os que já podem receber imunização. Além disso, os municípios que avançam mais rapidamente na vacinação dos grupos prioritários —que incluem trabalhadores do transporte e da educação, entre outros— já podem reservar 30% das doses recebidas para vacinar pessoas saudáveis entre 59 e 18 anos, de forma escalonada.

Já a cidade do Rio de Janeiro retomou na semana passada a vacinação por idade e realizou, neste sábado, a repescagem para pessoas com comorbidades— a capital fluminense estima que 35% das pessoas aptas a tomar a vacina ainda não se imunizaram. O Estado de São Paulo, por sua vez, prevê para julho a vacinação de pessoas de 55 a 59 anos e de profissionais da Educação de 18 a 44 anos. Em seguida, o Governo paulista projeta vacinar de 2 a 16 de agosto as pessoas entre 50 e 54 anos. A partir de 17 de agosto, deverão ser vacinadas pessoas entre 45 e 49 anos. Até que chegue a vez dos que têm entre 18 e 24 anos, entre 11 e 31 de outubro, conforme anunciado na última semana.

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Atraso na segunda dose

De forma geral, o estudo identifica que a vacinação da segunda dose atrasou em diversas camadas da população. Os números indicam que mais de 4,5 milhões de pessoas que tomaram a primeira dose da Coronavac até 18 de maio não haviam recebido a segunda dose, mesmo após os 28 dias preconizados entre uma dose e outra. Com relação aos imunizados pela vacina da AstraZeneca/Oxford, mais de 590.000 pessoas ainda não haviam tomado segunda dose, considerando o intervalo de 90 dias entre as duas aplicações. Além disso, 45% dos idosos com mais de 80 anos ainda não haviam completado a segunda dose. A cifra vai para 30% quando considerados os idosos de 70 a 79 anos.

Werneck analisa que essa lentidão está relacionada a vários fatores, como a demora no registro do sistema ou o recente atraso da entrega da vacina Coronavac aos Estados —que seguiram o protocolo do Ministério da Saúde e não guardaram imunizantes para a segunda aplicação. “Mas acho que o principal é que as pessoas se atrasam por conta própria. Se você não fica em cima, se não há uma campanha de comunicação reforçando a necessidade da segunda dose...”, argumenta. “É preciso fazer uma busca ativa e ter estratégia de captação dessas pessoas, porque senão é como se você tivesse jogando fora a vacina.”

População mais infectada é a menos vacinada em São Paulo

Gráfico produzido pelo Labcidade, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, sobre a população mais afetada pela covid-19 em São Paulo versus a população mais vacinada na cidade.
Gráfico produzido pelo Labcidade, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, sobre a população mais afetada pela covid-19 em São Paulo versus a população mais vacinada na cidade.Reprodução

Além da confusão de critérios e números que analisam o andamento da campanha nacional, outro estudo, feito na cidade de São Paulo, mostra que as estratégias por grupos prioritários também é falha. A capital paulista vem registrando, desde a primeira onda, maior incidência de coronavírus e casos de morte nas periferias da cidade. Porém, uma análise feita pelo Labcidade, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, mostra que essa população é também a menos vacinada.

Apesar de autoridades municipais se mostrarem mais preocupadas com a saúde das populações periféricas, explica o estudo, “essas narrativas não repercutiram em uma estratégia territorializada para conter a disseminação da doença”. De acordo com os autores, “a narrativa que associa a covid-19 a determinados territórios tem apenas o efeito de naturalizar as mortes causadas pela doença”. Chamam atenção para o fato de que, apesar de os atuais critérios englobarem todas as classes sociais, não existe qualquer política para acelerar a vacinação das camadas mais pobres e mais afetadas pela pandemia. “Mesmo com o reconhecimento da vulnerabilidade, não há adoção de políticas dirigidas especialmente para estes grupos e muito menos sua inclusão nas prioridades de vacinação”, explica a pesquisa.

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